Ciclo de Diálogos sobre Dança Espírita

 

TEXTO 11 – A DANÇA NA CASA ESPÍRITA: BUSCANDO CAMINHOS POSSÍVEIS

 Daniela Luciana Pereira Soares

almanova@ig.com.br

 “O lugar da dança é nas casas, nas ruas, na vida.”

                                                                                         Maurice Béjart

 1.CONSIDERAÇÕES INICIAIS

 Há um tempo atrás, falar em dança na casa espírita, com certeza provocaria certa estranheza.  Hoje em dia, sua presença está se tornando gradativamente mais comum e, penso particularmente, que num futuro não muito distante, nossos textos fazendo referência ao preconceito e as dificuldades iniciais na sua difusão dentro da casa espírita é que causarão certo espanto nos confrades espíritas.

            Atualmente, a dança aparece nos cenários espíritas junto a performances teatrais ou musicais ou em grupos constituídos especificamente para trabalharem com essa linguagem artística – os chamados grupos espíritas de dança[1]

            Dentre os grupos que conhecemos, muitos já contam com um pouco mais de uma década, mas a grande maioria vem de iniciativas recentes.  Dessa forma, a base teórica e filosófica que sustenta o trabalho dos grupos ainda está sendo construída e refletida pelos mesmos.  Embora saibamos que independente de termos consciência ou não, o nosso trabalho sempre reflete uma ideologia, uma maneira de pensar e a dança espírita não fuja disso, acreditamos que suas bases ainda estão criando raízes, através da troca de experiência entre os grupos e das reflexões buscadas nos grupos de discussão, bem como nos encontros voltados ao estudo da arte espírita e nas mostras espíritas de dança.

            A finalidade do presente artigo é refletir sobre os objetivos da dança na casa espírita e os diferentes papéis possíveis de serem exercidos por ela no seio da comunidade espírita. Faremos isso, através de um estudo de caso, tendo por companhia autores da Doutrina Espírita. Usaremos como material de análise, as experiências vivenciadas no Grupo Espírita de Dança Evolução[2] no período de 1995 a 2004, período em que tivemos na coordenação do grupo.

            Não temos a pretensão de lançar definições, apenas levantar pontos a serem refletidos, baseados na nossa experiência particular.  Acreditamos que a reflexão sobre a prática vivenciada nos grupos, alicerçada no estudo da doutrina espírita deve ser uma constante, para que o trabalho não se perca na práxis e se traduza num pensar, agir e sentir coerentes.

1.1             ENCONTRANDO UMA DIREÇÃO

O Grupo Espírita de Dança Evolução foi criado em Dezembro de 1995 no Instituto de Difusão Espírita, quando um grupo de jovens da mocidade, atendendo a um pedido do coordenador da Evangelização Espírita Infantil se uniu para criar uma coreografia sobre o tema Evolução.  Até então, nenhum dos jovens havia tido contado com a dança nem dentro nem fora da casa espírita, somente uma jovem tinha formação em dança e posteriormente passou a coordenar o grupo.  Com a apresentação dessa primeira coreografia, o grupo se constituiu como grupo espírita de dança e nunca mais parou.  É aí que começa uma história, pano de fundo para nossa análise, construída desde a base por cada um de seus integrantes.

No início do grupo, a idéia que tínhamos sobre os objetivos da dança na casa espírita, pairava sobre a divulgação do espiritismo.  Com o tempo, passamos a participar de encontros de arte espírita, voltados ao estudo e a reflexão e fomos construindo uma nova visão de arte.  Somado a isso, o Departamento de Evangelização do Instituto de Difusão Espírita, oferecia anualmente um Curso de Formação de Evangelizadores[3], no qual o papel da arte era muito valorizado, e se fundamentava na melhoria interior e na interação com a espiritualidade maior. Isso contribuiu para que constantemente nos questionássemos sobre a finalidade da dança na casa espírita e fôssemos buscar respostas.

“… A arte não é apenas uma forma de expressão, mas acima de tudo, uma forma de crescimento interior, de desenvolvimento das potências da alma. Pode-se tornar um ótimo elemento de integração vertical, auxiliando o Espírito a vibrar em sintonia mais elevada, afinando seus sentimentos estéticos e sintonizando com as esferas elevadas da vida, com vibrações sutis, com o amor que se amplia e se expande ao infinito.” (Alves, 2000, p.192)

 

            Essas experiências foram fundamentais, para que posteriormente viéssemos a definir com clareza os objetivos do nosso grupo.  Mas o que é objetivo?

            Procurando auxílio no dicionário, encontramos as seguintes definições:

                 Objetivo: Fim. Objeto que se quer atingir.

                 Objeto: Coisa. Motivo. Finalidade.

                 Finalidade: fim a que se destina uma coisa; objetivo; alvo.

            O objetivo é a bússola norteadora de qualquer trabalho, como vimos acima, o alvo que se quer atingir.  Se não sabemos claramente aonde queremos chegar, não chegaremos a lugar algum ou andaremos qual barco sem rumo ora se dirigindo a uma direção, ora a outra, seguindo a livre vontade do vento.

            Como disse anteriormente, a partir de várias vivências que nos fizeram refletir sobre os objetivos da dança na casa espírita e estudando obras da codificação referente à arte, elegemos como objetivo primeiro do grupo a reforma íntima.

 

“O objetivo essencial da arte, já dissemos, é a busca e a realização da beleza; é ao mesmo tempo, a busca de Deus, uma vez que Deus é a fonte primeira e a realização perfeita da beleza física e moral. Quanto mais a inteligência se purifica, se aperfeiçoa e se eleva, mais se impregna da idéia do belo. O objetivo essencial da evolução será, portanto, a busca e a conquista da beleza, a fim de realizá-la no ser e em suas obras. Tal é a regra da alma em sua ascensão infinita.” (Denis, 1994, p.9)

A interpretação pessoal que fazemos do trecho acima do livro “O Espiritismo na Arte” de Léon Denis, é que o objetivo essencial da arte repousa na melhoria íntima.       Quando ele afirma que “o objetivo essencial da evolução será, portanto, a busca e a conquista da beleza, a fim de realizá-la no ser e em suas obras”, entendemos que a realização da beleza no ser, não pode estar senão voltada para a melhoria interior, para a reforma íntima, visto que o corpo físico é perecível e só o espírito é eterno.  Da mesma forma quando se refere à realização da beleza “em suas obras”.  Nossas obras são o reflexo do que somos, e só refletirão a beleza à medida que esta cumprir-se em nós.

“Isto porque, para conceber, para produzir obras geniais, capazes de elevar as inteligências até o máximo do pensamento, até o ideal de beleza perfeita, é necessário primeiramente criar-se a si mesmo, edificar sua própria personalidade e torna-la suscetível de provar, de compreender os esplendores da vida superior e a harmonia eterna do mundo. Que forças, que luzes, que consolações, que esperanças podemos passar às outras almas se não temos em nós próprios senão obscuridade, dúvida, incerteza e fraqueza? (Denis, 1994, p. 87)

O trabalho do Grupo Espírita de Dança Evolução se desdobrava em vários grupos divididos por faixa etária, para facilitar o trabalho com a técnica de dança e os interesses e necessidades de cada idade. Nesta época, o grupo já contava com vários integrantes-professores, que ministravam aulas de dança nestes grupos.  A existência de um objetivo comum, claro para todos os integrantes, possibilitava um trabalho em uníssono, sem notas dissonantes aqui ou acolá. Também servia de alerta constante, para que buscássemos em nossas coreografias o reflexo desse ideal, nos afastando do culto a vaidade e ao orgulho ainda tão presentes em nós.

Acreditamos que a “reforma íntima” resume em si muitos dos objetivos que possamos traçar para a arte na casa espírita.  À medida que nos esforçamos em nossa melhoria interior, vamos gradualmente sintonizando com vibrações de teor mais elevado, despertando o potencial divino, latente em nós. Segundo ALVES (2000), o sentimento corresponde a estado vibratório que se amplia e se desenvolve. À medida em que se emite vibrações, sintoniza com vibrações de teor semelhante, e mais se desenvolve. Além disso, afirma que:

“Existem estados vibratórios ou sentimentos que o intelecto apenas, por si só, não atinge. Energias espirituais superiores vibram em nível superior e para senti-las é preciso entrar em sintonia. Apenas com a razão, com o intelecto, não conseguiremos elevar nosso padrão vibratório para sentir tais vibrações sutis. A arte, contudo, nos permite atingir esses estados superiores, elevando nossa vibração.” (Alves, 2000, p.193).

            Tendo a reforma íntima por fim do grupo espírita de dança, o objetivo da apresentação coreográfica passa a ser o “doar-se”.  A apresentação ganha um novo sentido, que vai além da demonstração técnica, da divulgação da doutrina, mas atinge o campo da vibração, a ação sem palavras, o diálogo de alma para alma.

            Isso que nos moveu a realizar uma apresentação na Clínica Psiquiátrica Antônio Luiz Sayão, em Araras/SP.  Todos estávamos cientes, de que os espíritos encarnados que ali se encontravam em corpos mutilados, desequilibrados mentalmente, não receberiam nossa mensagem pelos sentidos comuns, mas pela energia, pela vibração, pelo contato espírito a espírito que a arte ali estabeleceria.

            A transmissão do conteúdo espírita-cristão também é elemento importante, mas não um fim em si mesmo.  A maior propaganda que podemos fazer da Doutrina Espírita é nossa própria modificação.  De que adianta nos aplicarmos fervorosamente na difusão do espiritismo através da arte, se não nos aplicarmos a vivenciá-lo em nós mesmos.  É claro que a Doutrina Espírita estará presente como temática central nas coreografias dos grupos espíritas de dança, mas como já afirmamos em textos anteriores, sua força pousará na transformação moral já alcançada. Fácil é ludibriarmos sobre nossa verdadeira moradia espiritual através das aparências da carne, mas difícil é escondermos a vibração que emanamos, campo em que as máscaras caem e as transparências revelam.

2.2. CAMINHOS E POSSIBILIDADES

“Nenhum caminho é igual a outro não há rima perfeita nem em versos alexandrinos,mas todos os sonhos são voláteis às seis da manhã.”

                                                      Simão de Miranda

A dança na casa espírita se desdobra em inúmeras possibilidades, como as demais linguagens artísticas – música, teatro, literatura, artes plásticas.   Da criança ao idoso ela propicia uma gama de vivências significativas, seja no aspecto educativo, terapêutico, social e espiritual, sem contar os benefícios físicos e psíquicos proporcionados por ela.

            Segundo NANNI (1995), na Grécia a dança constituía parte fundamental da educação; realizada de várias formas, era empregada a partir de cinco anos até o limiar da velhice.

            Entre as civilizações primitivas, vemo-la ligada aos rituais, ao êxtase, como elemento de ligação com o divino.  Em diferentes períodos da humanidade podemos ver essa relação que ela estabelece com a religiosidade, ora intensificando-a, ora se desligando quase por completo, refletindo o pensar, o sentir, o querer de um povo, de uma época.

            Iluminada pelo conhecimento espírita, mostra-se como elemento de ligação com Deus, de sensibilização, de estímulo à capacidade criativa, de elevação de padrões vibratórios, dentre tantos outros.

            A dança, a arte de forma geral, é sem dúvida elemento valioso dentro da casa espírita, que se bem utilizado, canalizará energias para o bem e belo, propiciando elevação e renovação.

“Não há dúvida de que a arte produz fortes estímulos a fortalecer e impulsionar nossas energias para o bem e para o belo, despertando nossas energias superiores, trabalhando nossa vontade, nosso querer para o melhor, para o belo, para o nobre, para o superior. Ao mesmo tempo a arte permite oferecer oportunidade de experiências variadas atendendo às tendências e aptidões individuais. A música, a dança, o teatro, as artes plásticas, a literatura, formam ambiente de nível superior a tonificar o Espírito, alimentando suas tendências para o melhor e estimulando as regiões superiores da alma, o germe da perfeição, a essência divina que se desenvolve gradativamente em todos nós.” (Alves, p.47)

No campo da evangelização espírita infantil direcionará a vontade a ideais superiores, será veículo de educação do sentimento, despertará o potencial criativo.  A dança vem de encontro com a necessidade de movimento e expressão da criança, educativa por excelência, poderá estar presente como estratégia metodológica para se aprender um conteúdo, de forma ativa e construtiva ou como oficina em um horário a parte da evangelização, propiciando vivências estéticas que se refletirão em toda a vida da criança.

 

“Deixai que as crianças bebam nas fontes mais puras da Arte terrestre… Que elas possam exercitar a sua sensibilidade, ouvindo as melodias mais doces jamais feitas; olhando as cores e as luzes mais sutis já tecidas; declamando os poemas mais elevados jamais compostos; sentindo as produções mais próximas da divindade que o homem já atingiu. Fazei isso com todas elas e se não tiverdes no futuro todos os homens literalmente artistas, tê-lo-eis moralmente melhores e mais criativos.” (Schiller, mensagem psicografada, médium Dora Incontri, in: A Educação Segundo o Espiritismo, p. 215)

Dentro da experiência vivenciada no Grupo Espírita de Dança Evolução, a oficina de dança era realizada em um horário a parte do horário da evangelização, embora também estivesse presente nas aulas e em comemorações realizadas pelos evangelizadores, e reunia crianças que tinham interesse pela dança[4]. O trabalho da oficina de dança, que ocorria semanalmente e em horários pré-estabelecidos, consistia no aprendizado de técnicas específicas de dança e vivências de improvisação e criação livre, que também abrangiam temas que as crianças estavam estudando na evangelização.  O ápice do processo ocorria na criação e apresentação de coreografias a partir dos temas estudados, o que também servia de estímulo ao trabalho do grupo, que se submetia a treinos e ensaios que exigiam muita disciplina, persistência e força de vontade.

Além do campo da evangelização infantil e da mocidade espírita, a dança oferece ao adulto e ao idoso as mesmas oportunidades de expressão e crescimento, alcançando também, níveis terapêuticos.  María Fux, bailarina argentina e criadora da dançaterapia[5] nos diz que a necessidade do adulto expressar-se através de seu corpo é uma necessidade imperiosa, pois com o passar dos anos, o adulto, especialmente, restringe seus limites corporais e psicológicos.  Afirma ainda, que somente arrancando e desenvolvendo as possibilidades internas e físicas que temos, é que podemos equilibrar-nos.

“Creio que a dança e o movimento, encarado no criativo que todos temos, ajudam a uma profilaxia terapêutica que deveríamos realizar diariamente.”

“O movimento e a possibilidade de estimulá-lo com a música, a palavra ou o silêncio, revela no espaço a psicologia profunda do indivíduo. Isto se obtém melhorando as possibilidades existentes, desenvolvendo outras e, fundamentalmente, fazendo sentir ao grupo a possibilidade criadora que há dentro de cada um de seus integrantes: deste modo é possível desenvolver não só a parte física, mas também a psíquica, estimulando-os a um reencontro que produz descarga e alegria.” (Fux, 1983, p.115)

               Grupo Espírita de Dança Evolução Adulto apresentando-se durante a III Mostra Espírita de Dança

            A primeira experiência com adultos e idosos no Grupo Espírita de Dança Evolução, surgiu da necessidade de envolvermos mais a casa espírita e os pais dos integrantes do grupo na vivência artística, no nosso caso, a dança. 

            O trabalho do grupo era intenso, ensaios em finais de semana e feriados, muitas apresentações e viagens, enfim, uma proposta que exigia muita dedicação e envolvimento, nem sempre compreendida por aqueles que olhavam de fora.  Embora o apoio que recebíamos da casa espírita que nos acolhia, sentíamos a necessidade da arte ser vista com a mesma dimensão das outras atividades da casa.  Então, partindo da premissa que se a dança nos trazia tantos benefícios físicos como espirituais, também o faria aos demais companheiros da casa, não importando a idade cronológica, iniciamos o grupo adulto.

            As aulas eram realizadas semanalmente e em horário pré-estabelecido e, como citamos nos grupos anteriores, compreendiam também vivências de diferentes técnicas de dança e improvisação.  O pequeno grupo, formado inicialmente, chamou a atenção de outros trabalhadores da casa, e mais companheiros vieram espontaneamente se juntar à nova experiência.            Ao propormos uma apresentação, como resultado do trabalho e das vivências do grupo, num primeiro momento, mostraram-se resistentes, mas a resistência inicial foi cedendo lugar à alegria, ao entusiasmo e a um envolvimento cada vez maior.

            Para exemplo e admiração de todos, uma das senhoras mais idosas da casa, foi uma das primeiras a integrar o grupo, ensinando-nos a todos, que os limites estão mais na mente que no corpo, e que a dança, vivenciada em sua totalidade, não impõe limites, senão aqueles que nós próprios nos impomos.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

            Nossas limitações ainda não nos permitem divisar toda a dimensão da dança na vida humana e além dela. Aqui, apresentamos um pouco da nossa experiência e das nossas reflexões particulares no campo da dança na casa espírita.

            Os caminhos são muitos. Cada experiência é única e muito particular.

            Não existe caminho certo, nem receitas a serem seguidas.  A experiência se constrói dentro do contexto em que está inserida e das relações que estabelece com cada indivíduo envolvido, em determinada época e lugar.  Com toda a certeza, as experiências vivenciadas no Grupo Espírita de Dança Evolução, no período de 1995 a 2004 serão diferentes das atuais e estas, diferentes das porvindouras. Cada experiência é singular, sem parâmetros para comparações, mas significativa e transformadora, para cada um, dentro do seu universo particular.

            Desejamos, que o nosso relato contribua de alguma forma, com o trabalho dos diferentes grupos, não como modelo a ser seguido, mas como pequenina semente, que levada pelo vento, dê origem a novas vivências de transformação e alegria.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALVES, Walter Oliveira. Introdução ao Estudo da Pedagogia Espírita: Teoria e Prática. 1ª edição. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 2000.

ALVES, Walter Oliveira. Prática Pedagógica na Evangelização: Conteúdo e Metodologia. 1ª edição. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1998.

DENNIS, Leon. O Espiritismo na arte. 2ª ed. Rio de Janeiro: Publicações Lachâtre, 1994.

FUX, María. Dança, experiência de vida. 3ª ed. São Paulo: Summus, 1983.

INCONTRI, Dora. A Educação segundo o Espiritismo. 1ª ed. São Paulo: FEESP, 1997.

NANNI, Dionísia. Dança Educação: Pré-escola à Universidade. Rio de Janeiro: Sprint, 1995.

ROCHA, Ruth. Minidicionário. São Paulo: Scipione, 1995.

O que é dançaterapia. Disponível em:

http://www.dancaterapia.com.br/


[1] Entendemos aqui, por grupo espírita de dança, um conjunto de pessoas, seja jovens, adultos ou crianças que se reúnem regularmente para aprimorarem técnicas de dança, estudarem e montarem coreografias à luz do espiritismo, bem como realizarem apresentações.

[2] Grupo criado em Dezembro de 1995 no Instituto de Difusão Espírita em Araras/São Paulo, que desenvolveu um trabalho de dança à luz do Espiritismo envolvendo crianças, jovens, adultos, idosos e portadores de necessidades educativas especiais. O trabalho do grupo culminou com a criação da I Mostra Espírita de Dança “Oficina do Espírito” em Outubro de 2001. O grupo atua até hoje.

[3] O Curso de Evangelizadores é oferecido anualmente no Instituto de Difusão Espírita – Araras/SP no período do carnaval e conta com oficinas artísticas de dança, música, teatro, artes plásticas e literatura.

[4] O Departamento de Evangelização do Instituto de Difusão Espírita oferecia várias oficinas artísticas (dança, música, teatro, artes plásticas e literatura) em horários a parte da evangelização.  As crianças tinham liberdade de optar pela oficina que mais lhe despertasse o interesse. Muitas crianças faziam mais de uma oficina.

