Arte no Espiritismo: Uma Atitude de Amor

Ney Wendell[1]

No livro “Seara Bendita”, de Wanderley de Oliveira e Maria José de Oliveira, tem um capítulo denominado “Atitude de Amor” de Bezerra de Menezes, transmitida no momento do 1º Congresso Espírita Brasileiro em Goiânia, no ano de 1999 e narrada pelo companheiro Cícero Pereira.

Neste capítulo ele nos traz passos fundamentais para a doutrina espírita na entrada do século XXI. São partes desta mensagem que transcrevemos a seguir para relacionarmos com a prática artística e esclarecer os fundamentos da implantação deste fazer estético transformador, organizado e qualificado, dentro da casa espírita. É mais uma confirmação de nossa sintonia com que há de mais contemporâneo nas diretrizes do atual movimento espírita.

Para iniciarmos este entendimento, segue um trecho que traduz o ponto disparador da mensagem do espírito Bezerra de Menezes (2000, p. 346):

“Os primeiros setenta anos do espiritismo constituíram-se no período da consagração das origens e das bases em que se assentam a doutrina, que lhe conferiram a legitimidade. (…) O segundo período de mais setenta anos, que coincide com o fechamento do século e do milênio, foi o tempo da proliferação. (…) Penetramos agora o terceiro portal de mais setenta anos, etapa na qual se pretende a maioridade das idéias espíritas. (…) É a etapa da fraternidade na qual a ética do amor será eleita como meta essencial, e a educação como o passo seguro na direção de nossas finalidades. (…) É necessário atestar a vitalidade dos postulados espiritistas como alavanca de transformações sociais e humanas. Sua influência na cultura, nas artes, na ciência, nas leis, na filosofia e na religião conduzirá as comunidades (…) a novos rumos para o bem.”

A arte entra como uma das bases desta renovação do atual setenta anos do espiritismo, por ser um processo educativo do espírito. A arte abre-se como um caminho metodológico da educação que ele nos fala e como campo de conhecimento que pode gerar diversos processos criativos, solidários e sensíveis de aprendizagem. Com a arte na educação colocamos o pensar, o sentir e o fazer como elementos que facilitam a manifestação desta capacidade de amar, inerente ao espírito, através do viver estético.

É possível dizer que, no fazer artístico, o espírito entra em contato com sua divindade, sua faculdade criadora que é o amor manifestando-se diante da natureza. Neste espaço criativo o homem se religa com Deus pelo poder de co-criar.

Outra consideração sobre a ética do amor, como meta, está na possibilidade do fazer artístico ser um momento do trabalhador espírita aprender a conviver com as diferenças, socializar-se ao criar e viver em grupo. Possibilita o autoconhecimento numa visão mais ampliada de si e, consequentemente, do outro. Neste sentido, é acionado um estado sensível que promove um respeito pelo outro, um olhar solidário e uma disposição para juntar talentos em aglutinações democráticas e colaborativas.

Para exemplificar, usamos o palco como campo de exercício da vida cotidiana e nele não estamos a sós ao apresentar um espetáculo. Há um coletivo atuante. Eu e o outro somos parte da obra. Há uma interdependência e uma necessidade de unidade para o resultado final, desde os ensaios até a apresentação. Nesta busca da unidade está o significado da prática do amor.

Educar com arte é possibilitar o prazer, a leveza e a amorosidade no aprender, além de despertar a beleza em cada talento potencializado.

A arte se encontra presente e firme na história destes novos setenta anos do espiritismo. É preciso produzir as obras e educar artisticamente, seguindo as demandas dos tempos de hoje, como ele bem nos esclarece, ao dizer que

em verdade, a tarefa é urgente, não apressada, mas exige ousadia e dinamismo sacrificial para encetar as mudanças imperiosas no atendimento dos reclames da hora presente. (MENEZES, 2000, p. 346-347)

Este trecho nos alerta, enquanto produtores das artes no espiritismo, de que há uma urgência em nossa tarefa. É hora de ocuparmos nossos espaços no centro espírita com as artes, como uma atividade sistematizada e organizada e também expormos e circularmos nossas obras artísticas pelo mundo. É uma espiral de ação para dentro – vivendo o centro espírita – e uma ação para fora – revelando os conhecimentos do espiritismo – agindo como e para os seres humanos enquanto espíritos em evolução.

Há uma predominância de uma produção artística no mundo que não nos agrada enquanto espíritas, na qual, colocamos nossa discordância referente à comercialização acima dos princípios espirituais e o estado antiético dos artistas que se esquecem de sua função benéfica para este planeta. Queremos rever este caminho da explosão pós-moderna da arte, enquanto mercadoria, que acaba perdendo sua capacidade de manifestação divina, necessitando-se voltar para o bem estar do ser.

Como artistas, precisamos do conhecimento espírita e dos saberes artísticos para propor obras e ações pelas artes que explicitem o amor trazido em revelações pelo espiritismo, para o mundo. É fazer uma arte capaz de dialogar com o presente, com as exigências de qualidade que movem a sociedade e ao mesmo tempo re-alimentar a paixão naturalizada pela produção artística que transforme beneficamente o espírito.

Enfrentar o repúdio dos que alegam religiosismo ou os discordantes dos saberes espirituais dentro do nosso trabalho é difícil e precisa sacrifício e muito dinamismo para mexer-se com agilidade e simplicidade diante dos empecilhos e preconceitos, atuando no mundo com resiliência.

