O adolescente e a Dança Espírita

 

O ADOLESCENTE E A DANÇA

                                                     Daniela L. Pereira Soares

  ADOLESCENTE – QUEM É ELE?

  Antes de iniciarmos o trabalho com dança em qualquer faixa etária é necessário conhecer as características biológicas, psicológicas, afetivas e espirituais da fase em que o indivíduo está vivendo; inteirar-se de seus gostos e desejos, de suas dificuldades e desafios, para melhor compreendê-lo e assim, desenvolver uma atividade que venha ao encontro de suas necessidades. Dessa forma, apresentamos abaixo, uma síntese das principais modificações pelas quais a criança passa ao entrar nessa etapa da vida, apenas para que possamos ter em mente quem é a pessoa com a qual estamos lidando, o que é esperado e o que não é de se esperar nessa fase de desenvolvimento humano, tanto do ponto de vista físico como espiritual. Volta

Então, comecemos do início – O que é adolescência?

           A adolescência caracteriza-se por ser uma fase de transição entre a infância e a juventude. É uma etapa extremamente importante do desenvolvimento, com características muito próprias, que levará a criança a tornar-se um ser adulto, acrescida da capacidade de reprodução. As mudanças corporais que ocorrem nesta fase são universais, com algumas variações, enquanto as psicológicas e de relações variam e cultura para cultura, de grupo para grupo e até entre indivíduos de um mesmo grupo. (ZAGURY, 1996, p. 24)

  Especialistas no assunto, colocam hoje em dia a puberdade (11 a 12 anos) como pequena fase de transição entre a infância e adolescência (13 a 18 anos).

            Segundo a autora já citada, dentre as características da adolescência, destacam-se:

  • Acentuado desenvolvimento físico – A característica mais clara e visível são as mudanças externas, no entanto, internamente fortes transformações nos campos intelectual e afetivo acontecem. Do ponto de vista físico, Zagury (1996) esclarece:

 A menina em poucos meses perde as características infantis, tomando formas femininas, quase que as definitivas de toda a juventude. Entretanto, ainda se sente e age como uma criança, aprisionada num corpo que, somente aos poucos, irá incorporando como seu de fato.

 Os meninos, por seu turno, também passam por dificuldades. O engrossar da voz, por exemplo, os deixa em situações difíceis, porque ora ela soa aguda e desafinada, ora eles têm a sensação nítida de que é seu próprio pai que lhes fala… As ereções e polução noturna trazem embaraços adicionais, principalmente, quando não têm, em casa, liberdade suficiente para tocar em tais assuntos. (ZAGURY, 1996, p. 29)

  • Amadurecimento sexual – o disparar do relógio biológico coloca em funcionamento glândulas que produzirão hormônios importantíssimos. Há portanto, uma grande atividade hormonal, glandular, que levará à capacitação reprodutiva.

 

  • Modificações a nível social – o grupo de amigos tende a aumentar em importância e a tendência à imitação acentua-se novamente, ou seja, a forma de vestir, de falar, de agir e até mesmo os gostos tendem a ser muito influenciados pelo grupo. Temem não serem aceitos e valorizados pelos amigos e, portanto, procuram agir de acordo com o que faz a maioria.

 

  • Desenvolvimento intelectual – Há o surgimento do raciocínio hipotético-dedutivo, permitindo generalizações mais rápidas, bem como a compreensão de conceitos abstratos. Essa independência intelectual, muitas vezes manifesta-se como rebeldia em relação às autoridades em geral. Este fato se liga a capacidade de abstração, reflexão e generalização de hipóteses, o que leva o jovem a uma abordagem mais filosófica e independente sobre quaisquer conceitos que lhe sejam apresentados. Dessa forma, se antes, tudo o que era dito por pais e professores era verdade absoluta, agora não é mais. Passam a questionar princípios sociais, religiosos, políticos e familiares.

 

  • Aumento do apetite – devido ao rápido e intenso crescimento físico.

 

  • Busca de identidade – Como já dissemos, nesta fase a sociabilidade é maior, no entanto a insegurança é muito grande. Há uma busca de identidade, para a qual o jovem precisa de um tempo, pois acarreta angústia, dificuldades de relacionamento, confusão e medo. Daí o fato de alternarem períodos de grande convívio com amigos e períodos em que se “enfurnam” no quarto, pouco ou nada falando com ninguém.

 

  • Instabilidade emocional – É comum períodos de serenidade sucederem-se a outros de extrema fragilidade emocional, com demonstrações freqüentes de instabilidade. Isso se deve a insegurança sentida pelo jovem, que ora se manifesta como “superioridade” em relação ao adulto, ora como total dependência.