[5] Dançaterapia é uma abordagem corporal, voltada ao conhecimento pessoal que estimula o movimento criativo e a espontaneidade do corpo, motivando a comunicação e a integração entre as pessoas, procurando oferecer-lhes confiança para transformar o  eu não posso por uma nova atitude do corpo que diz: Sim, eu Sou Capaz. Fundamentada na metodologia criada pela bailarina argentina María Fux e na transpessoalidade, a Dançaterapia busca utilizar os recursos artísticos, educacionais e terapêuticos da dança para encontrar as pessoas e auxiliá-las a descobrir caminhos, superar os desafios e viver mais felizes.  

TEXTO 10 – Dança Espírita – O que sabemos?

por Denize de Lucena[1] 

Esperançosos de que também a dança, se faça colaboradora deste sublime momento de ascensão da arte divinizada, que como bem previu o insigne codificador (1995, p. 327)  “em breve, vereis os primeiros esboços da arte espírita, que mais tarde ocupará o lugar que lhe compete”, iniciamos nosso diálogo sobre esta linguagem que tanto nos encanta.

Antes de polir a pedra e construir abrigos, os homens já se movimentavam ritmicamente para se aquecer e comunicar.

Considerada a mais antiga das artes, a dança é também a única que dispensa materiais e ferramentas. (…) As danças coletivas também aparecem na origem da civilização e sua função associava-se à adoração das forças superiores ou dos espíritos para obter êxito em expedições guerreiras ou de caça ou ainda para solicitar bom tempo e chuva. (…) No antigo Egito, 20 séculos antes da era cristã, já se realizavam as chamadas danças astroteológicas em homenagem ao deus Osíris. O caráter religioso foi comum às danças clássicas dos povos asiáticos.      (ANDRADE, 2000)

Ligada ao homem e ao sagrado, a dança não raro, está presente nas manifestações ritualísticas de quase todas as civilizações antigas e se mantém viva, em muitos agrupamentos religiosos da contemporaneidade. Desde o aparecimento do próprio homem, há registros de sua presença nas pinturas rupestres e nas primeiras grandes civilizações como Grécia, Índia e Egito. De caráter mágico, logo passou a ser conduzida por iniciados e sacerdotes, sendo geralmente circular e coletiva.

(…) na medida em que a arqueologia consegue traduzir as inscrições dos “povos pré-históricos”, ela nos indica a existência da dança como parte integrante de cerimônias religiosas, nos permitindo considerar a possibilidade de que a dança tenha nascido a partir ou de forma concomitante ao nascimento da religião.                                                                      (MOURA, 2007)

Após um longo período de isolamento e proibições durante a Idade Média, a dança foi resgatada pelas cortes da Itália renascentista, dando-lhe um caráter de virtuose, passando a ser executada em pares. Sua crescente lapidação e exigência técnica deram origem ao ballet clássico e à profissionalização desta arte. Iniciado na Itália, desenvolvido em França e aprimorado na Rússia, o ballet, devolveu à mulher a possibilidade de participar da dança, dando-lhe o tom sublime, leve e puro da mulher-princesa, da mulher-divina, da mulher-amada que irá permear o ballet de repertório[2].

As mudanças ocorridas no século 20, em especial na sua segunda metade, causaram transformações em vários setores da sociedade, inclusive o da dança, fazendo nascer diversas categorias e técnicas. Nomes como Isadora Duncan, George Balanchine, Pina Bausch, Martha Graham e Rudolf Laban, dentre muitos outros, irão colaborar para o desenvolvimento e a profissionalização da arte da dança.

Para nos orientar no estudo do nosso objeto em questão – a  dança espírita – vamos começar por um conceito. Como a definição comum de adjetivo é palavra que qualifica o substantivo, podemos entender aqui, que espírita agrega qualidade à dança. Assim, vamos defini-la como a dança pensada e executada com objetivos ligados à Doutrina Espírita. Embora Kardec não tenha frisado em suas obras referência expressa à dança, podemos e iremos certamente tomar para esta tudo o que foi dito a respeito da arte e da inesgotável fonte de inspiração que lhe se tornará o mundo material e espiritual, sob a ótica Espírita.

Sem dúvida, o Espiritismo abre à arte um campo inteiramente novo, imenso e ainda inexplorado. Quando o artista houver de reproduzir com convicção o mundo espírita, haurirá nessa fonte as mais sublimes inspirações e seu nome viverá nos séculos vindouros (…)           (KARDEC, 1995, p.159)

As páginas na literatura espírita referentes à dança são esparsas mas valorosas, como os bailados graciosos que espargiam feixes de luzes multicores, descritos por Camilo Castelo Branco no conhecidíssimo “Memórias de um suicida” de Yvonne do Amaral Pereira ( pp. 552 – 554 ) e a dança emocionante de Isadora Duncan (espírito), relatada de maneira empolgante pelo jornalista e dramaturgo Silveira Sampaio, em Pare de Sofrer ( pp. 94 – 97 ). [3] Pinceladas de atuações da dança no plano espiritual, que nos revelam a utilização desta linguagem como instrumento para manipulação de energias e seu emprego com finalidade terapêutica.

A sala escureceu e o silêncio se fez. A pesada cortina desapareceu e em meio à escuridão do palco surgiu uma névoa prateada que foi crescendo e aos poucos tomando uma forma de mulher. (…) Formas coloridas de pessoas com seus instrumentos dançavam no ar (…)

(…) Ela começou a dançar e dela emanavam luzes coloridas (…), expressando sentimentos de luz e beleza tão elevados que energias coloridas e luminosas nos atingiam e emocionavam sensibilizando-nos a alma.

(…) Quando terminou e ela curvando-se acenou adeus, da platéia silenciosa e extasiada saiu uma energia de um rosa brilhante misturada ao lilás suave, que a abraçou com carinho. (…) pude ver que nos olhos dela, brilhantes de emoção, duas lágrimas rolaram qual pérolas de gratidão e de amor.                                                 (SAMPAIO, 2002, pp. 96 – 97)

Quem já passou pela experiência da dança, sabe o quanto de energia se consegue perceber e emanar daquele que dança. Distante da razão da arte dramática e mais próxima da subjetividade da música, a dança materializa as energias e as faz movimentar, potencializando-as com as energias provenientes do próprio ser e dialogadas com as daqueles que o observam.

Ele (o perispírito) vibra aos menores impulsos do espírito e transmite ao corpo físico as vibrações forçosamente reduzidas. (…) A correlação entre os dois envoltórios: físico e perispiritual, diz respeito a uma lei única, a das vibrações.    (DENIS, 1994, pp. 96 – 97)

O dançarino espírita, consciente desta lei, desenvolve seus movimentos como um maestro que rege a orquestra da natureza. Não são apenas sinestésicos, mas energéticos. Iniciam-se nos seus próprios centros de força, irradiam-se entre si, potencializando-se e ampliam-se, ocupando os espaços da apresentação em um diálogo vibracional entre palco e platéia. Ao dançar, o dançarino espírita pinta no ar com tintas de luzes coloridas e fluidos que mobilizam os sentimentos que escolheu e lapidou durante os ensaios. A música o auxilia na materialização destas forças que envolvem a si e à platéia. Daí o cuidado que se deve ter na escolha do repertório musical.

A música espírita não é, sem dúvida, a única opção mas certamente facilita a criação do coreógrafo e a execução dos dançarinos espíritas pois que, de igual objetivo,  já traz em si a temática e a vibração adequadas à visão espírita. Outra razão para a preferência pela música espírita é a sua quantidade e qualidade cada vez maior, além de estarmos também colaborando para a sua divulgação.  Como nos diz  a equipe de dança do site Evangelizar “Se nós que somos artistas espíritas, se nós que somos bailarinos e coreógrafos espíritas, não falarmos de temas espíritas em nossas coreografias, quem falará por nós?“[4]

Multiplicam-se músicos, intérpretes e grupos[5] com CDs lançados ou não, com músicas mediúnicas ou não, que podem e devem ser utilizadas pelos grupos e solistas da dança espírita, somando assim para um verdadeiro trabalho de socialização da arte espírita, ainda tão pouco conhecida do nosso público. Outro aspecto que gostaríamos de abordar sobre a dança (também presente nas demais linguagens da arte espírita) é o trabalho atuante da espiritualidade, com os encarnados e desencarnados durante as apresentações.

Espetáculos, sinfonias, apresentações são utilizados assim como instrumentos cirúrgicos a repararem simultaneamente os corpos etéreos daqueles que ali se encontram, arrebatando do fundo de suas almas, o reconhecimento da filiação divina a que têm vínculo e herança.                                                                  (BENTO, 2002)

Ao dançar[6], fazemos do nosso corpo o instrumento para as notas da espiritualidade. E porque não há espaço para racionalizar, nos fazemos instrumentos quase perfeitos, espécies de refletores de energias que nos envolvem e envolvem a todos no ambiente. Todas as atividades desenvolvidas pelos agrupamentos espíritas são utilizadas pela espiritualidade para desenvolver ações educativas, reconfortadoras e/ou terapêuticas. A música, já utilizada em algumas de nossas casas para ambientação nos momentos de prece, meditação, de preparação para o passe ou para os trabalhos mediúnicos é um dos muitos exemplos que podemos citar da utilização das energias potencializadas pela atividade artística, empregadas pelos benfeitores espirituais. Algumas casas já utilizam oficinas de artes simultaneamente às atividades mediúnicas, por orientação da própria espiritualidade, como forma de terapêutica espiritual. Além da utilização da arte junto às atividades da infância e juventude, pela maioria de nossas instituições.

Quando o homem houver desligado-se das imagens e sensações terrenas, através do intercâmbio e das visões do mundo espiritual, das esferas onde a alegria, a harmonia e a paz reinam, refletirá em seu corpo espiritual e este imprimirá no soma as energias divinas e harmônicas do Universo. A dança será então, como já o é em esferas sutilizadas, um cântico de louvação fisicalizado em luzes e formas, emitindo irradiações salutares e terapêuticas, unindo almas em sintonia com os benfeitores e elevando o ser ainda mais, a planos de sutilíssimas harmonias.  (ARIEL, 2003)

A dança espírita, como qualquer outra atividade em nossas instituições, exige comprometimento e dedicação, companheirismo e estudo, harmonia e auto-educação. Não está limitada àqueles que possuem conhecimentos técnicos e corpos amadurecidos pela técnica, mas sem dúvida, é de grande importância ter pelo menos a orientação de alguém que conheça alguma das técnicas de dança, os elementos básicos desta linguagem e noções de composição coreográfica para que se dê a qualidade mínima para um trabalho que se pretende, seja respeitado e apoiado pelos companheiros espíritas.

A continuidade, já nos dizia Kardec (2007, p. 25), é característica de um estudo sério. Assim também deve ser com o trabalho da arte dentro das lides espíritas. Deve se ter claros os objetivos, ter um programa de pelo menos médio prazo, com regularidade de encontros, exercícios de preparação corporal que possam dar sintonia e sincronismo entre os elementos do grupo, proporcionar instantes de estudo da linguagem sempre buscando as conexões com as bases doutrinárias, avaliações freqüentes do trabalho do grupo mas também do crescimento e amadurecimento dos seus componentes na linguagem e na Doutrina.

Dançar, se dança em qualquer lugar, para fazer aulas de dança e se apresentar, há uma centena de academias e escolas em qualquer cidade deste país, não é necessário estar em um centro espírita. Mas se a minha escolha consciente é reunir o prazer de dançar com o conhecimento que a Doutrina Espírita despertou em mim, e fazer desta união a minha atividade na seara do Cristo, aí sim, eu vou participar de um grupo de dança espírita.

Ah… minha bailarina

Seu desafio é crescer

Antes do que você pensa

A luz mais intensa virá de você[7]    (César Tucci)

Deixamos aqui o convite para que possamos estimular o fazer e o pensar a dança espírita em nossas instituições, eventos e atividades, no intuito de incentivar grupos e companheiros no envolvimento com a dança, revestida das sutilezas da nossa Doutrina, aproveitando toda a sua potencialidade no desenvolvimento do homem novo que tanto aguardamos. É necessário que aqueles que ainda timidamente atuam nesta área possam trocar experiências, somando e multiplicando para que possamos ver com maior freqüência a dança espírita no nosso meio e além. E se perguntarem por onde começar, a resposta será simples: pelo começo. Reunir aqueles cujo interesse pela dança espírita seja ponto em comum, é um excelente iniciar.

O que dançar, como dançar, quando dançar, onde dançar, com quem dançar e todas as demais questões que por ventura possam estar acolhidas nos corações espalhados pelo Brasil, são questões que se auto-responderão quando a ação do QUERER DANÇAR for o móvel dos nossos encontros. Abrir espaços dentro e fora de nós, é de hora, o mais que suficiente. Utilizar todos os veículos, a internet, as listas, grupos, orkut, msn, produzir e divulgar vídeos, artigos, diários com as experiências já realizadas e as inquietações presentes, promover e estimular a promoção de mostras, encontros e festivais que possibilitem a troca e a qualificação dos que fazem ou querem fazer dança espírita, são caminhos que necessitam ser multiplicados em nossas cidades, estados e em todo o país. Precisamos buscar palcos que abriguem nossos ideais e fazer da dança espírita mais uma bandeira para a construção da nova era.

Quem me dá a honra desta contra-dança?!

Denize de Lucena

 (Salvador, Ba)

denizedelucena@terra.com.br

 Bibliografia:

§          Andrade, Dyone. Quem dança é mais feliz. – A História da Dança. Disponível em: http://br.geocities.com/quemdancaemaisfeliz/interna1.html        Acesso: 16/06/2008

§          ARIEL. (espírito) Dança, vibração da alma. Mensagem psicografada. Arquivo da Comunidade Arte e Paz. Salvador, 2003.

§          BENTO. (espírito) Caridade, Arte e Beleza. Mensagem psicografada. Arquivo da Comunidade Arte e Paz. Salvador, 2002.

§          DENIS, Leon. O espiritismo na arte. 2a. ed.Niterói, RJ: Lachâtre, 1994.

§          KARDEC, Allan – tradução Guillon Ribeiro. Obras Póstumas. 27a. ed. Brasília:  Editora FEB, 1995.

§          KARDEC, Allan – tradução Salvador Gentile. O Livro dos Espíritos. 169a. ed. Araras, SP:  IDE, 2007.

§          Moura, Prof. Dr. Manoel Oriosvaldo de (Org.) – Faculdade de Educação – USP. Metodologia do Ensino de Matemática – História da Dança. Disponível em:

          http://www.passosecompassos.com.br/matedanca/historiadanca.htm 

          Acesso: 16/06/2008

§          SAMPAIO, Silveira (espírito).GASPARETTO, Zibia (médium). Pare de sofrer. 12a. ed. São Paulo: Vida e Consciência, 2002.


[1] Licenciada em Artes Cênicas pela UFBa – BA, Pós-Graduada em Supervisão Escolar pela Cândido Mendes –RJ, espírita desde 1995, integrante da Comunidade Arte e Paz – Ba.

[2] Histórias compostas para ballet. Ex.: O quebra-nozes, A bela adormecida e O lago dos cisnes, de Tchaikovsky;  Coppélia, de Léo Delibes; Gisele, de Adolphe Adam; Romeu e Julieta, de Prokofiev; dentre outros.

[3] Ver bibliografia.

[4] http://www.evangelizar.org.br

[5] podemos sugerir ainda o site  http://www.musicexpress.com.br/Genero.asp?genero=33  e  http://www.cvdee.org.br/ev_musica.asp  onde podem ser encontradas várias músicas espíritas.

[6] É claro que me refiro aqui a uma dança específica, a uma dança que busca a beleza e a elevação.

[7] Trecho da música “bailarina” de César Tucci.  ( tucci@francanet.com.br

 

TEXTO 9 – “Dança Espírita – Algumas Relações entre a Dança e a Religião.”

Paulo Cézar da Silva

 Este artigo pretende analisar um pouco do processo de relação entre dança e religião, em especifico na Dança Espírita, pontuando um pouco desta relação na história da sociedade, se aprofundando nas relações existentes dentro do processo de educação do homem e do espírito em diálogo com as Obras de Walter Alves, através de um relato pessoal da participação em um projeto social que aplicava as propostas deste autor. Para contextualizar as relações entre dança e religião na Doutrina Espírita, se fará um paralelo entre a religião e a dança dentro de alguns fundamentos e experiências verídicas vivenciadas no Grupo Espírita de Dança Evolução[1] (GEDE),  com o intuito, de trazer a tona algumas reflexões pertinentes a atuação destes bailarinos e grupos, que visão contribuir para o processo de educação e evolução espiritual, individual e coletiva.

Esta reflexão se pautou em minha experiência pessoal de 10 anos como bailarino do GEDE somada ao estudo e a prática em diferentes setores da casa e do movimento Espírita. O contato com a dança e com a Doutrina Espírita foi fundamental para a minha escolha profissional, a Dança. Atualmente estou cursando o sétimo período do Curso de Graduação e Licenciatura em Dança na Universidade Federal de Viçosa, além de atuar como bailarino de um grupo profissional. Tenho priorizado como área de pesquisa nestes anos de curso, a composição coreográfica, sempre buscando relacionar todos os conhecimentos adquiridos na graduação com as experiências anteriores no grupo de Dança Espírita e na Doutrina Espírita.                                                

Um dos primeiro pontos para a reflexão, parte das diferentes expressões e relações entre dança e a religião na história da humanidade, que estiveram relacionadas com a sociedade, com o homem e a religião.  Trata-se de uma pesquisa de natureza exploratória e descritiva, com uma análise das relações que ocorrem nesta prática, dialogando, através dos conhecimentos religioso, artístico, de dança, do homem, sobre um prisma holístico (bio-psico-social e espiritual).

A dança está presente na história da humanidade desde o princípio da comunicação e expressão do homem, através do movimento e do gesto, onde o homem utilizou o corpo e o movimento como instrumento de expressão e comunicação com o meio e com o outro.

O movimento e, por conseqüência, a dança, como todas as artes, foi fruto da necessidade de expressão do homem, sendo considerada parte de sua natureza, tão antiga quanto o próprio homem, ou até mesmo anterior à sua existência.

Assim, também, temos nesta natureza humana a necessidade de expressar e trabalhar com o desconhecido, as forças da natureza, a vida e a morte; tendo o homem diante de si forças superiores, além de sua compreensão e domínio; sendo que, personifica este desconhecido como algo superior, um deus, surgindo então representação dos deuses e do divino.

E com a representação dos deuses, se desenvolve o culto, o rito e a religião e segundo Blackham (1966:03):

“A religião se refere aos deuses, mas nem todo pensamento religioso é obrigatoriamente relativo aos deuses. Para identificar o comportamento religioso, de fato existente em qualquer sociedade e em qualquer tempo, não é necessário nem útil possuir uma definição de religião, (…) Religião existe sempre, concreta e identificável.” (BLACKHAM, 1966:03)

 

Dentre as necessidades do homem, no passado surgiram diferentes manifestações de comunicação e expressão fundamentadas nas vivências íntimas, através das relações com o meio e com o outro, o que em diferentes épocas passou por transformações e permitiu a evolução das mesmas. Aperfeiçoa-se o seu instrumento de exteriorização íntima e de relacionamento com o outro e com o mundo: o corpo, o movimento, os gestos e as expressões faciais, alcança-se a comunicação.

Pode-se observar que tanto a dança, quanto a religião se desenvolvem de diferentes formas e em diversos campos, vindo muitas vezes a se relacionar, podendo remeter a origem de uma à outra. Temos em alguns povos, tanto a religião quanto a dança, com suas características de origem, expressões que surgem juntas, sendo construídas como um fato social, que se desenvolvem em contextos sociais. Sendo as mesmas constantemente extraídas da sociedade para o contexto histórico, influenciando os diferentes povos, nas diferentes épocas.

Temos na frase de Maria-Gabriele Wosien[2] (1988:07) o relato desta interação da religiosidade e da dança.

“A dança é o retrato dinâmico da história humana. Ela nos relata a experiência do entusiasmo, da presença plena e atemporal que une o ser humano com o divino.” (WOSIEN G. – 1988:07)

 

Esta interação trouxe influências, em diferentes épocas na sociedade, transformando o comportamento do homem e suas relações internas, com o meio e com o outro, tornando-se um tema relevante como objeto de pesquisa, tanto no campo da religião, quanto da dança, um dos fatores preponderantes neste trabalho e de grande importância aos Bailarinos Espíritas e em especial aos coreógrafos.

Em se tratando da relação entre dança e religião observa-se nos dias de hoje diferentes religiões que trabalham com esta interação, dentre as quais a dança está presente de diferentes formas, seja através do acompanhamento musical, de atividades que tragam a alegria, que permitam o louvor, que transmitem a mensagem religiosa, que cultivam e desenvolvam a transformação moral, como trabalho social e de socialização, dentre outros focos e meios através do qual, ocorrem e podem ocorrer estas relações.

Importante ressaltar, que a dança estabelece relações diferentes de uma crença para outra, mas através do corpo, do movimento e da arte, estas relações se assemelham em suas expressões e intenções no trabalho com a dança em diferentes religiões.

Através desta pesquisa buscou-se aprofundar uma relação em específico, optou-se pela Dança dentro do espiritismo, pois abrange através de sua prática e estudo, os campos da ciência, da filosofia e religião, interligados e dependentes.

Para melhor compreender a relação entre dança e religião no espiritismo, torna-se necessário, retomar alguns preceitos básicos desta doutrina.

O espiritismo surgiu no final do século XIX, através de Allan Kardec, o codificador da doutrina, que traz uma nova forma de fé, que se baseia na razão, através do qual analisa todos os conceitos apresentados ao homem e pelo homem sob o prisma do tríplice aspecto citado anterior, aceitando somente aqueles que estão de acordo com a racionalidade. A Doutrina Espírita possibilitou ao homem e a sociedade uma religião fora do dualismo cartesiano, ao contrário, uma religião com bases holísticas que vê o homem como ser bio-psico-social e espiritual em constante evolução.

Tem-se então uma doutrina que pauta-se na razão, diferentes da maioria das religiões conhecidas no mundo ocidental, mas que mantém bases firmes com a religião, através do Cristianismo, que é resgatado de forma viva e racional através da codificação do livro Evangelho Segundo o Espiritismo, que, somado a toda a codificação trás os preceitos e orientações ao espírito sobre os processos de evolução e aperfeiçoamento do ser.

O espiritismo não é considerada uma religião constituída, mas tem indiscutivelmente conseqüências religiosas, através de seus conceitos, índole, no qual não aceita nenhuma forma de culto material, nem cargos eclesiásticos. Pois, é vista como uma doutrina filosófica de efeitos religiosos, que possui aspectos religiosos, bem como, aspectos científicos e filosóficos.

Como a maioria das religiões ocidentais, o espiritismo estuda e segue o cristianismo, buscando na moral cristã os conceitos norteadores para sua vida em sociedade.

Concluí-se então, que os adeptos do espiritismo, os espíritas, são aqueles, que conscientemente aderem a Doutrina e portanto, concordam com seus princípios e aceitam as conseqüências de suas teses, em suas idéias formadoras, em sua vida moral, social e espiritual.

O trabalho com a Dança Espírita encontra-se baseado, também nesta tríade, ciência, filosofia e religião, para desenvolver e aplicar com êxito, os pressupostos da doutrina através da dança. Onde, a relação de religião e dança através da soma de seus atributos e recursos, influenciam o comportamento do homem individual e coletivo.

Pois, a arte não é apenas uma forma de expressão, mas acima de tudo, uma forma de crescimento interior, de desenvolvimento das potências do homem e da alma, tornando-se então, um ótimo elemento de integração vertical, entre o homem e o divino, auxiliando na elevação da sintonia do mesmo, aproximando-o de Deus. Como aborda Wostien [3] em seu livro – Um Caminho para Totalidade.

A dança, por isso, não é apenas a transparência do divino, assim como uma janela aberta, uma vista para o divino. A dança também não é uma viva imagem reminescente – a dança é, em tempo e espaço, um signo, um acontecimento visível, uma forma cinética para o invisível.” (WOSTIEN, 2000)

A arte, em específico a Dança trata de desenvolver o Ser humano integral, possibilitando o desabrochar de todos os potenciais do espírito, sejam intelectuais, afetivos ou morais. O que permite encarar a mesma como educadora, podendo ser considerada como um meio ou instrumento para ensinar e aprender a temática Espírita, uma forma de vivência prática da teoria doutrinária, uma modalidade que em sua essência carrega os princípios do sagrado, integrando corpo, espírito e divino.

Claro que o trabalho com a Dança em dialogo com a religião dependerá do foco, dos objetivos, ideais e estruturas que caracterizar cada grupo e/ou instituição em que este trabalha e se desenvolve.

Para distinguir a minha reflexão a partir de agora em diante, irei fundamentar a minha abordagem de Dança Espírita seguindo os caminhos da educação ou evangelização de espíritos, tomando como referência o autor de vários livros na área da Educação Espírita, Walter Oliveira Alves: Em síntese, a educação tem como objetivo auxiliar a evolução do espírito.” (AVES, 2000:28) 

Para mim Dança Espírita trata-se de evangelizar-se através dos diferentes elementos da dança em diálogo com o espiritismo, evangelização que ocorre no aprendizado teórico e prático da dança sob as luzes do esclarecimento da Doutrina Espírita. Considerando a arte e a dança, em específico a Dança Espírita como instrumento indispensável a verdadeira educação do homem, com os objetivos de desenvolver todas as potencialidades físicas, racionais e emocionais através de um olhar holístico.

Como nos diz Walter de Oliveira: “Arte é criatividade, é beleza, é expressão, é investigação, é comunicação, é uma linguagem natural que pode ser compreendida por todos. Em essência, a arte é uma linguagem universal.” (2000:194)

Trabalha-se então a Doutrina Espírita com uma filosofia de vida, no qual se têm a Dança Espírita como instrumento para o autoconhecimento, que atua como base para o bem-estar do homem, através do equilíbrio de suas energias. Pois, o espírita vê o corpo, como um instrumento material para seu aprimoramento espiritual, assim como um espelho através do qual, pode observar as manifestações de suas necessidades intrínsecas, que corroboram, através do trabalho de lapidação, modificação e aprimoramento, para que o homem possa atingir o seu aprimoramento.

 Conforme a questão 22 do Livro dos Espíritos – “Que definição podeis dar da Matéria?” Onde os espíritos nos respondem que: “A matéria é o laço que prende o Espírito; é o instrumento de que ele se serve e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce sua ação.”

Definições e temas semelhantes a estes caracterizam e diferenciam a Doutrina Espírita das demais religiões, o que pontua uma relação distinta entre a dança e a religião quando estas duas se encontram e se desenvolvem dentro do prisma holístico existente na Doutrinada.

Segue abaixo alguns temas e conceitos pertinentes a filosofia Espírita em específico: lei da causa e efeito ou ação e reação, reencarnação, vidas sucessivas, imortalidade da alma, pluralidade das existências, dentre outros. Conceitos que permeiam a relação entre dança e religião na Doutrina Espírita, que através de atividades específicas da modalidade artística em dança, que devem ser direcionadas e abordadas através da racionalidade e religiosidade da mesma, podem e devem possibilitar o benefício do homem de forma integral, tanto individual, quanto social.

Buscando analisar e refletir sobre estes benefícios, compreendi que a relação da Dança Espírita com religião em suas características morais e artísticas, podem ser viáveis devido a alguns dos conceitos trabalhados e desenvolvidos nas casas Espíritas que abrangem todas as áreas do conhecimento humano, possibilitando um estudo e reflexão destes, através da visão holística do homem como ser bio-psico-social e espiritual.

“Dançando, o homem transcende o ser físico adentrando na harmonia com o ser espiritual que há em si mesmo e exterioriza esse ser espiritual em vibrações harmônicas nos movimentos de seu corpo.” (ALVES, 2000:204)

            A dança pontua como instrumento para a edificação do homem como um todo, presente em diferentes campos da sociedade, em constante movimento na história da humanidade, interferindo no estruturamento e na construção do indivíduo e do grupo, no campo físico, psíquico, social, espiritual, emocional, dentre outros, possuindo diversas ramificações nestas áreas, o que possibilitou e possibilita hoje, vários benefícios ao homem e a sociedade.

            – Segue abaixo um relato pessoal, que espero seja possível contextualizar um pouco da atuação da dança e da religião dentro do processo de evangelização e educação do espírito no contexto social. Assim, espero colaborar um pouco para a reflexão sobre as relações da dança e da religião dentro da Doutrina Espírita.

O meu primeiro contato com a Doutrina Espírita foi em um projeto social que além dos aspectos sociais, abordava e atuava com uma abordagem doutrinária através de aulas de evangelização. O projeto em seu desenrolar além de conhecimentos técnicos que preparavam os jovens para o trabalho, atuavam através de uma formação cultural abrangente, visando um equilíbrio entre as necessidades do espírito encarnado.

Um trabalho que atuou de forma global, no plano material e imaterial, onde os jovens são influenciados pelo social, coletivo, econômico, através das diferentes mudanças da cultural, da tecnologia e da mídia; estes diferentes proponentes atuam sobre os processos de vivência espiritual, vicissitudes e virtudes que se manifestam, onde a evangelização foi um forte colaborador para o amadurecimento espiritual.

 Tive então, no social e espiritual meu primeiro contato a arte da dança, através de um projeto realizado por uma instituição espírita, que visava preparar crianças e jovens para o trabalho e para o futuro, trabalhando com estes em horário contrário ao escolar, fornecendo conhecimentos gerais e específicos, dentre os quais colaborassem para a construção de uma identidade.

            Dentre as atividades oferecidas, estava incluso estudos das bases doutrinárias espírita, além de conhecimento sobre o desenvolvimento biológico do homem, desde sua gestação até a idade adulta, as alterações físicas e psicológicas e emocionais do mesmo, conhecimentos técnicos para atuar no mercado de trabalho.

Foram oferecidas aulas de evangelização teóricas e práticas, possibilitando uma diversidade de conhecimentos do ensino religioso da Doutrina Espírita, através de palestras, aulas em grupo, debates, discussões, leituras de textos das obras basilares da doutrina. Que segundo Walter Oliveira Alves (2000) é essencial ao espírito para compreensão do processo evolutivo que vivenciou, que possibilita nesta encarnação através destes conhecimentos maior compreensão de suas tendências, auxiliando nos processos de autonomia e aprimoramento moral.

“O conhecimento doutrinário levará o Espírito a compreender o mecanismo da evolução, as leis divinas que regem os mundos e os seres, auxiliando-o a atingir a autonomia moral e intelectual, como ser que pensa, sente e age”. (ALVES, 2000:35)

           

            Todas essas atividades eram intercaladas e correlacionais em seus temas, estudos e práticas, sendo oferecidas durante a semana com carga horária de 4 horas por dia, em turmas separadas por faixa etária e por centro de interesse dos alunos em relação aos cursos técnicos. Trabalho realizado por professores com conhecimentos específicos nas diferentes áreas, na sua maioria simpatizante ou praticante da Doutrina Espírita.

            As atividades de Artes estavam entre as que maior despertavam o interesse dos alunos, pela sua característica de lazer, descontração, mas, também por ser uma forma de acesso às áreas restritas à condição social do qual faziam parte, permitindo uma realização pessoal ao atingir determinados objetivos propostos por estas atividades, que fossem a finalização de uma pintura, o aprendizado de uma música ou partitura, a apresentação de uma peça teatral ou coreografia em algum evento.

            Todas essas atividades eram oferecidas visando o aprendizado técnico artístico específico de cada área, mas, também auxiliando no relacionamento e socialização dos alunos em grupo, desenvolvendo amizade, disciplina, respeito, cooperação, criatividade, espontaneidade, expressividade, atenção, senso estético, auto-imagem, dentre outras características que o ensino e as práticas destas Artes oferecem.

            Atividades pautadas nos conceitos e conteúdos da Doutrina Espírita, explicitamente nos objetivos e nos temas dos trabalhos artísticos, ou implicitamente na estruturação das atividades e conteúdos ministrados pelos professores, através dos ideais e conceitos Espíritas que acreditavam, sempre possibilitando

            Neste mesmo projeto tive meu primeiro contato com a dança, não considerando as vivências de entretenimento sociais do cotidiano em festas familiares e sociais anteriores, que comumente são apreciadas nos meios de comunicação e nos eventos artísticos apreciados e festas.       

Proponho então as seguintes questões: Por que a Dança? Como se desenvolve as relações entre a dança e a religião na Doutrina Espírita?

            A dança como as outras artes, trabalha com o potencial intrínseco do ser humano, permitindo a este externar seus sentimentos e canalizá-los através do movimento e da arte para o belo. Segundo Wostien[4]:

“O objeto da meditação é, para o bailarino, o seu corpo. Este é para ele, ao mesmo tempo, moradia e instrumento. Durante o exercício, durante a dança, ele deve apropriar-se inteiramente dele, preencher todos os seus recantos. (…) calor, circulação e suor produzem um despertar interior, flexibilidade e solução. A inspiração e a expiração são mais profundas, a tensão e o relaxamento são mais intensos, a correção do equilíbrio interno e externo é repetidamente treinada. O aumento do suor leva a uma eliminação de resíduos. No todo, este processo é, a cada vez, um passo para a auto-descoberta.” (WOSTIEN: 2000)

A Dança possui características de auto-disciplinar através do ensino da técnica, despertando interesse e atenção, trabalha com a sociabilização, através dos trabalhos em dupla e em grupo, aumentando o respeito pelo outros integrantes e também pelo próximo, possuindo corpo e mente como instrumento de sua prática, permite ao aluno a busca por superar limites, sendo instrumento de autoconhecimento e crescimento em aprendizagem, além da característica intrínseca da dança em permitir e ampliar o contato com o sagrado interior do individuo que se externa e que entra em contato com as diversas externações do grupo. Características e temas que são evidenciados viabilizados através do estudo e da vivência prática da Doutrina Espírita.

            A dança atuando em todos os campos do desenvolvimento da criança e do jovem auxilia como instrumento capacitador deste para a vida em sociedade, pois trabalha com a motricidade e o movimento do corpo, auxiliando no desenvolvimento intelectual através da concentração e do exercício de aprendizagem e reprodução no corpo de movimentos diferentes, em ritmos, contagens distintas. Possibilitando o trabalho com sentimentos, através das relações em grupos, do uso da música como veículo de sensibilidade, para auxiliar nas expressões corporais, as quais, tornam-se o meio para externar as sensações e sentimentos do homem, auxiliando-o em seu autoconhecimento, possibilitando maiores recursos para distinguir e refletir sobre suas emoções, ampliando e qualificando a sua afetividade.

Percebe-se, que a dança tem em sua prática, somada ao ensino religioso, todos os aspectos citados acima. Então, juntos permite que o indivíduo se aproxime de Deus, através da externalização de sentimentos e na absorção das vibrações contidas e expressas no ambiente através da dança. Possibilitando centralizar o processo de aprendizagem e lapidação íntima no próprio educando, considerando que todo espírito encarnado encontra-se em fase de transformação íntima em busca da autonomia espiritual. Com no informa Walter Alves (2000) em seu livro:

“Todo o processo educativo, pois, deve ser centrado no estímulo à vontade do educando, para que este queira aprender, queira melhorar-se, empreendendo assim sua ação no bem. O Espírito deve receber os estímulos adequados à sua ação, desafios proporcionais à sua bagagem interior para que ele possa agir, utilizando sua bagagem do passado para a construção do seu futuro.” (ALVES, 2000:96)

            Em muitos momentos a dança pode atuar para os bailarinos como uma válvula de escape. Um meio para físico, cinestésico, expressivo e canalizador para os problemas, sentimentos e sensações que são acumuladas no íntimo do espírito encarnado, podendo se caracterizar também, como meio para realização de sonhos, ideais e expectativas do bailarino, que se efetiva ao subir no palco, ao vestir um figurino ou maquiar-se, ao se apresentar diante de um público e ao ouvir os aplausos do público.

A dança atua diminuindo a distância do homem em relação a si mesmo, através do contato íntimo com o corpo, com partes desconhecidas aparentemente de seu uso cotidiano, passando a valorizá-lo como instrumento de saúde, de conforto, de prazer e de expressão de sensações e sentimentos. O mesmo propunha Klauss Vianna (2005) em suas aulas, o que foi pontuado em seu livro ‘A Dança’.

“Todas as ansiedades, questionamentos, e dúvidas têm origem e resposta em mim e isso determina minha postura diante do mundo exterior. (…) minhas angústias e tensões estão presentes em meu corpo, em meus gestos. Durante a aula é impossível camuflar, (…) em vez de reprimir esses sentimentos é possível trabalhá-los, dimensionando-os de forma mais equilibrada.” (VIANNA, 2005:75)

Experiências que são vivenciados através da dança, do movimento, dos exercícios repetitivos, dos jogos de criatividade, da livre expressão corporal, da externação físico e emocional na improvisação, da união do corpo em movimento com a música em diferentes harmonias e ritmos, colaborando para a comunicação e expressão, não apenas nas aulas de dança, mas na vida.

O espírito se conecta mais intimamente com seu corpo, com suas necessidades, suas possibilidades, ampliando as possibilidades de diálogo, comunicação e expressividade nas relações com o meio em que está inserido, material ou espiritual.

            Sendo possível um processo cíclico de construção da dança no trabalho Arte, onde estão presentes diversas etapas que desafiam o espírito em seu processo de aprendizado e aprimoramento espiritual: no aprendizado técnico dos estilos e modalidades em dança, na reprodução de movimentos, de seqüências e de coreografias, que seu corpo antes não poderia realizar. As construções das coreografias ocorrem através de montagens realizadas pelos coreógrafos, pelos próprios participantes do grupo, que tem ensaios que enfatizam o aperfeiçoamento e aprimoramento cênico, artístico e expressivo, não somente dos movimentos, mas também do individuo como um todo.

Para contextualizar este processo, utilizo um trecho poético do bailarino e pesquisador de Dança Circular Wostien:            “Este processo é comparável a um trabalho de lapidação, que permite ao diamante bruto tornar-se numa pedra preciosa lapidada, brilhante e reluzente.” (WOSTIEN:2000)

Trabalho que tem uma finalização momentânea através da apresentação final das coreografias ou espetáculo, que têm nos aplausos uma nova sensação, permitindo as crianças e aos jovens a elevação do estado pessoal, social, íntimo, psicológico e emocional de cada um. Pois o aprendizado permanece como uma bagagem, experiência e conhecimento que pode e é acessado pelo espírito consciente ou inconscientemente, trazendo uma relação contínua entre as vivências em dança e o processo evolutivo do espírito. Então nunca a apresentação de uma coreografia torna-se o final de um trabalho, mas, uma perene espiritualizar-se através das experiências, como Klauss ao falar de seus processos coreográficos – “(…) sei que esse trabalho não está pronto nem ficará pronto nunca: são observações, reflexões, sensações que se modificam e ampliam-se no dia-a-dia, (…)” (VIANNA, 2005:69)

            O que permite fechar o meu relato pessoal a respeito do primeiro contato com a dança e a Doutrina Espírita, em que houve uma forte relação entre a dança e a religião, vindo colaborar para os diferentes aspectos que enfrentei e que o espírito se depara durante a fase de transição da infância, da adolescência, da juventude e da fase adulta, onde as transformações físicas, psíquicas, emocionais e espirituais são relevantes no processo evolutivo de aperfeiçoamento do espírito.