 

Essa ebulição interna pode expressar-se de várias maneiras. Uma delas, por exemplo, é a tendência a deixar as coisas desarrumadas, o quarto, os armários, as roupas. Às vezes até a aparência torna-se desleixada. [...] importante é compreender que, por trás do aparente descaso, estão a insegurança, o medo interno, numa fase em que tudo se transforma com muita rapidez para eles. Mas passa. É só saber esperar. (ZAGURY, 1996, p.28)

 

 Um ponto bastante importante a ser refletido por todos nós, é que a relação com o adolescente, principalmente entre pais e filhos, faz parte de um processo que se iniciou na infância, logo nos primeiros anos de vida da criança. As coisas não acontecem por acaso. Desta maneira, a forma de relacionamento que se estabeleceu na mais tenra idade é, provavelmente, a que vai predominar no futuro.  No que diz respeito à responsabilidade dos genitores neste processo, André Luiz , nos diz em Mecanismos da Mediunidade que “a maneira de alguém que recebe esse ou aquele tipo de educação em estado de sonolência, o Espírito reencarnado, no período infantil, recolhe dos pais os mapas de inclinação e conduta que lhe nortearão a existência[...]”. Além disso, a lei da reencarnação explica simpatias e desafetos aparentemente voluntários no seio familiar, que são muitas vezes agravados neste período.

Do ponto de vista espiritual, “a epífise, glândula da vida mental, acorda no organismo do homem na puberdade, as forças criadoras e, em seguida, continua a funcionar, como o mais avançado laboratório de elementos psíquicos da criatura terrestre” [1], a partir daí segundo o instrutor Alexandre em diálogo com André Luiz nos diz que:

 Aos catorze anos, aproximadamente, de posição estacionária, quanto às suas atribuições essenciais, recomeça a funcionar no homem reencarnado (referência a glândula pineal). O que representava controle é fonte criadora e válvula de escapamento. A glândula pinealreajusta-se ao concerto orgânico e reabre seus mundos maravilhosos de sensações e impressões na esfera emocional. Entrega-se a criatura à recapitulação da sexualidade, examina o inventário de suas paixões vividas noutra época, que reaparecem sob fortes impulsos. Ela preside aos fenômenos nervosos da emoção, como órgão de elevada expressão no corpo etéreo. Desata, de certo modo, os laços divinos da Natureza, os quais ligam as existências umas às outras, na sequência de lutas, pelo aprimoramento da alma, e deixa entrever a grandeza das faculdades criadoras de que a criatura se acha investida. (XAVIER, F.C ,espírito Andre Luiz, 1995, pp 20-21).

           

Muitos pais questionam as mudanças de comportamento do filho nesta faixa etária – é que o espírito, que antes se revestia da túnica da inocência infantil[2], acorda do estado transitório em que se encontrava, tomando posse gradualmente de suas faculdades que se conservavam em estado latente. O espírito na fase da adolescência estará contrapondo a educação e todas as experiências por que passou na fase da infantil, com a bagagem milenar que traz de outras existências. José Raul Teixeira (1995), em seu livro “Desafios da Educação”, ditado pelo espírito de Camilo, apresenta de forma bem clara esse período cheio de dúvidas, ansiedades, desejos e temores por que passa a criatura encarnada na fase da adolescência:

Esse conjunto de músculos e hormônios, enquanto se desenvolve no corpo adolescente, estabelece as suas leis; em meio a uma intensa tempestade de psiquismo pretérito que se libera do âmago desse indivíduo e que se choca com as psicologias da atualidade, de onde o jovem tem que extrair o que deseja ser, em verdade, ignorando as razões das suas constantes alterações de humor e de gostos, como se cada dia fosse ele mesmo outra criatura. Nesse turbilhão de costumes do mundo profano que assevera a extrema validade de tudo, diante das normatizações disciplinares das religiões que dizem o que é proibido aqui ou o que é pecaminoso ali, tem o moço que estabelecer onde estará o meio termo nas questões da vida moral. (TEIXEIRA, J. R.,espírito Camilo, 1995, pp 33-34)

  Aí a importância do período infância na Educação do Espírito – “Durante o tempo em que seus instintos dormitam, ele é mais flexível, e por isso mesmo, mas acessível às impressões que podem modificar sua natureza e fazê-lo progredir [...] – (O Evangelho Segundo o Espiritismo, p.114). Dentro deste pensamento, Alves (2000) destaca o papel da arte:

 Daí a importância de se alimentar a alma infantil com sentimentos elevados, cultivar os ideais superiores da alma e abrir canais para a expansão e liberação dessa energia para os caminhos superiores da vida, abrindo-se e expandindo a energia criadora nos caminhos belos e divinos da arte em geral, da música, da dança, do teatro, das artes plásticas, da poesia e, ao mesmo tempo, desenvolvendo os ideais nobres da alma que vão desembocar no amor ao próximo, essência divina e superior do sentimento maior. (ALVES, 2000, p. 128)

 O JOVEM E A DANÇA

“[...] no entanto, chegados à compreensão de agora, podemos assegurar que tudo na vida, é impulso criador. Todos os seres que conhecemos, do verme ao anjo, são herdeiros da Divindade que nos confere a existência e todos somos depositários de faculdades criadoras.” (Andre Luiz, No Mundo Maior. Cap. XI)

  Todos os seres são dotados da energia criadora, utilizando-a segundo o grau evolutivo em que se encontrem. Segundo Alves (2000), nos primórdios da evolução, o ser se utiliza dessa energia para satisfazer as necessidades básicas da espécie – alimentação, procriação, ataque e defesa; no entanto, o cientista, o pintor, o músico, o bailarino fazem uso desta mesma energia, dentro do grau evolutivo em que estejam.

            Como vimos anteriormente, temos na puberdade o desabrochar da glândula pineal, que segundo o instrutor Alexandre[3], conserva ascendência sobre o sistema endocrínico. “Ligada à mente, comanda as forças subconscientes sob a determinação direta da vontade. Manancial criador dos mais importantes, suas atribuições são extensas e fundamentais”. Além disso, segundo o instrutor, já citado, na qualidade de controladora do mundo emotivo, sua posição na experiência sexual é básica e absoluta. No entanto, a maioria de nós encarnados, canaliza esta energia para os campos mais baixos do prazer materialista, pervertendo nosso campo mental consciente e, dessa forma nosso psiquismo insconsciente – “a vontade desequilibrada desregula o foco de nossas possibilidades criadoras.

            Desta maneira, temos na arte um forte elemento de canalização da energia criadora do Espírito, quando bem conduzida, aos canais superiores da vida – tarefa que deve ser iniciada desde a primeira infância.

            Na adolescência em especial, uma das mais importantes e belas fases do Espírito reencarnado, a arte vem ao encontro do desejo de “fazer”, de “criar” do jovem, direcionando a “vontade” a ideais superiores. O ideal, alimentado na infância, segundo Alves (2000), “é força que direciona a energia criadora para os caminhos superiores da evolução.”

            Segundo Nallini (s.d) a dança com adolescentes,

“disciplina e organiza ATOS, conscientiza a mente, abrange possibilidades do uso do corpo, disciplinando a sexualidade e a libido, ajuda a tratar o corpo como um instrumento do qual se faz uso, pois na doutrina sabemos que é o envoltório do qual nos utilizamos para o cumprimento das nossas tarefas (provas e expiações) no plano material”. (NALLINI, s.d.)

           

Dentre os objetivos da dança na vida do Espírito, a autora já citada acrescenta:

A dança desenvolve ricos mecanismos de evolução do pensamento e do sentimento, pois disciplina atos e ajuda na construção de novos pensamentos e desejos. Ela pode promover no espírito um estado de alegria, afastando depressões e tristezas, quando bem direcionada. Renova seus quadros de memória de maneira prazerosa e disciplinada. Eleva o pensamento do espírito, sendo às vezes até caracterizada como uma atividade mediúnica. A dança: modifica a vontade, reflete uma maneira de sentir, disciplina os sentimentos, ajuda a identificar as necessidades espirituais do ser e seus conflitos, é um processo educativo, processa identificação e limpeza nos quadros da memória e explora o pensamento e as emoções. Acreditamos que a dança, como disciplinadora de sentimentos e conduta, deveria controlar a vaidade, dar consciência do espaço (você no espaço X espaço trabalhado), proporcionar cuidados com o corpo e a mente, com os processos mentais e com as ações como reprodução dos pensamentos.

 COMO COMEÇAR UM TRABALHO DE DANÇA COM ADOLESCENTES?

 O primeiro passo é motivá-los, mobilizando a vontade de realizar o trabalho. Como nos diz Alves (2000) apud Emmanuel – “A vontade é a mola propulsora da ação.”

            É preciso levar algo concreto, com uma meta a atingir. Um exemplo é convidá-los a montar uma coreografia para um evento com data já agendada na Casa Espírita e/ou levar a proposta de apresentar em uma Mostra Espírita de Dança. O jovem gosta de desafios e de sentir útil, co-criador das atividades que realiza. No entanto, é esperado que nem todos se entusiasmem. Um dos motivos é o medo de se expor pelas transformações do próprio corpo, o receio de errar e não ser aceito pelo grupo. Neste caso, é melhor não insistir e tratar com naturalidade. Com o tempo, vendo o envolvimento dos outros jovens e principalmente a apresentação realizada, o trabalho pronto, outros adolescentes se sentirão atraídos pelo trabalho de forma natural, sem serem forçados para tal.