            – Neste momento trarei algumas informações sobre o GEDE (Grupo Espírita de Dança Evolução) do qual fiz parte, e acredito que alguns relatos sobre esta experiência possibilitarão dar continuidade na reflexão sobre as relações entre dança e religião.

Como primeiro aspecto, vou abordar os objetivos do grupo de Dança Espírita, tomo como base os objetivos do GEDE, que foram constituídos a partir da estruturação do grupo, sendo possível ser aprimorado a partir de crescimento e amadurecimento do grupo, vindo a constituir um estatuto com normas, regras e objetivos.

            Este estatuto foi constituído pelos integrantes do grupo, sob a orientação da coordenação do mesmo e baseado no estatuto do grupo de Artes e do Estatuto da Casa Espírita do qual fazia parte, o Instituto de Difusão Espírita.

            Após estudos, reflexões e pesquisas alguns pontos principais foram definidos, dentre eles os objetivos do grupo, o primeiro era o de reforma íntima, na busca constante do aprimoramento moral dos participantes, sendo este o principal, vindo em segundo o aprendizado técnico de diferentes técnicas de dança que colaborassem para a expressão e comunicação através da dança, em específico a técnica e em terceiro, mas no mesmo grau de importância que os demais, levarmos através das coreografias uma mensagem pautada no conhecimento Espírita.

Um trabalho que soma o estudo, a teoria e a prática, a emoção, a razão e a reflexão, onde o espírita deve estar por inteiro, aprimorar em equilíbrio todas as suas potencialidades, semelhante ao que nos orienta klauss Vianna (2005): “A dança se faz não apenas dançando, mas também pensando e sentindo: dançar é estar inteiro.” (VIANNA, 2005:32)

            O estatuto foi elaborado de formar a abranger trabalhar o espírito como um todo, onde pontuava através de seu discurso a busca pelo estudo teórico da Doutrina Espírita e sua vivência prática, onde todos os aspectos contidos neste viabilizava construir um grupo através de seus ideais, de suas atividades, de seus processos artísticos e de suas apresentações coreográficas, que configurasse o mesmo como um Grupo de Dança Espírita que desenvolvia um trabalho sério, semelhante aos demais departamentos e setores da Casa Espírita, como os departamentos assistencial, espiritual, doutrinário, mediúnico, social, de divulgação e evangelização.

            Considerando que o trabalho de um Grupo de Dança Espírita em suas características e configurações através de seus estudos e prática atua em todos os segmentos dos demais departamentos e setores citados acima. Através dos estudos doutrinários para composição coreográfica; com a mediunidade, na sintonia com os planos superiores para criação coreográfica e para as apresentações artísticas; na evangelização, dos próprios bailarinos, do público e dos espíritos que acompanhas o grupo, os bailarinos e assistem as apresentações artísticas; no assistencial, através da própria mediunidade e evangelização de espírito, mas, em apresentações aos trabalhos e eventos sociais; dentre outros setores como divulgação da doutrina em que podemos observar as relações possíveis entre dança e religião.

Estas atuações devem ser programadas e estudas para que sejam realizadas com a mesma seriedade e verdades que são realizadas nos demais setores de uma instituição Espírita. ‘Disciplina, disciplina e disciplina’ um dos primeiros passos para que um grupo de dança espírita seja respeitado com um trabalho dentro do meio Espírita, recordando dos preconceitos sociais existentes em relação a dança.

Um grupo de Dança Espírita deve se caracterizar pela verdade de suas coreografias ou de sua dança, possibilitando que a verdade vivenciada pelo grupo seja transmitida ao público. Onde os conteúdos técnicos, textuais, estéticos e artísticos apresentados ao expectador sejam sempre pautados num princípio moralizante que seja resultado do esforço dos bailarinos, não apenas pelo aprendizado da técnica, como, também, do esforço moral pelo seu aprimoramento constante na dança, na religião, nas relações sociais, espirituais e em especial seus processos íntimos de aprimoramento e de construção evolutiva.

            Toda experiência no campo da dança, da religião, da vida pessoal, familiar, social e espiritual colaboram para a construção evolutiva, possibilitando ampliar as relações do espírito encarnado com o mundo social e espiritual, auxiliando na identificação das tendências íntimas que se externam, permitindo trabalhar, conduzir, transformar, educar e lapidar as vicissitudes na busca de aprimoramento das virtudes na busca por atingir a angelitude.

            Sendo fundamental o trabalho de Educação do espírito através da evangelização, que somado e integrado aos estudos teóricos e vivências práticas da Dança Espírita, possibilita o desenvolvimento do processo de educação e transformação moral. Característica intrínseca da arte, da dança e da religião separadamente, mas que juntos e integrados auxiliam e aceleram este processo, que é fundamental hoje, perante a realidade social na qual se encontra o mundo. Sem estudo e sem prática não existe dança, sem trabalho no Bem e pelo Bem não existe aprimoramento e transformação moral.

            Este estudo pretendeu analisar um pouco do processo de relação entre dança e religião, em especifico na Dança Espírita, pontuando um pouco desta relação na história da sociedade, se aprofundando nas relações existentes dentro do processo de educação através de um relato pessoal de um projeto social que atuou com estas relações, após com fundamentos e experiências de verídicas de um grupo Espírita de dança, onde espero que tenha sido possível observar como estes processos podem contribuir para o processo de educação e evolução espiritual, que é finalidade única e inevitável. Conforme Walter de Oliveira, “Em síntese, a educação tem como objetivo auxiliar a evolução do espírito.” (2000:28).

Onde nós (artistas e bailarinos Espíritas) devemos desenvolver bases fortes e seguras, para que no futuro a Dança Espírita continue a se desenvolver, sem se deixar influenciar por segmentos de modismo que tanto influenciam a sociedade, possibilitando ao bailarino de amanhã, encontrar maiores recursos para conseguir através da Dança Espírita, desenvolver-se espiritualmente, encontrando no público cada vez mais, maior senso crítico, que rejeite as manifestações artísticas vazias de mensagem, ou baseadas no apego e culto a matéria.

Cabe aos bailarinos Espíritas essa formação de público crítico, através da qualidade de suas produções artísticas em dança. Com este objetivo, surge a necessidade de trabalhos e de Grupos de Dança Espírita que pautem suas pesquisas, vivências e coreografias no estudo da Doutrina, assim como, no estudo da arte, não apenas sob o caráter Espírita, mas em seu sentido e na influência que tiveram em todas as épocas na sociedade, possibilitando melhor compreensão do papel do artista na sociedade hoje e no futuro. Possibilitando que as relações entre dança, que em sua origem foi integrada e indivisível, torne-se cada vez mais forte e presente para o homem.

Relação que vem retratando diversas facetas da vida, retirando o véu da materialidade que dificulta ao homem a aproximar-se de Deus. A dança pode aproximar o homem da espiritualidade através de coreografias que abordam temas que esclarecem, que inspiram, que fortalecem e que impelem a reflexão. Para que assim, o Espírito continue nesta jornada, transitória, mas essencial a lapidação íntima e ascensão espiritual.

“(…) Ensina que antes de exprimir na matéria as sua experiência existencial, o homem a traduz com a ajuda do próprio corpo. Alegria, dor, amor, terror, nascimento, morte, tudo, para o verdadeiro bailarino, é motivo de ocasião de dançar. Por meio dos movimentos da dança aprofunda-se cada experiência e realiza-se o milagre da comunicação.” (VIANNA, 2005:19)

                                                                           Referência Bibliográfica

 

READ, Herbert – As Origens da Forma na Arte – Tradução: Waltensir Dutra. Zahar Editores Rio de Janeiro – 1981.

BLACKHAM, H. J. – A Religião numa Sociedade Moderna – 1966 – Rio de JaneiroEditora Civilização Brasileira S/A – 1967.

WOSIWN, Marie Gabrielea – Dança Sagrada, Deuses, Mitos e Ciclos – 1988 – Ed. Triom – RJ:2002 .

GIL, Antônio Carlos – Métodos e técnicas de Pesquisa Social – 5a. ed. – Editora Atlas, SP:1999.

BWOSTIEN, Bernhard – Um Caminho para Totalidade (cap. Entre Deus e o Mundo – A Dança) – Ed. Triom Brasil:2000; Ed. Veritas  Austria:1988.

VIANNA, Klauss – A Dança -3ª. Edição – Editora: Summus Editorial, São Paulo:2005.

 

ALVES, Walter Oliveira. Educação do Espírito: Introdução à Pedagogia Espírita. 1ª ed. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita,1997.

ALVES, Walter Oliveira. Introdução ao Estudo da Pedagogia Espírita: Teoria e Prática. 1ª edição. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 2000.

BOUCIER, Paul. História da Dança no Ocidente. 3ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

DENNIS, Leon. O Espiritismo na arte. 2ª ed. Rio de Janeiro: Publicações Lachâtre, 1994.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 3ª ed. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1995.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 182ª ed. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1978.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.  113ª Ed. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita,1997.

LEX, Ary. Pureza Doutrinária.  2ª. Ed. São Paulo: Federação Espírita do Estado de São Paulo/ Livraria e Editora Humberto de Campos,1990.


[1] Grupo Espírita de Dança Evolução, criado no Instituto de difusão Espírita em 1995 em Araras/São Paulo e atuante até hoje.

[2]Maria-Gabriele Wosien filha de Bernhard Wostien (pesquisadora e divulgadora das Danças circulares Sagradas).

 

[3] Bernhard Wostien (pesquisador e divulgador das Danças circulares Sagradas) – livro Dança – Um Caminho para Totalidade (cap. Entre Deus e o Mundo – A Dança) — Ed. Triom 2000 Brasil e Ed. Veritas 1988 Austria.

 

[4] Bernhard Wostien (pesquisador e divulgador das Danças circulares Sagradas) – livro Dança – Um Caminho para Totalidade (cap. Entre Deus e o Mundo – A Dança) — Ed. Triom 2000 Brasil e Ed. Veritas 1988 Austria.

TEXTO 8 –  A Sensibilização dos Sentidos

Mariângela Gonçales

                “O gesto em si nada significa, seu valor reside no sentimento que o inspira, e a dança jamais terá validade, se não tiver calcada em movimentos e emoções humanas”.

(FAHLBUSCH, 1990, p. 35).

                Estar constantemente sendo estimulados pelo meio e sofrendo alterações no equilíbrio global, faz com que essa inter-relação do sujeito com o espaço em que vive, exija uma auto-avaliação de seu estado físico e emocional, sendo assim como propõe as questões citadas por Angel Vianna e Jacyan Castilho in GARCIA (2002, p-p. 17-18):

“Responda sinceramente: qual é a primeira coisa que você faz quando chega em casa, após um dia de trabalho (ou mesmo de lazer)? Tira os sapatos e os joga num canto? Desabotoa a fivela do cinto? Troca a roupa suada? Corre pra tomar um gole d’água? Ou deixa a bolsa/pasta num canto, liga a TV e se atira no sofá? Ou ainda lava as mãos do rosto, quem sabe?

É bem provável que você, mesmo não perceba, cumpra algum desses rituais ou outro

qualquer. Seja o que for, pode apostar: a cada vez que você volta para casa, faz alguma

coisa para se pôr à vontade, para estar em casa.. Ou alguém fica de terno e gravata num domingo?!

Pois saiba, caso você nunca tenha pensado nisso, que a sua primeira casa, a que você tem desde que nasceu, muito antes de morar em qualquer outro lugar, é o seu corpo. Uma casa que é só sua, ocupada só por você, da maneira que você bem entende (ou

pode). Você se sente à vontade no seu corpo-casa”?

                        Observa-se que a Conscientização Corporal, numa relação menos formal e mais livre do movimento, interage e permite que a pessoa renove suas energias já para um maior equilíbrio emocional, além de manter uma harmonia com todo seu entorno.

                Em Teatro do Movimento, LOBO (2003, p.61) faz uma reflexão sobre o corpo e nos diz:

“No corpo, circula um fluxo energético, responsável pela presença de algo que transcende a sua materialidade e que chamamos de energia vital. Quando um fluxo energético por qualquer que seja o motivo, fica estagnado em determinados pontos do corpo, prejudica o bom funcionamento do todo, gerando queda de energia, bloqueios emocionais e tensões físicas, que provocam limites nas habilidades corporais e posteriormente causando doenças”.

                Sabe-se também que a tensão não é de todo um problema, pois necessitamos dela para nos mantermos em movimento. Porém, o acúmulo de tensão em determinada parte ou articulação do corpo é que vai interromper a fluência da energia, limitando a flexibilidade das articulações, tornando os músculos mais rígidos e criando anéis de tensão. Para BERTAZZO, (1998, p.15): “… o conceito de organização motora pede distribuição do tônus, e não relaxamento. Para ficarmos em pé é necessária uma justa organização muscular”. A própria palavra Dança em todas as línguas européias – danza, dance, tanz, deriva da raiz tan que, em sânscrito significa “tensão”. Para GARAUDY (1980, p.14) “Dançar é vivenciar e exprimir, com o máximo de intensidade, a relação do homem com a natureza, com a sociedade, com o futuro e com seus deuses”.

                Complementando o que vem sendo abordado, pode-se afirmar que o corpo é o veículo pelo qual nos expressamos e é através do movimento corporal que as pessoas se comunicam, se interagem, sentem tudo que está a sua volta e essas sensações são percebidas.

                Vivemos numa sociedade em que o movimento corporal expressivo não faz parte dos padrões educacionais, assim como FUX (1983, p.93) chama a atenção para o fato de que:

“Quando somos crianças necessitamos mover-nos porque movendo-nos expressamos nossa vontade de rir, de chorar ou de brincar. À medida que crescemos nosso corpo passa pelos tabus de uma civilização que corrompe nossa necessidade de expressão, perde cada vez mais o desejo de mobilização”.

Grande parte dos problemas vivenciados no dia-a-dia é interiorizado deixando registros no nosso corpo. Não só o corpo é afetado, como também o processo emocional, intelectual e os reflexos sofrem esta pressão. Inclusive os bloqueios emocionais acabam interferindo até mesmo na respiração, sem que se percebam os movimentos do cotidiano quase que compulsivamente numa espécie de automatização gestual. Alguns movimentos como: pegar um objeto, se abaixar ou mesmo levantar da cama necessitam de uma organização muscular, organização esta que precisa ser respeitada. BERTAZZO (1998, p.16) nos diz que “… devemos respeitar os biótipos, a reconhecer que determinações genéticas, ação do meio ambiente, educação, influências socioculturais, atitudes de trabalho, traumas de percurso etc, interferem na construção e funcionamento do nosso corpo”.

                Nesse sentido, pode-se dizer que cada pessoa é formada de acordo com os estímulos que recebem ao longo de sua existência. Vivências prazerosas contribuem para novas descobertas gerando impulsos positivos que leva o sujeito a autopercepção. “A partir dessa consciência interna do movimento que poderemos então conceitualizar o espaço exterior e estabelecer relação com ele e com objetos e seres que nos rodeiam” (IBDEM, p.23). Desta forma trabalha-se com diversas formas de experimentação, estimulando os sentidos gerando sensações que fortalecem o indivíduo em sua aceitação dentro de uma sociedade produtora de estereótipos físico-corporais em que os valores externos se sobrepõem aos valores morais e éticos.

É importante trabalhar a aceitação do sujeito em relação a seu próprio corpo e a toda sua capacidade criativa, respeitando as relações interpessoais.  É neste momento que a dança assume uma importância benéfica no resgate da auto-estima para desenvolver uma maior relação com o seu meio. É muito comum a pessoa rejeitar tocar e ser tocada numa aula ou atividade corporal, onde o expressar-se coletivo exige uma maior relação inter-pessoal. Então, torna-se necessário ampliar os sentidos do corpo, proporcionando maior qualidade nas explorações sensoriais.

Experimentar o prazer do movimento criativo com sensibilidade proporciona benefícios de forma global ao indivíduo. Desta forma, percebe-se que cada atividade pragmática adquire uma nova qualidade na sua forma de manifestação, como no dormir, no acordar e nas demais tarefas do dia-a-dia. Inclusive, LABAN (1978, p.38), reforça a possibilidade de trabalhar com a pessoa, acreditando na sua predisposição evolutiva em relação ao movimento corporal, quando diz que:

“O homem tem a capacidade de compreender a natureza das qualidades e de reconhecer os ritmos e as estruturas de suas seqüências. Tem a possibilidade e a vantagem do treinamento consciente, que lhe permite alterar e enriquecer seus hábitos de esforço até mesmo sob condições externas desfavoráveis”..

Utilizamos primeiramente como estímulos de nossas aulas de conscientização corporal, as dinâmicas de grupo, e podemos observar nessas atividades que os alunos se libertam do seu individualismo, relacionando-se uns com os outros, proporcionando desta forma a integração do grupo e maior desenvolvimento nos trabalhos que serão propostos.

Segundo FRITZEN (2000, p.08):

Exercícios procuram despertar nas pessoas o sentido da solidariedade, adormecidos pelo individualismo e pelo egoísmo. Outros, ainda, buscam mais diretamente uma colaboração efetiva, afastando a frieza, o indiferentismo, a agressividade, o desejo de dominação, o tratamento da pessoa como objeto. Aparecem ainda exercícios que provocam um “insight” pessoal. Apresentam a pessoa como ela é realmente, com suas limitações, deficiências, habilidades, tendências positivas e negativas. Há, enfim, jogos que demonstram maturidade grupal, o grau de abertura de harmonia, e o ambiente de amizade, de sinceridade, de confiança e colaboração.

Para complementar, consideramos importante o enfoque dado por MIRANDA (2000, p-p.13-14), valorizando a dinâmica de grupo na descoberta de si mesmo e do outro, proporcionando uma ação motivadora dentro da educação:

A dinâmica de grupos proporciona aprendizagens diversas aos membros do grupo, tanto no sentido da vivência pessoal (autoconhecimento), como na interpessoal (percepção do outro). (…) A educação com John Dewey, que vislumbrou o preparo dos alunos para a vida social, rompendo com a absoluta tradição de transmissão de conhecimentos e fundando a concepção de professor como líder de um grupo, que influi na aprendizagem, não apenas pelo domínio teórico, mas também pela habilidade de motivar os alunos, estimular a participação e criar entusiasmo.

É desta forma que se constrói uma identidade consciente de suas ações diante do mundo, em relação com o outro para uma melhor qualidade de vida dentro da sociedade atual.

BIBLIOGRAFIA:

BERTAZZO, Ivaldo. Cidadão Corpo: identidade e autonomia do movimento. São Paulo: Summus, 1998.

FAHLBUSCH, Hannelore. Dança Moderna e Contemporânea. Rio de Janeiro: Sprint, 1990.

      FRITZEN, Silvino José. Exercícios Práticos de Dinâmica de Grupo. Petrópolis: Ed. Vozes, 2000.

FUX, Maria. Dança, experiência de vida. São Paulo: Summus, 1983.  

GARAUDY, Roger. Dançar a vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

GARCIA, Regina Leite (org). O corpo que fala dentro e fora da escola. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

LABAN, Rudolf. Domínio do Movimento. São Paulo: Summus, 1978.

———————.Dança Educativa Moderna. São Paulo. Ícone, 1990.

LOBO, Lenora. Teatro do Movimento: Um método para um intérprete criador. Brasília:LGE, 2003.

MIRANDA, Simão de. Oficina de dinâmica de grupos para empresas, escolas e grupos comunitários. Campinas: Papirus, 2000.

TEXTO 7 – Dança Contemporânea e Espiritismo: Caminhos para o Conhecimento

 Paula Salles

“A dança é um ato litúrgico do cosmo quando parteja.

O que nasce, dança. O que vive, dança.

E o que

morre permuta outro campo de movimento … inicia novo círculo de expressão com nova significação!         (Espírito Ananda, 2003- Casa de Oração Fé e Amor)

 Gostaria de compartilhar neste texto conceitos que, acredito, aproximam a linguagem da dança contemporânea e o Espiritismo. Portanto, achei conveniente relatar um pouco da minha trajetória pessoal entre estes dois universos, a fim de que, possamos entender de onde surgiram estes possíveis diálogos e juntos busquemos outras proximidades.

Sou bailarina e espírita. Atuo como coreógrafa, professora e pesquisadora de dança contemporânea. Graduada pela Universidade Estadual de Campinas e especialista em estudos contemporâneos da dança pela Universidade Federal da Bahia, em parceria com a Faculdade Angel Vianna, no Rio de Janeiro. Integro o Grupo das Excaravelhas de dança contemporânea em Campinas. Escolhi trabalhar como arte-educadora ou artista-docente como define [1]Isabel Marques.

Há mais ou menos sete anos tornei-me adepta do Espiritismo, o que causou – me uma significativa transformação no meu modo de perceber e conceber a vida. A Doutrina Espírita revelou-me a riqueza do evangelho de Jesus através do conhecimento amplo que Ele possui sobre o amor e o amar. A Doutrina Espírita me revelou ainda, na sua filosofia, a crença na vida após a morte, a possibilidade de comunicação entre encarnados e desencarnados e a reencarnação.

O maior aprendizado que obtenho na Doutrina Espírita é exatamente que todos nós um dia encontraremos a Deus e que para isso é necessário que superemos as nossas imperfeições representadas no Espiritismo pelo tripé da: vaidade, do orgulho e do egoísmo. Mas, como superar as nossas imperfeições? Conhecendo-nos a nos mesmos. Esta é a grande chave que nos é ofertada pelo Espiritismo.

Durante todos estes anos de atuação com a dança e por tanto com a arte, venho justamente procurando compreender de que maneira a dança me ajuda a construir conhecimento sobre o mundo e sobre mim mesma. Tive oportunidade de me apropriar de algumas técnicas da dança moderna e de algumas linguagens de danças brasileiras, passando pela capoeira, congos, maculelê, samba – de – roda e outras manifestações da cultura popular brasileira.

No entanto, foi na dança contemporânea que encontrei sentido para prosseguir construindo conhecimento. O motivo maior desta escolha está relacionado aos princípios históricos a que ela se atrela.

Na década de 60, período em que a dança contemporânea efervescia nos Estados Unidos, o palco italiano deixava de ser o lugar exclusivo da dança, que passa a invadir os espaços públicos. Coincidentemente foi em uma igreja em Nova York, a Judson Memorial Church, que um grupo de bailarinos realizou uma variedade de experimentações, questionando o que poderia ser nomeado como dança e em quais espaços essa arte poderia ocupar e se expor. (Salles, 2006)

A proposta era encurtar as distâncias entre artista e público, tanto através dos espaços ocupados, como através da movimentação utilizada nas criações, nas quais foram introduzidas gestuais comuns ao cotidiano popular. Outra possibilidade aberta nesta proposta foi o diálogo entre diferentes estilos de dança e práticas corporais, buscando encontrar nas diferenças as congruências de sentidos e significados.

Este pensamento ideológico possibilitou uma diversificação da linguagem da dança, no sentido em que ela pôde acolher diferentes meios de manifestação pelo movimento. Caem por terra verdades absolutas de corpos específicos adequados à dança, de artistas superiores a espectadores, de apenas uma forma de dança adequada a simbolizar, leveza, tristezas, amores, morte, assim como, a idéia de que a dança sempre é uma manifestação de alegria e beleza.

As relações e experiências humanas são consideradas pela dança contemporânea como um recurso de criação essencial, pois estas experiências revelam-se nos relacionamentos como um conhecimento sobre o indivíduo e deste sobre o mundo. Uma vez que ela não possui um código de movimentos pré-estabelecido, como encontramos na dança clássica, por exemplo, a dança contemporânea permite ao seu intérprete-criador, elaborar e construir os seus próprios códigos de movimentos, de acordo com o conhecimento e os sentimentos que possui, tanto no aspecto técnico da dança como no aspecto moral. Dançar é sua forma pessoal de interpretar o mundo. É o seu caminho pessoal com Deus.

Ao criarmos e elaborarmos códigos de movimentos, encontrarmos representações na linguagem da dança para nossos sentimentos ou percepções do mundo, consequentemente reelaboramos idéias e conceitos de nós mesmos ou da sociedade na qual estamos inseridos. Além de revermos conceitos, temos a possibilidade de criarmos através da arte, universos imaginários onde a poesia pode substituir a apatia. Ou seja, abrimos espaços para a transformação da nossa realidade.

O ato de criar é portanto, um ato de construção de conhecimento e de transformação do ser humano. Uma vez que para sonhar com um novo homem e uma nova sociedade é preciso primeiramente tomar a consciência do nosso atual estado evolutivo, sabendo que ele é temporário e passageiro e assim, aspirarmos condições mais elevadas.

É justamente neste aspecto que a dança contemporânea e a Doutrina Espírita se aproximam, na minha opinião, partindo do princípio de que expressamos exatamente aquilo que somos e pensamos, mas não estamos presos a estas formas. Deus nos possibilitou a capacidade de modificá-las através do nosso esforço próprio e do nosso aprendizado.

Entretanto todas estas etapas de construção de conhecimento só terão sentidos quando o maior deles for adquirido. A de que Deus rege todas as coisas do universo e que portanto sendo eu parte do universo também sou regida por Deus.

O caminho desta mudança no entanto, é percorrido num tempo indeterminado e em espaços variados onde o Espírito pode habitar. Assim, tal qual na dança, é o movimento, o tempo, o espaço, que estimula o surgimento da beleza, do novo, em detrimento do velho.

Uma vez que, somos Espíritos eternos e que sabemos que a nossa evolução ocorre na terra, assim como em outros planetas, à medida que, nos transformamos vamos modificando também nossos códigos de movimentos e nossas expressões. Vamos modificando as nossas forma de dançar, de representar a nós mesmo e ao mundo. Eis aqui mais um diálogo possível da linguagem da dança contemporânea com o Espiritismo, pois ela representa o estágio evolutivo do nosso Espírito.

Em suma; chegar a Deus no estágio que nos encontramos é um percurso composto de muitas vicissitudes e dos vícios que trazemos desta e de outras encarnações. O processo de criação da dança contemporânea, sob a luz do Espiritismo, nos permite encontrar a beleza apesar das sombras. Ou seja, ela não mascara as nossas imperfeições e as nossas dificuldades, mas ela aponta caminhos por meio da arte do movimento de transformamos esta realidade, em uma nova realidade com Jesus que nos ensina a amar buscando o verdadeiro sentimento de humanidade:

Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo

(Mateus 22:37-39)

Dançar perpetua o movimento do eterno e do divino em nós.

[2]Nascer, Morrer, renascer ainda e Progredir sem cessar, tal é a lei

(Allan Kardec)

 

[3]O que vive, dança. E o que morre permuta outro campo de movimento…inicia novo círculo de expressão com nova significação!”

Bibliografia  Utilizada:

ALLAN, K. (1857)- O Livro Dos Espíritos de Estudos-tradução Francisco Maugeri-1ª.edição (2007). Cáritas Editora – Campinas.

ALLAN, Kardec. (1864)- – O Evangelho Segundo O Espiritismo de Estudos -tradução – Francisco Maugeri – 1ª. edição (2004). Cáritas Editora – Campinas.

BANES, S.(1987) Terpsichore in Sneakers. Connecticut, Wesleyan- University Press.

HAY, Débora. Artigo (s/ data) : Comprimentos de Ondas ou Fio Telefônicos? In: DALY, Ann (org). Em que se Transformou a Dança Contemporânea?.

SALLES, Paula. (2006) Dançando o Sagrado na Contemporaneidade. Monografia de conclusão do curso de Especialização em Estudos Contemporâneos de Dança pela UFBA e pela Faculdade Angel Vianna.

Referências Bibliográficas:

BOURCIER, Paul. (1987). História da Dança no Ocidente. Editora Martins Fontes. São Paulo.

In, BREMSER, M. (1999) – Fifty Contemporary Choreographers

Selection and editorial matter-

CORTES, Gustavo Pereira – Dança, Brasil: festas e danças populares

MARQUES, Isabel (1999) – Ensino de Dança Hoje: textos e contextos. São Paulo: Editora Cortez.

GOLBERG, K (s/d). –Performance – Live art since the 60’

PORTINARI, Maribel (1989) –História da Dança – Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira


[1] Profa. Dra. Isabel Marques, fundadora e diretora da Caleidos Cia de Dança. Vide o livro o Ensino da Dança Hoje: textos e contextos. 1999.

[2] Frase escrita no túmulo de Allan Kardec

[3]Vide introdução do texto.

 

TEXTO 6 – Técnica e Mensagem na Dança Espírita: a busca do equilíbrio perfeito

 Daniela L. Pereira Soares

almanova@ig.com.br

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

 “A arte não pertence a país algum, veio do Céu.”

                                                                Miguel Ângelo

 Antes de iniciar nossa reflexão, é importante conversar sobre alguns termos que serão usados ao longo do texto, evitando assim, alguns equívocos acerca do entendimento dos mesmos. O próprio termo “dança espírita”, para algumas pessoas não soa bem, preferem usar “dança com temática espírita”, outras ainda, preferem usar apenas “dança”.  Diferentes pontos de vista, que se postos em questão, todos teriam sua parcela de razão.  Aqui, será usado o termo “dança espírita”, pois em poucas palavras ele se aplica a uma parcela restrita de pessoas que fazem esse tipo de dança, em determinado local e com uma finalidade específica. Aqui nos referimos a grupos de pessoas que entendemos são espíritas, ou seja, acreditam, vivenciam as idéias e crenças espíritas e fazem um diálogo desses conhecimentos com a dança.   Já quando se fala “dança com temática espírita”, não se torna claro que esteja se referindo a um grupo espírita, pois como existem grupos teatrais que encenam peças, novelas, filmes que abordam temas espíritas sem serem necessariamente espíritas, nada impede que um grupo de dança como o  Grupo Corpo[1] ou o  Ballet Stagium[2] dance uma coreografia voltada a temas espíritas sem necessariamente serem espíritas. Isso também leva a pensar, que quando se fala em “dança espírita” não está se referindo apenas à temática do ballet[3] ou coreografia, mas aos objetivos e as finalidades que orientam o grupo de pessoas que o fazem.

Outro ponto a salientar é em relação ao pensamento de que um dia haverá uma “arte espírita”, como um dia houve a arte pagã e a arte cristã e dentro disto podemos inserir a dança. Neste contexto citamos alguns trechos do livro Arte e Espiritismo organizado por Renato Zanola, onde ele faz transcrições da Revista Espírita (1860), no qual baseamos nossa fala anterior:

 

“A Pintura, a Escultura, a Arquitetura e a Poesia inspiraram-se sucessivamente nas idéias pagãs e nas cristãs. Podeis dizer se, depois da Arte cristã, haverá um dia, uma Arte espírita? O Espírito respondeu:  – Fazei uma pergunta respondida por si mesma. O verme é verme; torna-se bicho da seda; depois, borboleta. Que há de mais aéreo, de mais gracioso do que uma borboleta? Então! A Arte pagã é o verme; a Arte cristã é  casulo; a Arte espírita será a borboleta”. (Zanola, 1997, p.17)

Quando dizemos que a Arte espírita será um dia uma Arte nova, queremos dizer que as idéias e as crenças espíritas darão às produções do gênio um cunho particular, como ocorreu com as idéias e crenças cristãs e não que os assuntos cristãos caiam em descrédito; longe disto; mas , quando um campo está respigado, o ceifador vai colher alhures, e colherá abundantemente no campo do Espiritismo. E já o fez, sem dúvida, mas não de maneira tão especial quanto o fará mais tarde, quando for encorajado e excitado pelo assentimento geral. Quando estas idéias estiverem popularizadas, o que não pode tardar, pois os cegos da geração atual diariamente desaparecem da cena, por força das coisas, a geração nova terá menos preconceitos… Tempo virá em que elas farão surgir obras magistrais, e a Arte espírita terá os seus Rafael e seus Miguel Ângelo, como a Arte pagã teve os seus Apeles e os seus Fídias.” ( Zanola, 1997, p.25)

            Acredita-se que esse movimento de renovação nas artes já está começando e não é propriedade exclusiva dos espíritas. Colocando o foco estritamente na dança, nota-se ela despontando em diferentes linhas religiosas, e independente da crença, do pensamento que os diferentes cultos lhe imprimem  e se refletem na forma de fazer e pensar a dança, já se pode ver alguns pontos comuns entre elas, um deles  chama a atenção – a reforma íntima.

Dança é dança, independente de ser feita numa academia, numa praça ou num centro espírita e, não é propriedade de nenhum grupo étnico, ou religioso, senão da própria humanidade. Apesar dos rótulos que se possa querer utilizar, nenhum deles modifica o que seja dança, independente do estilo, do modo de se fazer ou se teorizar dança, no entanto, às vezes eles se fazem necessários para que se possa delimitar  um grupo com a finalidade de analisar suas práticas.

TÉCNICA NA DANÇA ESPÍRITA

“Eu não danço, eu sou a dança.”

                                                Klauss Vianna

Dentro da história da dança a partir do pensamento de BOURCIER (2001), é na Itália, no Quatrocentos,  que pela primeira vez se pensou na necessidade da técnica em dança. A dança que era uma expressão corporal realizada relativamente livre até então, passa a tomar consciência das possiblidades de expressão estética do corpo humano e da utilidade das regras para explorá-lo.

Mas o que é técnica afinal? Segundo o dicionário virtual Wikipédia:

 “Técnica é o procedimento ou o conjunto de procedimentos que têm como objetivo obter um determinado resultado, seja no campo da Ciência, da Tecnologia, das Artes ou em outra atividade. A palavra se origina do grego techné cuja tradução é arte.”

 

            Trazendo isso para o universo da dança, conforme DANTAS (1999), a técnica é uma maneira de realizar os movimentos, organizando-os segundo as intenções formativas de quem dança.  Ela está presente tanto nos processos de criação coreográfica quanto nos processos de aprendizagem, passando a ser um modo de informar o corpo e, ao mesmo tempo, de facilitar o manifestar da dança no corpo, ou seja, tornar o corpo que dança ainda mais dançante. A técnica torna o bailarino apto a manifestar-se em determinado código.          

Mas será que a técnica é realmente necessária em um grupo espírita de dança? A técnica não seria dispensável, já que os objetivos dos grupos  não repousam na formação de bailarinos profissionais, nem na realização de exibições virtuosas?

            Pensando a técnica como um fim em si mesma, como um treino mecânico que nos leva a girar, a saltar somente, seria fácil chegar a conclusão que ela não é tão necessária, no entanto, pensando a dança como uma linguagem  e a técnica como uma forma de manifestação dessa linguagem, talvez seria algo a ser pensado.

            Da mesma forma que o músico espírita faz uso das notas musicais, dos acordes, de técnicas específicas para compor suas canções, fazendo uso de um instrumento afinado para se expressar, o bailarino também carece de um repertório de movimentos e de um instrumento (corpo) capacitado para externá-los.

“Como o poeta deve, cada vez mais, conhecer e dominar o seu idioma para ter maior capacidade de expressar as suas idéias sem restrições, o dançarino deve dominar a técnica do movimento para aumentar seu vocabulário corporal e o coreógrafo precisa conhecer os princípios do movimento para enriquecer seu material principal de trabalho – o movimento. Porém, sem deixar que esta classificação se torne inibidora da espontaneidade interpretativa e criativa”. ( Robatto,1994, p.110)

 

            Quanto maior o aprimoramento do bailarino, mais natural a dança se torna em seu corpo, permitindo que a mensagem que ele queira transmitir através do movimento, flua livremente e atinja mais vivazmente o espectador. Dessa maneira, a técnica não entra como o ponto principal do fazer dança, mas sim como um meio facilitador à expressividade do movimento.

             O conhecimento e aplicação da técnica da dança nos grupos espíritas, além de favorecer uma maior consciência  corporal e do movimento, ampliando suas possibilidades de expressão coreográficas, ajuda na prevenção de possíveis lesões que a prática incorreta pode levar a termo. Oferecerá também base segura  para que o coordenador do grupo ou o responsável pelo treinamento técnico possa realizar seu trabalho de maneira correta e honesta, respeitando o corpo em formação de crianças e adolescentes sob sua responsabilidade.

            Assim como o evangelizador busca apoio no conhecimento científico para entender a educação e, dessa forma ampliar suas ações na seara espírita; nada há de errado em se buscar o conhecimento teórico e prático da dança, desde que, o trabalho no grupo espírita de arte  não se encerre na técnica, mas que alicerçado em Kardec e na vasta literatura espírita, descortine o que está além dela, e se desdobre em auto-conhecimento, melhoria interior, caridade e esperança dentro e fora da casa espírita.

A MENSAGEM ESPÍRITA NA DANÇA

“ O espiritismo vem abrir para a arte novas perspectivas, horizontes sem limites.”

                                                         Léon Denis

            O que caracteriza um grupo como “grupo espírita de dança” não é apenas a mensagem espírita expressa em suas coreografias, pois como se refletiu no início desse artigo,  qualquer grupo profissional ou amador  pode fazer isso, independente de ser espírita ou não.  Todavia, cabe a nós o papel de o fazê-lo, implícita ou explicitamente, pois se nós que somos bailarinos e coreógrafos espíritas não falarmos de temas espíritas em nossas coreografias, quem falará por nós?

            Essa frase, bastante conhecida entre os bailarinos espíritas, me tocou  profundamente num momento crucial dentro do grupo espírita de dança[4] em que eu atuava. Naquele momento a dúvida me assombrava. Nosso grupo sempre se caracterizou pela criação de ballets onde a temática espírita era bem declarada e comecei a me questionar sobre esse nosso posicionamento.  Será que o caminho que estávamos seguindo era correto? Será que precisávamos ser tão diretos?

            Comentando essa questão com uma colega das lides espíritas, ela me disse essa frase, que me marcou pra vida toda.  Essas palavras passaram a me conduzir com segurança dentro da dança espírita.  Esta colega,   nem sabe que é autora dessa frase, nem o quanto ela representou pra mim, nem para os grupos que posteriormente dirigi, mas ela me deu um caminho,  que ajudou traçar a história de vários grupos espíritas de dança.

            Independente do caminho que cada grupo escolha para se guiar, o conteúdo espírita-cristão é compromisso intransferível, seja na vivência diária ou refletido nas coreografias que são criadas.   

“ Sim, certamente, o Espiritismo abre à arte um campo novo, imenso e ainda inexplorado, e quando o artista reproduzir o mundo espírita com convicção, haurirá nessa fonte as mais sublimes inspirações, e o seu nome viverá nos séculos futuros, porque às preocupações materiais e efêmeras da vida presente, substituirá o estudo da vida futura e eterna da alma.” ( Kardec in: Obras Póstumas, 1995, p. 157)

 

 

 

“Os artistas da Terra deverão inspirar-se nesses modelos sobre-humanos que os ensinamentos espírita lhes tornarão familiares.  A Educação estética humana comporta concepções cada vez mais elevadas a fim de que o sentimento do belo penetre e desenvolva-se em todas as almas.  Uma evolução já se produz nesse sentido, e ela se acentuará sob a influência do Além. (Dennis,1994, p.15)

            Vale ressaltar a responsabilidade perante tarefa tão importante e delicada, a de transmitir o conteúdo sem mácula.  A fidelidade quanto a conteúdo doutrinário deverá ser alicerçada no estudo e na vivência do Evangelho do Cristo.  Como asseverou-nos o Espírito de Verdade, no capítulo VI do Evangelho Segundo o Espiritismo:  “Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo.”