            Também deve-se considerar, que nem todos “gostam” ou sentem-se atraídos pela linguagem da dança. É importante que isso seja respeitado    e que o coordenador do grupo e/ou evangelizador seja sensível para identificar outras habilidades que este jovem seja portador. Dessa forma poderá sugerir atividades em que ele não esteja necessariamente dançando, mas que faça parte do trabalho realizado pelo grupo, como: fazer a sonoplastia da apresentação, ajudar na construção dos cenários, criar e/ou desenhar figurino adequado para a apresentação, fazer a parte de iluminação, pesquisar e escrever o roteiro do espetáculo, entre outros.

Outro ponto bastante importante é o diálogo. É importante propor idéais, mas antes de tudo é imprescindível saber ouvir e direcionar propostas em que o adolescente envolva-se e sinta-se participante ativo no desenvolvimento da atividade.

Não basta propor criações que venham ao encontro apenas dos ideais do coordenador e/ou coreógrafo, é preciso também, que se alinhem às necessidades dos adolescentes – este ponto é fundamental para que se sintam motivados e entreguem-se ao trabalho proposto. Isso não quer dizer, aceitar propostas em desacordo com os ideais espírita-cristãos, e sim, saber direcionar suas escolhas, de forma que contemple temas, estilos musicais, técnicas de dança que o jovem tenha interesse.

Quando ouvido, tratado com respeito, sem imposições de qualquer tipo, o jovem tende a se abrir ao diálogo, e já de posse do pensamento formal[4], segundo Piaget, é capaz de discutir, refletir com o coordenador, coreógrafo e demais integrantes do grupo; textos e propostas para a criação coreográfica que venham ao encontro dos objetivos da Doutrina Espírita.

Realizada a primeira apresentação, se todos se sentirem motivados, surgirão outras e aí estará o germe de um futuro grupo espírita de dança.

Importante discutir com os jovens um nome para o grupo, horários fixos para ensaios e treinos técnicos e estender o convite aos que já tenham experiência em dança, para participarem das reuniões de preparação das aulas. Feito isto, é importante definir em conjunto o objetivo do trabalho de dança na Casa Espírita. É preciso que todos os participantes tenham em mente com muita clareza o porquê do trabalho com dança e os benefícios que trarão a ele como Espírito Imortal.

O norte do trabalho artístico será sempre o estudo e a vivência do Evangelho do Cristo, roteiro seguro que auxiliará em profundas transformações íntimas e que se refletirá nas criações realizadas pelo grupo.

           REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 ALVES, Walter Oliveira. Educação do Espírito: Introdução à Pedagogia Espírita. 1ª ed. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita,1997.

 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.  284ed. Araras: IDE Editora, 365p.

 NALLINI, Eneida. A Dança como Expressão do Espírito. Disponível em: http://mostraespiritadedanca.wordpress.com/2010/08/20/danca-como expressao-do-espirito/

 TEIXEIRA, José Raul (espírito Camilo). Desafios da Educação. 1ed. Rio de Janeiro: Editora FRATER, 1995, 140p.

XAVIER, Francisco Cândido (espírito André Luiz). Missionários da Luz. 26 ed. Rio de Janeiro: FEB, 347p.

 ZAGURY, Tania. O Adolescente por ele mesmo: Orientações para pais e educadores. 3ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.

 


[1]    Ler Missionários da Luz (XAVIER, Francisco Cândido – Emmanuel). Cap. 2 – FEB

[2]  Ler Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. VIII – Bem Aventurados Aqueles que Tem o Coração Puro.

[3] Missionários da Luz, p. 21

[4]PIAGET (s.d.) apud ALVES (2000) nos diz, que do ponto de vista cognitivo, os primeiros tempos da adolescência, o jovem começa a lidar não só com situações reais e concretas, mas também de pensar logicamente sobre coisas abstratas. Aumenta gradualmente a capacidade de resolver problemas abstratos, adquirindo o pensamento científico. Daí a importância de se trabalhar com técnicas dinâmicas que levem o jovem à pesquisa, à troca de idéias, ao desenvolvimento do pensamento científico. (ALVES, W. O. Introdução ao Estudo da Pedagogia Espírita: Teoria e Prática. 1ed. Araras/SP: IDE, 2000, pp 127-128.

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