            Não há como transformar em dança um conteúdo que se desconhece. O estudo da doutrina espírita é parte essencial da criação coreográfica, na dança espírita, sem o qual ela corre o risco de tornar-se vazia e perde seu papel transformador.

“ O Espírito não pode se identificar senão com aquilo que sabe, ou que crê ser uma verdade, essa verdade, mesmo moral, torna-se para ele uma realidade que exprime tanto melhor quanto a sente melhor; e então, se à inteligência ele junta a a flexibilidade do talento, faz passar as suas próprias impressões nas almas dos outros; quais impressões, contudo, pode provocar aquele que não as tem? (Kardec in: Obras Póstumas, 1995, p.153)

 

            Voltando o olhar para o  processo de criação coreográfica no qual a mensagem torna-se peça central, vemo-la muitas vezes perdida em meio a movimentos mecânicos e desprovidos de significado, muitas vezes, sem que aqueles que o fazem tenham consciência disso. Isso acontece  no âmbito da dança em geral, pela própria formação técnica que o bailarino é submetido, numa perspectiva dualista que insiste em separar corpo e mente, cujas raízes filosóficas remontam a Idade Média.[5]

            ROBATTO (1994) afirma que tradicionalmente o bailarino só é trabalhado no seu aspecto técnico-corporal, ficando geralmente relegada a um segundo plano sua formação técnica  no que se refere a expressividade do movimento e à interpretação coreográfica. Isso acontece porque os exercícios técnicos de condicionamento físico, por vezes, são tão massacrantes que não levam em consideração a expressividade.  Porém, não se pode trabalhar o próprio corpo, depositário de toda uma vivência espiritual, mental, afetiva, sensorial, etc.,considerando-se apenas os objetivos técnicos quantitativos, dirigidos para se tentar alcançar novos records de capacidade física. É preciso saber lidar com a indispensável disciplina técnica, sem bloquear a sensibilidade e a imaginação do bailarino.

            Vale lembrar que o papel do coreógrafo é fundamental no sentido  de transmitir aos bailarinos a intenção do movimento, ou buscar junto com os mesmos através de uma vivência mais significativa, movimentos que expressem melhor o pensamento coreográfico; pensamento este, embasado no estudo e  nas reflexões de todo o grupo envolvido na montagem.

            Toda obra artística é passível de diferentes interpretações, no entanto, é importante tornar clara a mensagem que se queira transmitir. Neste aspecto, a auto-crítica e o olhar de outras pessoas antes da finalização da obra é fundamental para que ela seja repensada e que para que a melhoria seja buscada.  Nada tão desanimador, quanto ouvir ao final de uma apresentação: O que você quis dizer com aquela coreografia?

            A mensagem espírita na dança é compromisso sério que exige, estudo, comprometimento e criatividade do artista espírita.  Que ela esteja presente em nossas coregrafias com a seriedade e o respeito que ela merece, mas que antes disso, ela brilhe em nossos atos e atitudes,  através das coreografias que criamos em nossa vivência diária e que oferecemos ao Pai cotidianamente.

REFORMA INTIMA: O ELEMENTO INDISPENSÁVEL

            A mensagem espírita é um dos aspectos que caracteriza um grupo espírita de dança, principalmente aquela que é que vivenciada e transmitida pelo exemplo. Nas coreografias, a técnica conferirá material adequado para que ela se construa, o estudo das obras básicas será o alicerce, mas somente a sintonia com as esferas superiores, através do esforço por melhorar-se é que produzirá a vibração  que arrebatará quem assiste.

“O sentimento é foco gerador de energia emuladora, que, qual dínamo gerador de vibrações superiores, atingirá o coração, o sentimento, estimulando as qualidades superiores dos que estão em seu raio de influência, levando-os a seguir o exemplo, a imitar, não mecanicamente, mas atraído pela força emuladora que emana do próprio coração.” ( Alves, 1997,  p. 155)

 

            Daí o compromisso maior do fazer dança espírita, acender a luz que nos é própria para que a Luz do Cristo resplandeça em nossas obras.

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Estai em mim, e eu em vós: como a vara de mim mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim.

Eu sou a videira, vós as varas: quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.

Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor.” (Bíblia, João, 15:4,5,10)

            Segundo ALVES (2000), a arte não é apenas uma forma de expressão, mas acima de tudo, uma forma de crescimento interior, de desenvolvimento das potências da alma. Quando direcionada aos canais superiores da vida, auxilia o Espírito a vibrar em sintonia mais elevada, afinando seus sentimentos estéticos com vibrações sutis, com o amor que se amplia e se expande ao infinito.

         A reforma íntima se reveste de caráter fundamental num grupo espírita de dança, pois que forças, que luzes, que consolações, que esperanças podemos passar às outras almas se não temos em nós próprios senão obscuridade, dúvida, incerteza e fraqueza ? Será também nosso elemento de ligação com a espiritualidade maior, atraindo a companhia dos bons espíritos, fazendo-nos crescer e dando às nossas criações um caráter que ultrapassa o visível,  o palpável, o sensorial, mas antes de tudo, um misterioso encanto, que atrai e convida a transformação de dentro pra fora.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

            A arte  se reveste de nuances sensíveis e  profundas,  que em sua maioria ainda não conseguimos apreender,  a medida que vamos evoluindo, crescendo espiritualmente, vamos tomando contato gradualmente com a fonte da qual ela emana.

            A arte é tarefa importante na casa espírita e se reveste da mesma importância que as demais atividades. O estudo, o trabalho sério e desejo sincero por querer melhorar-se são a base segura para que o trabalho se desenvolva com  êxito.

            Concluindo as reflexões acerca da técnica e da mensagem na dança espírita, penso que a mensagem espírita é o tesouro que se oferece quando se dança, mas a sua força maior não está no roteiro coreográfico que se prega, nem no virtuosismo técnico adquirido, mas repousa sem dúvida na transformação moral que já se alcançou. 

            Que as criações coreográficas que são feitas nos grupos espíritas de dança se sedimentem não apenas na boa vontade de fazer e servir, mas que busquem apoio no estudo da doutrina, nas técnicas da dança e na vivência do amor e da caridade. Com toda a certeza a mensagem ficará comprometida se houver carência técnica, o mesmo podemos asseverar da falta de conhecimento doutrinário, mas a ausência do ideal superior comprometerá ainda mais, pois será como uma música que toca por um instante e depois desaparece, sem produzir eco algum nos recônditos da alma.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, Walter Oliveira. Educação do Espírito: Introdução à Pedagogia Espírita. 1ª ed. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita,1997.

ALVES, Walter Oliveira. Introdução ao Estudo da Pedagogia Espírita: Teoria e Prática. 1ª edição. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 2000.

BOUCIER, Paul. História da Dança no Ocidente. 3ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

DANTAS, M. Dança: o enigma do movimento. Porto Alegre: Editora UniverCidade/UFRGS, 1999.

DENNIS, Leon. O Espiritismo na arte. 2ª ed. Rio de Janeiro: Publicações Lachâtre, 1994.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 3ª ed. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1995.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 182ª ed. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1978.

KATZ, H. Entre a Heresia e a Superstição. In: São Paulo. SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA, CENTRO CULTURAL SÃO PAUL. Navegar é Preciso: Portugal – Brasil: problemas estruturais e similaridades conceituais na dança de Brasil e Portugal. São Paulo, 1998 p. 7-16

ROBATTO, L. Dança em Processo: a linguagem do indizível. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1994.

ROCHA, Ruth. Minidicionário. São Paulo: Scipione, 1995.

VIANNA, Klauss. A Dança.2ª ed. São Paulo: Siciliano, 1990.

ZANOLA, Renato. Arte e Espiritismo: Textos de Allan Kardec, André Luiz e Outros Autores. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edições CELD, 1997

Ballet Stagium  – artigo disponível em:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ballet_Stagium

Grupo Corpo –  artigo disponível em :

http://www.grupocorpo.com.br/pt/historico.php

Técnica – artigo disponível em :

http://pt.wikipedia.org/wiki/T%C3%A9cnica


[1] Referência à companhia mineira de dança contemporânea de renome internacional, criada em 1975 em Belo Horizonte pelos irmãos Pederneiras.

[2] Referência a Companhia de balé brasileira, criada em 1970, em pleno regime militar, sediada em São Paulo. O Ballet Stagium é coordenado por Marika Gidali e Décio Otero e já conta em sua história com mais de 80 coreografias no decorrer desses mais de 30 anos.

[3] Conjunto de coreografias que versam sobre um tema ou contam uma história usando a dança como linguagem.

[4] Referência ao Grupo Espírita de Dança Evolução, criado em 1995 em Araras/São Paulo e atuante até hoje.

[5] Ao  final da Idade Média, de acordo com KATZ ( 1998), fazia-se necessário acreditar no dualismo corpo-mente, pois só assim seria permitido estudar o corpo anatomicamente, sem ir de encontro às normas religiosas da época.  O corpo passa, então, a ser visto como um objeto de observação e de estudo, separado da alma – pura e intacta aos pecados deste corpo. A possibilidade do homem tornar-se um observador do mundo, separado dele, motor do nascimento da perspectiva linear, gesta a ciência clássica.

TEXTO 5 – Dança é arte?

                                                                                                                               Mariângela Gonçales

Desde a origem das sociedades uma das formas do homem se afirmar como membro de uma comunidade que o transcende é através da dança. A história nos mostra que o homem dançou em diversos momentos da sua existência, em diferentes comemorações. No nascimento e na morte, na guerra e na paz, na semeadura e na colheita…

Esteticamente a dança pode ser dita como a arte mais antiga, expressando as emoções sem usar a palavra. Bastava à própria dança para revelar tudo que queria.

“A dança torna visível o invisível”. (Paul Klee)

Na bíblia, mais precisamente no antigo testamento, encontramos inúmeras citações sobre dança como expressão de louvor ao Senhor. Em Samuel podemos observar David dançando e cantando alegremente na chegada da Arca a Jerusalém. A dança sempre mostra um Deus presente, tornando o homem mais forte, mais feliz.

Observamos então que nas diversas formas de comemoração e adoração a dança se faz presente, porém a dança sofreu e ainda sofre preconceitos estabelecidos em outra época. Qual será o motivo? Vamos voltar um pouco no tempo e acompanhar os fatos…              

O filósofo Platão (428 – 346 a.C.) na sua crença, na sua idéia dualista, criou dois mundos. O Topus Uranus ou o mundo das idéias perfeitas, o céu, o mundo espiritual, habitado apenas pelo SER. Criou também o Mundo dos Fenômenos ou das cópias imperfeitas, a Terra, a cópia do Tópus Uranus, habitado pelo NÃO-SER.

Dentro deste pensamento filosófico, Platão diz que a música é a única arte que não copia, é a mais soberana de todas as artes. A música como é algo imaterial, está mais próxima a alma, ao SER, a perfeição. O corpo dá-se equívocos, erros, problemas estando próximo ao NÃO-SER. A dança, portanto sendo um fazer corporal está classificada a não-verdade, ao equívoco, ao NÃO-SER.

No livro A Dança, MENDES (1985, p.14) nos explica um pouco as idéias de Platão, quando comenta:

“Platão (428-347 a. C.), em suas Leis, distinguia a dança popular da que denominava “dança nobre”, e apenas a esta concedia sua aprovação. Considerava não adequada aos cidadãos as danças de natureza báquica e de caráter lascivo. Não reputava como arte as danças de caráter guerreiro, venatório, propiciatório de chuvas, fertilidade etc., pois achava que a arte precisava conter um elemento de imitação que não se limitasse a copiar um fato, mas sim induzir o espectador a uma experiência; era preciso reproduzir, representar uma emoção”.

Já Aristóteles, discípulo de Platão, mesmo conservando as idéias do mestre e o mundo dos fenômenos, traz as idéias perfeitas para dentro de nós. Considerava os diferentes meios de criação artística produzida pelo homem além de que, se o artista tiver como inspiração o “Belo”, ele traz essa idéia para suas obras. Na arte aristotélica o corpo era tão idealizado, que não existia em lugar nenhum.

            Observando os primeiros séculos do Cristianismo, a dança figurando na sua liturgia como forma “nobre” teve grande importância para os cristãos nas celebrações e ainda podemos ver os resquícios dançantes nas missas romanas. Já as danças populares foram combatidas pelo conteúdo pagão desde o século II.

“O Cristianismo é um Platonismo para o povo”. (Nietzsche)

No Cristianismo então tínhamos a “Escolástica Medieval” que era uma linha filosófica que atendia as necessidades da fé, fazendo que o corpo passasse por privações, dores, anulando todo e qualquer prazer do corpo. A Escolástica Medieval então se apóia de pensamentos platônicos: “Todo fazer corporal é sempre o lugar da não-verdade, do falso, do equívoco”.

Sendo assim, o Cristianismo que no início tinha dança em seus rituais agora a bania para não alterar o estado de consciência, afinal a dança é prazer do corpo e a dor corporal é o passaporte para a sublimação.

Muitos séculos se passaram, vieram diversos movimentos artísticos, o Renascimento, o Romantismo, o Expressionismo dentre outros e a dança sempre esteve oscilando, ora com poder, ora não. Cresce e recai…

Trazemos marcas dentro de nós que não se apagam em algumas reencarnações. Embora muitos séculos tenham se passado, muitos movimentos de arte tenham surgido, ainda temos as chagas abertas de uma época onde a dança era sinônimo de pecado, de prostituição sofisticada, de divertimento da burguesia, onde dançarinos viviam miseravelmente fugindo da Igreja que os condenava, que não via a dança como arte e na verdade até hoje não sabemos se é considerada…

Pesquisando sobre este assunto, os argumentos são fortes atacando ou defendendo a dança como arte e o mais interessante é que encontramos muitos universitários de dança leigos no assunto, que nem sabem direito o que é dança ou o que arte. Não os condeno, o assunto é polêmico mesmo e infelizmente não existe preparo adequado na área… basta ver quando buscamos na internet o título dança associado com arte, as imagens e vídeos que aparecem… será que isso é arte? Será que também estamos agindo de forma preconceituosa?

Como Dançarinos, bailarinos e educadores da dança, vivemos muito nesta busca, pelo reconhecimento de nossa “arte”, mesmo que não seja reconhecida por todos, mesmo que muitas vezes tenhamos dúvidas… sentimos esse prazer que a dança nos proporciona e  sabemos o que ela significa para cada um de nós, afinal lutamos para chegar até aqui, lutamos por um mesmo ideal e tendo a certeza que fiz a escolha certa, prefiro ficar com Nietzsche in Garaudy (1980, p.52) quando diz:

“… a dança é a única arte em que o próprio artista se torna obra de arte e seu papel mais importante: desenvolver uma atividade que não é outra senão a própria vida, porém mais intensa, mais despojada, mais significativa”.

A dança produz à poética, isto é o que diferencia de um simples movimento do corpo, isto é o prazer estético e todo homem tem necessidade de experiência estética, mas são diferentes, são particulares. Podemos aprender a gostar, aprender a ter a relação com a experiência estética, mas não hierarquizar, pois ela pode se tornar um elemento de captura de poder. O problema da estética é achar que tem que ter um modo próprio de sentir. Estética é a natureza do prazer, está ligada a cultura e a cultura está ligada a arte.

Para finalizar gostaria que cada um refletisse o que é arte e de que forma considera a arte como dança. Será que toda dança é arte? Como entender e como explicar isso aos nossos alunos.

 Fechamos então com as palavras de Garaudy (1980,p.92):   “A arte não existe para ser “compreendida”, isto é, reduzida a conceitos e palavras, mas para ser vivida”. E ainda in Garaudy (1980, p. 75) encontramos as belíssimas palavras de Ruth Saint-Denis quando se voltou para o Oriente: “A maior função da dança, é a de ajudar o homem a formar um conceito mais nobre de si próprio”.

Que Jesus possa nos iluminar diante deste trabalho, pra que possamos desenvolver uma maior conscientização daqueles que se propuserem dele fazer parte, educando e reeducando seus hábitos corporais de forma prazerosa, através da linguagem da Dança, buscando novos caminhos de expressão, prevalecendo a liberdade do autoconhecimento, rompendo o dualismo corpo/mente e se fortalecendo como ser humano mais feliz e consciente.

Mariangela Damiani Gonçales

Professora de Artes Visuais e Dança

Referência Bibliográfica:

GARAUDY, Roger. Dançar a vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

MENDES, Mirian Garcia. A Dança. São Paulo: Ática, 1985.

TEXTO 4 – “A Dança na Educação do Espírito

Paulo Cézar Silva

“Em síntese, a educação tem como objetivo auxiliar a evolução do espírito.” (ALVES, 2000:28)

Assim como todas as artes, a dança vem se expandindo no meio espírita, como mais um instrumentos de educação do espírito, através do autoconhecimento, da interação com o próximo, da aproximação com o Criador e da prática do Evangelho do Cristo através das apresentações artísticas. Devemos entender educação no sentido de aprimoramento moral, podendo ser substituída por evangelização sem se descaracterizar.

Mas para que a dança seja um instrumento de evolução do espírito, é necessário conhecer como se dá a educação e a evolução do espírito:

“Compreender o mecanismo da evolução auxiliará a compreender o próprio mecanismo da aprendizagem e do desenvolvimento em seu amplo sentido. O princípio espiritual, desde o momento da criação caminha sem detenção para frente. Embora contando sempre com o apoio das inteligências superiores que oferecem os estímulos necessários à marcha evolutiva e também com a assistência amorável dos benfeitores espirituais, cada Espírito evolui através do esforço próprio, com o trabalho de si mesmo”. (ALVES, 2000:28)

Considerando que a evolução ocorre através da ação e da vivência física e espiritual, o espírito deve buscar se desenvolver moralmente utilizando quando encarnado de seu instrumento físico e perispiritual para progredir e edificar as virtudes a caminho da perfeição, lapidando as vicissitudes que se encontram arraigadas em seu íntimo. O trabalho com a dança possibilita auxiliar este desenvolvimento do espírito ou bailarino encarnado. Através das atividades de dança, trabalhadas nas aulas, nos ensaios e nas apresentações, se propicia ao espírito encarnado um processo constante de interação, entre corpo e espírito auxiliando em seu autoconhecimento refletindo e suas relações com o meio, propiciando um contato maior com seu íntimo, com o próximo e com o Criador. Considerando segundo Walter de Oliveira Alves, que:

“O mecanismo da evolução ocorre através da ação, da atividade e da vivência, somos espíritos em evolução e evoluímos pela atividade, pela ação, pela vivência”. (ALVES, 2000:29)

Esta ação ocorre em todo o processo evolutivo dos espíritos desde o germe. Ação presente em todas as etapas do trabalho com a dança, que não deve ocorrer somente no desenvolvimento artístico das diferentes modalidades e técnicas em dança e em arte, pois, este aprendizado torna-se rico, com maior valor e maior contribuição no aperfeiçoam do espírito, quando todas as etapas de aprendizagem da dança ocorrem concomitantemente com a busca consciente pelo aprimoramento do espírito. Uma ação de modificação interior, ou seja, reforma íntima.

A ação, atividade e vivência é um processo constante na dança, não apenas da prática do movimento que deve visar a expressão, a comunicação e o estético, o bailarino ou espírito encarnado deve buscar expressar-se, comunicar-se através de uma estética e de uma beleza moral elevada em todas as suas posturas diárias, num constante movimento de aprendizagem e evolução, tanto da própria técnica de dançar, quanto da espiritualização do ser.

 Sendo que:

“O espírito evolui, pois, pelo esforço próprio, interagindo com meio, através de experiências múltiplas. Não se trata, contudo, de experiências meramente acumulativas, mas de transformação interior, criando estruturas novas em níveis cada vez mais elevados, na medida em que o espírito interage com o meio, física e espiritualmente falando.” (…) Existem em todos os seres, um impulso criador, que os leva a agir. Filhos de Deus-Criador trazemos essa herança divina, que nos impulsiona para frente e para cima, criando e recriando, construindo a nós mesmos, num esforço evolutivo constante. Esse impulso criador esta presente em todos os seres que, impulsionados pelas necessidades naturais, são levados a agir, criando e recriando as bases de sua própria evolução”. (ALVES, 2000:29)

A dança unida ao trabalho de evangelização ou educação do espírito tem um campo inesgotável para se explorar o impulso criador, seja através das aulas de modalidades específicas, nas atividades de criatividade e nos laboratórios de improvisação, além do estudo e da reflexão que são aspectos pouco trabalhados, pois, o ato de dançar envolve o trabalhar integrado do corpo, mente e espírito, que deve ser realizado através de um processo integrado e equilibrado.

Trabalho que visa não somente a busca pelo homem, pela arte e pela vida em sociedade, mas pelo desenvolvimento da perfectibilidade do espírito, atingir sua ascensão espiritual, onde somos herdeiros de um potencial infinito, que nos impulsiona para o Pai.

 O trabalho com a dança permite uma permutação, uma troca de energias espirituais, além dos aspectos físicos, que ocorre através da convivência com outros bailarinos, entre aluno e professor, com o público que aprecia os espetáculos, com os espíritos desencarnados presentes em todo espaço criado por Deus, o espírito não evolui sozinho.

A dança permite a interação entre espíritos, através da convivência com o próximo, o espírito age e é impulsionado a desenvolver ao longo das atividades um senso de cooperação no grupo, mas que se estende pela convivência social. Deve-se recordar que este senso de cooperação e de convivência com o próximo respeitando as diferenças, as potencialidades e as vicissitudes de cada um deve ser trabalhado, incentivado e orientado, pois o espírito traz dentro de si vicissitudes que se manifestam, dificultando o relacionamento com o próximo e consigo mesmo, então, atividades de cooperação, de respeito, de convivência devem ser incentivadas, colocadas em prática, visando o desenvolvimento do grupo nos aspectos moral e intelectual.

“A cooperação e a ajuda mútua surgem já nos reinos inferiores, como base da evolução e desenvolvimento dos princípios da inteligência e do sentimento”. (ALVES, 2000:30)

“Em sua escalada evolutiva o Espírito está desenvolvendo tanto o aspecto intelectual quanto o moral, qual pássaro que para voar necessita de duas asas. Há duas espécies de progresso que se prestam mútuo apoio e que, todavia, não marcham lado a lado; o progresso intelectual e o progresso moral”. (O Livro dos Espíritos – q. 785).

 

            A dança através de um diálogo com a Doutrina Espírita surge como mais um instrumento moralizante para a evolução do espírito, atuando no aspecto intelectual e moral, através do estímulo e do despertar da vontade em direção ao belo que se externa nos movimentos, nas expressões, nos sentimentos físicos e espirituais, que devem ser trabalhados sem esquecer-se da amplidão de conhecimentos possíveis e viáveis na modalidade da dança.

A Dança em sua diversificada aplicação viabiliza conhecimentos sobre a história do homem, da religião e da arte; conhecimento do corpo e do movimento; noções rítmicas e musicais; habilidades expressivas e interpretativas; plástica corporal e habilidades técnicas da dança; conhecimento do perispírito e espírito; influências da mediunidade, sintonia e vibração mental; dentre outros conhecimentos proporcionados pela História do Homem, da Sociedade e da Doutrina Espírita, conhecimentos que interferem no trabalho e nas apresentações artísticas da Dança Espírita.

Conhecimentos que devem ser aplicados com a intenção de desenvolver o espírito. Estimular a vontade, para que através do impulso criador e da energia criadora o espírito se manifeste e que desperte no mesmo o interesse e a busca por atividades, que gerem ações, através da ação, do trabalho e da vivência constroem-se mudanças intrínsecas, que se exteriorizam na vivência moral e intelectual, permitindo desenvolver e ampliar o campo do sentimento e da sabedoria do espírito, o que permite sua escalada evolutiva. O desenvolver das duas asas da escalada evolutiva através do estímulo da vontade.

“O amor e a sabedoria serão conquistados pelo esforço próprio movido pela alavanca da vontade, uma vez que o Espírito detém o livre-arbítrio de seus atos e deverá, por força da Lei Divina avançar pelo trabalho de si mesmo. (…) Mas a mola mestra do processo evolutivo é a vontade, que mobiliza as energias interiores para essa ou aquela direção. (…) Inteligência, sentimento e vontade estão atuantes no indivíduo a todo instante, integrados de forma inseparável na vivência do dia a dia”. (ALVES, 2000:31)

Os conhecimentos espíritas estão presentes na enorme quantidade de obras publicadas desde o advento da Doutrina Espírita, o seu estudo e prática devem estar pautados no Evangelho do Cristo, que foi concedido á mais de dois mil anos a humanidade

“O conhecimento doutrinário levará o Espírito a compreender o mecanismo da evolução, as leis divinas que regem os mundos e os seres, auxiliando-o a atingir a autonomia moral e intelectual, como ser que pensa, sente e age”. (ALVES, 2000:35)

           

 “Para que nossa mente prossiga na direção do Alto, é indispensável se equilibre, valendo-se das conquistas passadas, para orientar os serviços presentes, e amparando-se, ao mesmo tempo, na esperança que flui cristalina e bela, da fonte superior do idealismo elevado; através dessa fonte pode captar do plano divino as energias restauradoras, assim construindo o futuro santificante.” (No Mundo Maior cap. 4 e 5)

 

            Com o estudo do livro No Mundo Maior de Chico Xavier, se deve considerar que os bailarinos espíritas como espíritos eternos em sua maioria, não estão entrando em contato com a arte e com a dança pela primeira vez, trazem experiências do passado que se manifestam no presente e que devem traçar o caminho futuro do ideal superior. Trabalham com sua bagagem interior, construída no passado, a qual, perante os estímulos oferecidos hoje pela dança integrada ou associada à casa espírita, mas com os preceitos espíritas, oferece uma visão ampla das possibilidades e caminhos que o espírito pode escolher e seguir em sua escalada evolutiva.

Traz a tona à compreensão de que o compromisso do espírito em trabalhar com arte, em específico a dança, vai além das manifestações corporais vazias de intenção, que são encontradas em grande número na sociedade. Uma responsabilidade maior perante o conhecimento que possuí e que deve estar presente em suas coreografias e em sal vida.

            Sendo então primordial ao bailarino espírita a sua educação moral, pois quando o mesmo se apresenta no palco, ele está diante de si mesmo, de sua evolução moral, evolução que se manifesta através de seu trabalho artístico, que reflete o seu estado íntimo, ou seja, sua evolução espiritual no momento atual. O bailarino espírita deve ser verdadeiro em suas manifestações artísticas, deve primar sempre pela busca de seu aperfeiçoamento espiritual em primeiro lugar e por conseqüência o aprimoramento de seu instrumento de trabalho o corpo encarnado.

Frisando que todo esforço a caminho do Pai, se apresenta perante o Criador, como um trabalho de lapidação íntima, as manifestações artística do Movimento de Dança Espírita que não apresentam um grande aprimoramento técnico, não desmerecem seu valor, pois os artistas que se apresentam no palco vivenciaram e estão vivenciando os caminhos da construção e edificação do espírito. O bailarino esta em constante busca e edificação com seu movimento corporal e espiritual, a coreografia que irá contar a história da dignificação do ser.

“Através da ação no presente, o espírito trabalha com suas conquistas do passado, para construir seu próprio futuro. (…) Os estímulos exteriores vão acordando gradativamente as potências já desenvolvidas no passado, que servirão de base para a construção do futuro. (…) É necessário, pois, acompanhar o desenvolvimento natural e progressivo, do espírito reencarnado, oferecendo-lhe os estímulos necessários para ‘despertar’ gradualmente o potencial temporariamente ‘adormecido’, corrigir impulsos e avançar pelos caminhos do superconsciente, desenvolvendo as potências da alma, rumo à perfeição”.  (ALVES, 2000:44)

           

            A dança trabalha com estímulos de aprendizagem técnica artística, como a criatividade, expressividade, ritmo, espaço, sincronia e outros, em que o bailarino deve buscar adquirir valores estéticos e expressivo para serem utilizado como recursos artísticos pelo corpo, recursos que serão utilizados pelo coreógrafo e pelo próprio bailarino nos processos de montagem coreográfica e de apresentação artística em palco. Os valores e habilidades adquiridos são utilizados para transmitir um tema, emoção, sentimento, estado físico, psíquico e outras possibilidades para o público.

Durante este trabalho há uma constante interação, entre o estado íntimo do bailarino, de suas necessidades e ideais conscientes e inconscientes, os seus medos e anseios, desejos de satisfação e sucesso, estes sentimentos, emoções e ‘estados de espírito’ influenciam os processos de montagem, ensaios e apresentação artística em dança, onde a mensagem textual que foi construída e será apresentada leva as impressões do ‘estado de espírito’ de cada artista e do grupo, impressões que são registradas pelo público e que dependendo do espetáculo possuem maior impacto que a própria mensagem ou coreografia.

Considerando que os conteúdos devem atuar e auxiliar no crescimento e desenvolvimento espiritual do público, despertando muitas vezes uma reflexão e por conseqüência, incentivando um processo de aprendizagem e modificação íntima a partir do envolvimento com o tema abordado e com a vibração emanada pelos artistas. Temos, que  este tema foi vivenciado, estudado e refletido de forma artística pelo bailarino, que sob as influências dos mecanismos da dança, o artista foi levado e instigado a refletir e questionar sobre sua postura perante o tema e mensagem apresentado em forma de dança.

Trás a tona o constante conflito do espírito em evolução, quando se defronta com questões pertinentes a necessária lapidação íntima e mudança de postura, que ocorre através da ação no presente, mas que é vivenciada pelo artista em palco. O aprimoramento espiritual ocorre através das mudanças de postura em busca pela ação em favor do bem.

“Quando o indivíduo age, dois aspectos se interagem: a inteligência e o sentimento.” (…) “Em todo procedimento o indivíduo utiliza as estruturas mentais que já possui, que reagirá com o procedimento presente formando nova estrutura. Toda nova estrutura é construída pela interação da ação presente (sentimento e inteligência) com as estruturas já existentes, ou seja, já construídas anteriormente.”  (ALVES, 2000:46)

A dança, trabalhando com a liberdade expressiva do corpo e dos sentimentos que fluem do bailarino, permite que o mesmo busque atingir e colocar em prática suas metas e objetivos artísticos em consenso com os espirituais. Com o domínio do corpo e de suas capacidades artística, auxilia o espírito a traçar os caminhos que deve prosseguir em sua manifestação artística, ampliando o seu autoconhecimento levando o mesmo, a uma independência em relação aos seus ideais e aos caminhos que deseja prosseguir.

Todas as faculdades existem em estado rudimentar ou latente. Elas se desenvolvem conforme as circunstâncias lhes são mais ou menos favoráveis”. (O livro dos espíritos, q. 754)

 

“A vontade é a mola propulsora da ação, do trabalho, do esforço próprio, que leva o Espírito a desenvolver seu potencial interior. É pela vontade que o Espírito dirige seus pensamentos para determinada direção e age.” (…) “Todo o processo educativo, pois, deve ser centrado no estímulo à vontade do educando, para que este queira aprender, queira melhorar-se, empreendendo assim sua ação no bem. O Espírito deve receber os estímulos adequados à sua ação, desafios proporcionais à sua bagagem interior para que ele possa agir, utilizando sua bagagem do passado para a construção do seu futuro.” (ALVES, 2000:96)

 

            Cabe a quem trabalha com artistas espíritas ou não, o constante incentivo, para que busquem o aprimoramento técnico e moral, através de novas metas, projetos, estudos, técnicas, apresentações, dentre outras formas de dança e de arte, que possibilitem o estímulo ao trabalho, que gere o aprimoramento, assim como a constante edificação do espírito.

            Onde através de diversas formas de atividades, leve o mesmo ao constante processo, de: estímulo à vontade, que gere ações, atividades e vivências, que despertem no artista suas tendências, que já foram trabalhadas no passado, que, hoje perante os estímulos que são oferecidos, o mesmo possa modificá-las e construir o seu futuro. Desenvolvendo e vivenciando no trabalho a constante interação entre o sentimento e a inteligência, propiciando um trabalho consciente de edificação evolutiva do próprio espírito.

“Existe em todo ser, filho de Deus, uma força superior que nos impulsiona para frente e para cima, para níveis superiores de inteligência e sentimento. É a força de atração que o Criador exerce sobre a criatura.” (ALVES, 2000:98)

“O ideal é a força que direciona esta energia criadora para os caminhos superiores da evolução.” (ALVES, 2000:103)

Dançar é um constante contato do homem com seu interior, através da interação com o próximo e com a Criação Divina, permitindo o homem se aproximar de Deus, num movimento cíclico do espírito em manifestar, através do corpo, os dons divinos herdados do Pai.

Autor – Paulo Cézar da Silva               Contribuição – Renata Bueno

Referência Bibliográfica:

             “Introdução ao Estudo da Pedagogia Espírita” – Walter Oliveira Alves.  Ed. IDE

TEXTO 2 – Como nascem as coreografias?

por Denize de Lucena[1]

 (…)42 o corpo é semeado corruptível, mas ressuscita incorruptível; 43 é semeado desprezível, mas ressuscita glorioso; é semeado na fraqueza, mas ressuscita cheio de força; 44 é semeado corpo animal, mas ressuscita corpo espiritual. Se existe um corpo animal, também existe um corpo espiritual (…)                                                      (1 Cor: 42 – 44, 1993)

Muito bem.

A mobilização para criação de um grupo de dança na casa espírita, deu certo e já há um bom número de participantes interessados. Há um espaço grande e arejado, autorizado pelos dirigentes que também permitiram o uso do equipamento de som. Foram definidos dia e horário dos encontros e até foi sugerida uma primeira apresentação (se tudo der certo) na abertura da Semana Espírita da Instituição. Agora, é só pôr mãos à obra…

E aí vem a pergunta crucial: Por onde começar?

O trabalho com a dança exige tempo, responsabilidade e comprometimento, como qualquer outro trabalho, aliás, que se pretende sério e duradouro. Ao escolhermos a linguagem da dança como atividade artística, optamos também pelo seu instrumental: o corpo. Nosso corpo é formado de ossos, músculos, articulações e líquidos. Ele é relativamente maleável mas necessita de tempo para conseguir responder às exigências de um trabalho mais técnico e virtuoso.

Existe um bom número de técnicas corporais que podem ser utilizadas para o momento anterior à composição coreográfica. Eugênio Barba[2], teórico do teatro, define este instante de preparação corporal como pré-expressividade. É a parte que permanece durante os ensaio e antes das apresentações, que visa preparar o corpo dos atores-bailarinos para uma melhor execução dos movimentos e desempenho de seus papéis. Os profissionais de educação física e atletas, chamam este instante de aquecimento que, segundo BATISTA (2003):

(…)é a primeira parte da atividade física e tem como objetivo preparar o indivíduo tanto fisiologicamente como psicologicamente para a atividade física. A realização do aquecimento visa obter o estado ideal psíquico e físico, prevenir lesões e criar alterações no organismo para suportar um treinamento, uma competição ou um lazer, onde o mais importante é o aumento da temperatura corporal.

O aquecimento deve ser proporcional ao grau de exigência que será solicitado ao corpo, a depender do tipo de atividade física que se pretende fazer.

Cumprida esta etapa, o grupo está pronto para dançar. Mais uma vez, podemos recorrer a grande variedade de caminhos. É importante que se conheça alguns e que se decida pelo que melhor se ajusta ao grupo e aos objetivos do trabalho.

Improvisação coreográfica  – Apesar de ser possível dançar no silêncio, geralmente acompanhamos uma melodia, um som que seja. Assim, preparar nosso corpo, física e mentalmente, para executar bem os movimentos, é atividade imprescindível nos encontros do grupo.

Há muitas propostas de improvisação. Improvisar, significa  executar algo sem prévia preparação. Em dança, improvisar é coreografar e executar a coreografia simultaneamente. É um excelente exercício de avaliação e auto-avaliação, pois ao improvisar, acionamos em nossa memória cerebral e corporal, movimentos, gestos e desenhos corporais que estão registrados em nós, muitas vezes inconscientemente, e preparamos nossa mente e nosso corpo para responder aos estímulos musicais.

  • Iniciar, um momento de escuta da música. De olhos fechados, deixe a imaginação livre para visualizar imagens, cores, movimentos que lhe auxiliarão na execução da improvisação. Observe os sentimentos que a música desperta, seu ritmo, timbres melódicos e tudo o mais que lhe chamar a atenção.
  • Coloque novamente a música e deixe seu corpo lhe guiar. Permita-se!

Composição coreográfica e ensaios – Embora improvisar seja importante e nos traga grande satisfação, geralmente dançamos peças coreografadas, ou seja, executamos movimento pré-determinados e ensaiados para serem precisos.

Podemos começar a coreografar de várias maneiras. Uma das possibilidades é partirmos de uma palavra. Sim, uma simples palavra como despertar… este será nosso mote, nosso tema; buscaremos então uma música que se harmonize com esta idéia, buscaremos sinônimos e imagens que gostaríamos de passar com esta idéia.

Por exemplo, podemos estudar na passagem da Estrada de Damasco, o despertar de Paulo de Tarso (EMMANUEL, 1994, pp. 196 – 200), e o capítulo xvii de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Sede Perfeitos (KARDEC, 2003, pp. 271 –285). Queremos falar do despertar para as verdades do espírito, então trazemos sentimentos como alegria, reconhecimento, gratidão, etc. Podemos pedir ao grupo que pesquise tudo o que tiver alguma relação com o tema, por exemplo, poemas, textos, imagens, cores, enfim, tudo que possa alimentar a nossa criatividade.Escolhemos uma música instrumental, que nos dará maiores possibilidades de criação.  Peguemos por exemplo, a música Marc e Bella de Moacyr Camargo[3] (Instrumental).

Quando coreografamos uma música instrumental não temos palavras que nos guiem mas os elementos presentes na música nos trazem muitas informações que não podemos ignorar: há um ritmo, um naipe de instrumentos com suas timbragens específicas, há momentos que se repetem e outros que variam; ouvir, ouvir e ouvir a música muitas e muitas vezes é o primeiro exercício a ser feito. Perceber sua pulsação, que imagens ela sugere, quais os sentimentos que desperta…

É importante que todo o grupo participe deste instante, pois assim a coreografia terá a riqueza da percepção de todos; cada um de nós capta as vibrações ao nosso redor de acordo com o nosso grau de adiantamento espiritual e o resultados das experiências vividas. Somos corpo físico, perispírito e espírito, que governa nossas ações. Somos luz, somos energia, emanamos energias, trocamos energias.

“Para definirmos, de alguma sorte, o corpo espiritual, é preciso considerar, antes de tudo, que ele não é reflexo do corpo físico, porque, na realidade, é o corpo físico que o reflete, tanto quanto ele próprio, o corpo espiritual, retrata em si o corpo mental que lhe preside a formação.”                                                    (ANDRÉ LUIZ, 1987, p. 25)

Cada um de nós terá sentimentos, percepções e imagens diferentes ao ouvir uma mesma música… e é bom lembrar que o nosso público também.

E, se escolhermos trabalhar com uma música que tenha letra?… todo o processo de estudo e coreografia descrito anteriormente pode ser mantido; a grande diferença é que palavras são imagens, nosso cérebro tem armazenado imagens ligadas às palavras que ouvimos e aprendemos ao longo de nossas vidas, ele funciona por associação, logo, ao ouvirmos uma palavra, ele nos traz imagens, pessoas, acontecimentos, sentimentos, situações e tudo o mais que tenha associado àquela palavra. 

Algumas palavras são do inconsciente coletivo e estão impressas em quase todo mundo de maneira mais ou menos parecida, mas ainda assim, há grande possibilidade de variações. Então, quando escolhemos uma música cantada para coreografar, criamos uma dificuldade maior, pois o público já não estará apenas sentindo e percebendo, mas acionará um pensar, devido às palavras. E se for uma música conhecida… aí arranjamos um problemão.

Bem, nada impede contudo, que coreografemos uma música com letra. Vamos usar a mesma canção de Moacyr Camargo[4].

Voar num sonho azul, voar, voar  Nos raios da lua azul, voarmos Estrelas brilham em nós, brilhamosEm suas mãos flores brilhantes Nossos corpos reluzem E em tanta luz, nos olhamos.Nos conhecemos longe Campos, beijos e flores Onde corremos livres e belosO belo azul em nós. //:Crianças, anjos, vozes celestes Cantam os sons soltos no universoBrincam no azul lindos risos Vale amar da Terra ao infinito azul:\\

A entrada do coro de crianças, nos trás alegria, possibilitando movimentos que lembrem jogos e brincadeiras infantis. Nos trás um sentimento de liberdade que nos dá vontade de voar… voar no infinito, no infinito azul… Moacyr nos fala de estrelas, flores, luzes, risos e anjos. Nos alimenta a alegria de fazermos parte da Criação Divina e a possibilidade real da evolução. Salienta o amor como alavanca desta evolução e a presença divina ao nosso redor.

Do ponto de vista coreográfico, podemos dizer que a letra do Moacyr nos remete à movimentos amplos, contínuos, com vigor e alegria, provavelmente haverá desenhos circulares ocupando espaço e adereços leves como lenços, fitas ou grandes leques poderão riscar desenhos no espaço, ampliando o corpo dos bailarinos. Saltos, carregas[5], movimentos que usem o nível alto, com intenção para cima e para longe, também são pedidos pela letra e melodia desta música. Pode ser um pas de deux[6], ou uma coreografia para corpo de baile… dificilmente será um solo, pois a música cresce ao longo de sua execução, parece preencher cada vez mais os espaços, sua vibração é contagiante.

Este é um exemplo de como coreografar coletivamente, mesmo não possuindo muitos conhecimentos técnicos. Se houver alguém que tenha algum conhecimento de dança e que deseje conduzir a criação coreográfica poderá utilizar alguns recursos simples como:

Células coreográficas – cria-se uma seqüência pequena de movimentos que será a célula coreográfica. Como na biologia, esta dará origem a várias outras. Na prática, essa seqüência criada é repetida com variações que podem ser de direção, de ritmo, de nível, de velocidade, de amplitude.  Essas variações permitirão desenhos diferentes e criativos, que darão à coreografia o colorido necessário.

Seguindo a contagem – esta é uma técnica que exigirá algum conhecimento de iniciação musical. Primeiro faz-se uma decomposição da música, parte à parte, dividindo-a na sua estrutura de composição (pulsação, ritmo, compasso, estrofes, refrões, tema, etc.). A seguir, monta-se a coreografia sobre esta divisão, seguindo seu desenho sonoro. Normalmente se monta as seqüências de oito em oito tempos, mas isto dependerá da música escolhida. A contagem é muito útil também no instante de transmitir os passos aos bailarinos, auxiliando a manter o sincronismo.

Em qualquer método de criação coreográfica, busque explorar os elementos básicos da dança:

  • níveis (alto, médio e baixo)
  • direção (laterais, trás, frente, diagonais)
  • ritmo (pulsação, compasso, variação, contratempo, pontuação)
  • movimento (contínuo, quebrado, brusco, vigoroso, suave)
  • gestos (estilização, ampliação, variação)
  • percursos (desenhos feitos pela trajetória do movimento ou do corpo do bailarino)

Um outro momento muito importante é o pós-criação. Depois de pronta a coreografia, faz-se necessário fazer o que chamamos de limpeza dos movimentos, para corrigir os detalhes e fazer com que todos executem o mesmo movimento, no mesmo tempo,  da mesma maneira e pelo mesmo percurso. Esse é um instante um pouco cansativo, mas imprescindível para garantir a plasticidade e sincronismo necessários.

E aí vai um conselho: é preferível que todos os bailarinos levantem as pernas a 45º com as pontas dos pés esticados, que cada um levantar em uma altura diferente, sem definição do movimento. Dedique o tempo que for necessário para este trabalho.

Mesmo quando o corpo de baile não estiver executando simultaneamente o mesmo movimento, ter os passos bem definidos, de onde partem, onde terminam, por onde passam, com precisão dentro da contagem da música, tornará mais bela a coreografia.

Outra dica: brincar com subgrupos dentro da coreografia, agrega valor e beleza à mesma. Em uma coreografia com quatro bailarinos, por exemplo, ora está um sozinho e os três juntos executam outra seqüência; daí a pouco subdividem-se em duplas; mais um pouco, a música cresce e estão todos juntos, sincronizados nos mesmos movimentos, e finalizam executando movimentos individuais.

Uma coreografia onde todos fazem o mesmo movimento o tempo todo, torna-se visualmente cansativa. Uma simples mudança de direção pode dar o toque especial: um executa a seqüência de frente enquanto dois fazem a mesma seqüência em diagonal para o público, e o último executa os movimentos ora para frente, ora de costas para a platéia. Em determinado momento, estão novamente todos juntos, sincronizados.

Uma variação de tempo, também pode dar esse toque diferente na coreografia. Dois começam a seqüência, os outros dois só iniciam oito tempos depois dos primeiros. De repente, um dos primeiros, pára, e espera os outros dois para seguir com estes. E assim por diante.

Explore ritmo, direção e movimento fazendo a coreografia ficar bela e interessante. Não tenha limites, solte a criatividade!

Já temos uma coreografia (ou mais de uma). Agora podemos pensar na apresentação que é, talvez, a melhor parte de todo este processo. Vou deixar isto com vocês, afinal sei que podem dar conta.

É um trabalho árduo este de dançar, não é? Mas é também muito prazeroso e engrandecedor. E quando se está entre amigos, fazendo o que se gosta, não há peso nem obrigação. Então, é só seguir e esperar o dia de dividir todo este trabalho com uma platéia que, esperamos, possa captar tudo o que aprendemos e somar ao nosso trabalho, em uma troca fraternal de energias.

E, por favor, não esqueça de me convidar para a estréia. Adorarei estar lá para aplaudir.

Denize de Lucena

 (Salvador, Ba)

denizedelucena@terra.com.br

 

Bibliografia:

 

  • andré luiz (espírito); xavier, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Evolução em Dois Mundos. 10a. ed. Brasília, DF: FEB, 1987.
  • Novo Testamento – Primeira Epístola de Paulo Apóstolo aos Coríntios.  in BÍBLIA SAGRADA. Ed. Pastoral – Bolso. 1a. ed. São Paulo – SP: Paulus, 1993.
  • BATISTA, Djalma. A importância do aquecimento na atividade física. Revista virtual EFArtigos. Natal/RN. Vol. 01, no. 06 jul. 2003. Disponível em :http://efartigos.atspace.org/otemas/artigo8.html    acesso em : 12 jul. 2008.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o espiritismo. RIBEIRO, Guillon. (trad.) 121 ed. Rio de Janeiro – RJ: FEB, 2003.

[1] Com formação técnica em Artes Visuais pelo CESV e em Dança pela FUNCEB, Licenciada em Artes Cênicas pela UFBa, Pós-Graduada em Supervisão Escolar pela Cândido Mendes –RJ, espírita desde 1995, integrante da Comunidade Arte e Paz – Ba.

[2] Diretor teatral, fundador e teórico da Antropologia Teatral, fundador e diretor do Odin Teatret, na Noruega. Suas idéias estão registradas nos seus livros Terra de cinzas e diamantes. SP: Perspectiva, 2006; Além das Ilhas Flutuantes. SP: Hucitec,1991; A Arte Secreta do Ator. SP:Hucitec,1995 edição com Nicola Savarese e A Canoa de Papel. SP: Hucitec,1994.

[3] Música Marc e Bella de Moacyr Camargo, do CD Marc e Bella num Sonho Azul. (moacyrcamargo@uol.com.br)

[4] No CD Marc e Bella há as duas versões, em instrumental e cantada.

[5] termo usado quando os bailarinos são suspensos por outros.

[6] Do francês, passo de dois: termo usado no ballet clássico para designar coreografia executada por um casal de bailarinos. Peça obrigatória no ballet de repertório.

 

TEXTO 1 -A dança como expressão do espírito

Eneida Nalini

“E que seja perdido o dia que não se dançou uma única vez…”

Nietzsche

 Esse texto tem por finalidade demonstrar de maneira sucinta como a dança tem representado, através dos tempos, sua importância dentro do contexto espiritual, seja por meio de ritos em alguma religião ou crença, seja pelo simples ato de celebrar.

No espiritismo, a dança vem ganhando terreno como disciplinadora de ações e sentimentos por ser uma das expressões artísticas que pode trabalhar o corpo visando o bem estar do ser em sua essência.

A dança, além de sua importância por si só, pode auxiliar as outras artes, tornando o artista mais completo, pois desenvolve a consciência corporal, nos fornecendo dimensões maiores para expressar nossos sentimentos.

A pesquisa deste trabalho se fez mediante sites da internet e livros relacionados à dança e ao espiritismo. Alguns filmes também serviram de suporte. O trabalho da mostra de dança espírita da cidade de Araras que está na sua 7ª edição, nesse ano de 2008[1] também vem servindo como material de pesquisa de campo para que possamos teorizar e investigar a respeito da dança com temática espírita.

Sendo “a música mediadora entre a vida material e a vida espiritual” (ARMIN, in Oliveira, 1995, p.52) podendo ser usada para a dança acontecer, então, a dança também fica entre o material e o espiritual. Quando se abstém da música, ficam então os sons refletidos através das imagens que a dança pode proporcionar.

Quando o homem começou a dançar?

Acredita-se que o homem pré-histórico tenha desenhado momentos de dança nas paredes das cavernas. Movimentos que se unificados nos lembram uma coreografia fotografada. A arqueologia não deixa de indicar a existência da dança como parte integrante das cerimônias religiosas. Alguns teóricos afirmam que a dança nasceu como uma necessidade de expressão.

Os primeiros registros de atividades dançantes datam do Paleolítico Superior, quando os homens viviam em pequenas hordas isoladas, cultivando um primitivo individualismo, apenas ocupados em coletar alimentos. Não há indicação de que cultuassem alguma divindade ou acreditassem na vida após a morte, nem que possuíssem um pensamento lógico. Ao contrário, dominados pelo pensamento mágico, pareciam acreditar ser possível, através de representação pictórica, alcançar determinados objetivos: abater um animal, por exemplo. Nesse sentido é que se poderia interpretar as pinturas e desenhos encontrados nas paredes e tetos (…) a representação de figuras humanas disfarçadas de animais, numa atitude de executantes de danças mágicas destinadas a alcançar aquele intento. (MENDES, 1987, p.9).

O homem demonstra, através dos tempos, como a dança vem auxiliando seu autoconhecimento e suas variadas necessidades de se expressar. A dança muda de caráter e vestimenta através de diferentes momentos históricos, atendendo de uma maneira, talvez sutil, aquelas necessidades. As técnicas aparecem e, algum tempo depois, a negação delas. Os movimentos contemporâneos e os diferentes estilos nos dão possibilidade de um estudo abrangente sobre as diferenças apresentadas e refletidas em cada momento histórico. No entanto, não cabe a nós fazê-lo neste momento.

 

Papel social da dança

A dança tem sua relevância dentro de diferentes grupos sociais como, por exemplo, a escola, a comunidade e os grupos artísticos independentes.

Nos grupos espíritas, a dança vem sendo desenvolvida como parte do trabalho espiritual no qual o grupo se insere. Muitas vezes, em várias discussões acerca do trabalho espírita, os coordenadores de trabalho ainda não sabem como definir esta arte que começa a se destacar em nosso meio. Alguns grupos trabalham a temática, observando e cuidando das letras das músicas coreografadas, outros grupos tentam passar uma mensagem que tenha como base os princípios da doutrina.

 

Objetivos da dança na vida do espírito

A dança desenvolve ricos mecanismos de evolução do pensamento e do sentimento, pois disciplina atos e ajuda na construção de novos pensamentos e desejos. Ela pode promover no espírito um estado de alegria, afastando depressões e tristezas, quando bem direcionada. Renova seus quadros de memória de maneira prazerosa e disciplinada. Eleva o pensamento do espírito, sendo às vezes até caracterizada como uma atividade mediúnica.

A dança:

  • modifica a vontade;
  • reflete uma maneira de sentir;
  • disciplina os sentimentos;
  • ajuda a identificar as necessidades espirituais do ser e seus conflitos;
  • é um processo educativo;
  • processa identificação e limpeza nos quadros da memória e
  • explora o pensamento e as emoções.

Acreditamos que a dança, como disciplinadora de sentimentos e conduta, deveria controlar a vaidade, dar consciência do espaço (você no espaço X espaço trabalhado), proporcionar cuidados com o corpo e a mente, com os processos mentais e com as ações como reprodução dos pensamentos.

O trabalho com crianças pode abrir uma oportunidade de vivência e convivência, disciplinando atos e abrangendo sua consciência quanto às possibilidades do corpo, sistematizando condutas.

Com adolescentes a dança disciplina e organiza ATOS, conscientiza a mente, abrange possibilidades do uso do corpo, disciplinando a sexualidade e a libido, ajuda a tratar o corpo como um instrumento do qual se faz uso, pois na doutrina sabemos que é o envoltório do qual nos utilizamos para o cumprimento das nossas tarefas (provas e expiações) no plano material.

Nos adultos percebemos uma reenergização, uma nova educação de postura e respiração e abertura de novas possibilidades de trabalho com o corpo.

O trabalho social cria oportunidades de trabalho nas áreas de teatro, expressão, coreografias e criações artísticas variadas, há valorização e entendimento do corpo, facilitando relações que estabeleçam o respeito como meta, notando-se uma preocupação maior com a saúde e também a multiplicação do trabalho.

A dança, através dos tempos, vem reforçando sua importância no contexto espiritual. Percebemos sempre a mensagem embutida nas danças com temática espírita: danças que permitem a reflexão de valores morais, éticos e espirituais.

Podemos concluir com este texto que a dança é, para alguns artistas espíritas, uma das expressões máximas do espírito, pois o artista se expõe por inteiro usando somente o corpo para sua execução.

A dança é uma aliada das artes, pois nos possibilita praticar nossa consciência corporal nos dando flexibilidade de ações. Ela é a expressão em si, pois seus movimentos podem relatar o que vai no íntimo do artista. Sendo bem trabalhada, com princípios e metas ordenadas dentro de objetivos que atendam à educação postural, moral e de consciência, a dança pode ser uma aliada no crescimento do ser humano, visto como integral, atendendo também às necessidades do espírito. Entende-se por dança, nesta dissertação, os movimentos corporais que podem ou não atender a técnicas. Movimentos que podem representar diferentes estilos e maneiras de se expressar, tendo como ferramenta o próprio corpo, trabalhado para a educação do espírito.

Sabemos que o Espiritismo contém um corpo de idéias todas elas confluentes para a edificação do ser humano em face da vida, no aqui e no agora existencial. Apesar de não ser ‘moralista’ como muitos de seus adeptos o apresentam, é moralizante em todos os sentidos, porque parte do pressuposto de que só poderemos cumprir nosso destino evolutivo orientando as ações por uma ética fundamentada no amor fraterno, aquele ensinado no Evangelho de Jesus, sejamos claro. (Tourinho, 1991: 15)

Observando a questão 127[2] do livro O Consolador, notamos que há uma questão de reforma íntima nos preceitos da pergunta sobre atividade artística. Cabe então, ao coreógrafo, trabalhar simultaneamente o que deve ser esta expressão através da dança.  Além disso, a dança desenvolve a confiança, o respeito e a responsabilidade do trabalho em grupo, facilitando, assim, nossa reforma íntima.

Como escreveu Béjart (in Garaudy, 1973, p. 8)

…o homem está só diante do Incompreensível: angústia, medo, atração, mistério. As palavras de nada servem (…) o que é preciso é entrar em contacto. O que o homem busca para além da compreensão, é a comunicação. A dança nasce dessa necessidade de dizer o indizível, de conhecer o desconhecido, de estar em relação com o outro (…), e é claro, na relação máxima consigo mesmo.

Eneida Gomes Nalini de Oliveira

(Franca – SP)

eneidanalini@yahoo.com

 

Eneida Gomes Nalini de Oliveira – Professora de Literatura e Língua Inglesa (metodologia e prática) graduada pela Universidade de Franca (Unifran). Especialista em Língua Inglesa e Literaturas. Mestranda na área de lingüística. Participante ativa do Instituto Arte & Vida, da cidade de Franca-SP, desde a sua fundação como atriz, diretora, monitora e coordenadora de trabalhos desenvolvidos no Instituto. Formada em profissionalizante de ballet clássico pelo Instituto Musical Ars Nova, da cidade de Franca. Estudiosa na área de dança e suas diversas modalidades. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

  • OLIVEIRA, Weimar Muniz. Renascimento da arte, à luz da terceira revelação. Goiânia: Feego, 1995.
  • EMMANUEL (Espírito) e XAVIER, Francisco Cândido (Médium). O consolador.  8ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1940.
  • GARAUDY, Roger. Dançar a vida. Danser sa vie. Antônio Guimarães Filho e Glória Mariani. 4ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1973.
  • MENDES, Miriam Garcia, A dança. 2ª ed. São Paulo: Ática, 1987.
  • TOURINHO, Nazareno. A dramaturgia Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 1991.

[1] A Mostra de Dança Espírita de Araras acontece todos os anos na cidade de Araras (SP); oficinas, estudos e mostra com temática espírita são enfatizados durante o encontro. Maiores informações: glussari@hotmail.com

[2] 127 – O preceito “corpo são, mentalidade sadia” poderá ser observado tão-somente pelo hábito dos esportes e labores atléticos?

No que se refere ao “corpo são”, o atletismo tem papel importante e seria de ação das mais edificantes no problema da saúde física, se o homem na sua vaidade e egoísmo não houvesse viciado, também, a fonte da ginástica e do esporte, transformando-a em tablado de entronização da violência, do abastardamento moral da mocidade, iludida com a força bruta e enganada pelos imperativos da chamada eugenia (…)

“Bastará essa observação para compreendermos que a “mentalidade sadia” somente constituirá uma realidade quando houver um perfeito equilíbrio entre os movimentos do mundo e as conquistas interiores da alma.” (1940: 81)

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4 respostas para Ciclo de Diálogos sobre Dança Espírita

  1. Pingback: Dança Espírita « Alma que Dança

  2. Dora Silva disse:

    Obrigada pela partilha de tamanha sabedoria e vivências! Identifico-me, e sinto que é nesta direcção que estado a trilhar o meu caminho neste mundo fantástico e único que é a Dança! A minha alma, encontrou nestes textos as palavras que lhe faltavem para melhor se fazer compreender! Obrigada!: )

  3. Palas Atena disse:

    Que bom , Dora que o blog tem contribuído de alguma forma. Um forte abraço!
    Daniela Soares

  4. Princia Buzato Conti disse:

    Maravilhosos os textos!! A dança é obra Divina!!

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