Falta apoio financeiro, pois, sabemos que a produção artística tem seus custos para manter-se com qualidade. Faltam os espaços disponíveis ou preparados para circular com nossas produções. Falta ainda qualidade técnica em nossas produções e, acima de tudo, disponibilidade de vida para dedicar-se a esta luta. Talvez, esta geração de artistas espíritas do século XXI, seja lembrada no futuro como corajosos desbravadores que disponibilizaram seus talentos para dialogar de frente com o mundo.

São atitudes como: levar produções qualificadas para nossa cidade, sendo apresentações espíritas; ocupação dos espaços na mídia; produção e pesquisa nas universidades sobre a arte e o espiritismo; maior circulação dos nossos produtos; construção de eventos como cursos, mostras, festivais, fóruns e encontros; criação de grupos organizados; profissionalização dos artistas espíritas; criação dos núcleos em nossas casas; edição de livros, artigos, revistas, CDs, DVDs, sites, filmes sobre esta arte e saber manter-se, eticamente, como um artista espírita etc.

Sobre isso Bezerra (2000, p. 348) nos lembra que “temos grupos dispostos a comprometer-se com os misteres da hora a custo de sacrifício; eles serão os apóstolos da ‘gentilidade’ dos tempos modernos”. Podemos nos colocar nestes papéis de apóstolos pelas artes do bem e do amor, sabendo que “agora é o tempo dos atos solidários pela união das forças”(idem, p. 351).

É hora de agir em grupo, em redes de intercâmbios, em cooperação. É no grupo que Bezerra coloca a responsabilidade de condução do espiritismo na atualidade. Os apóstolos estão representados e manifestados numa grupalidade. Por isso, nossa luta de unirmos os talentos artísticos em grupos organizados dentro da casa espírita. Não podemos trabalhar sozinhos, pois, os desafios são imensos e se renovam a cada dia. É preciso a constituição daquilo que chamamos famílias espirituais, comunidades de trabalhos etc.

É uma missão difícil unir artistas devido ao forte “ego” de cada um, formado por uma cultura da fama pessoal. Precisa-se muito de humildade e renúncia para trabalhar dentro de um grupo artístico, onde somos lançados para esta consciência de que precisamos de atos solidários e união das forças. Imaginem que belas produções artísticas podem nascer destas integrações de talentos.

Como poderemos crescer mais rápido com a troca de saberes e experiências, onde um ajuda ou complementa o outro para o resultado qualificado. A arte precisa de grupo, em que cada potencial pode ser aprimorado e ampliado para, através do estar em coletivo, cumprirmos a sublime missão dos espíritas.  Ao pensar no desafio desta união é importante lembrar que “a atitude de alteridade será o termômetro do progresso das idéias espíritas no movimento” (MENEZES, 2000, p. 349). Esta alteridade está diretamente ligada ao respeito, a convivência pacífica e a amorosidade ao outro e as suas diferenças no conviver diário.

Somos espíritos em evolução e estamos ao lado de um companheiro numa jornada de crescimento espiritual, onde cada um tem sua parte fundamental nesta história e é sempre bom lembrar que não é por acaso que nos tornamos parceiros nessa jornada.

Ao viver em grupo, não tenhamos medo do conflito, do embate de idéias. Bezerra nos fala que dialogar é uma atitude de amor. A arte tem em suas bases o diálogo e muitas vezes o conflito tem por traz uma nascente geradora para a produção artística.

Agora somos chamados a atenção que em todo este processo, realmente, não podemos ficar só. Há companheiros de jornada encarnados e desencarnados que trabalham conosco nesta seara bendita da arte e que se vinculam por afetos ou desafetos passados. Por isso, que o nosso querido autor nos revela, com toda a sua sabedoria que “é urgente trabalhar por uma cultura de trocas e crescimento grupal, habituando-se a ter nossas certezas abaladas pelo conflito e pela permuta.” (MENEZES, 2000, p. 350). E quando estivermos na crise, que nos afeta em alguns momentos na vivência grupal, é importante que “tomemos como lema a tríade inspirada do codificador ‘trabalho, solidariedade, tolerância’, como bem nos revela Bezerra (2000, p. 352).

Ele nos esclarece sobre a nossa atitude enquanto artista que deve estar vinculado aos princípios da codificação espírita. Temos que refletir sobre nossa missão nesta encarnação, sobre o nosso trabalho, qual o valor que ele possui diante da sociedade atual e principalmente qual a real disponibilidade de tempo, estudo e entrega para se considerar um trabalhador espírita.

Há neste papel uma grande responsabilidade assumida e que possui suas determinadas atribuições referentes aos resultados positivos para nosso planeta. E como medidas salutares deste trabalho, se encontram a solidariedade que mostra nossa disposição em agir em equipe e a tolerância que responde por nossa atitude moral.

Junto a isso, há a tolerância que explica a paciência que devemos ter com as diferenças de cada contexto social, cada sujeito enquanto espírito com suas histórias de vidas, com as opiniões de cada um e atender os princípios de compreensão e humildade para conviver com as especificidades de cada grupo ou pessoa. Com isso, podemos ter a certeza de que

“o núcleo espiritista deve sair do patamar de templo de crenças e assumir sua feição de escola capacitadora de virtudes e formação do homem de bem” (MENEZES, 2000, p. 353).

É hora de a arte assumir seu verdadeiro papel dentro da casa espírita. Sendo esta, uma escola capacitadora de virtudes, a arte torna-se um elemento fundamental para que o aprendizado aconteça por via tantos mentais, corporais, espirituais ou emocionais e, desta forma, consiga atender integralmente o indivíduo. Pelo caminho artístico, o ser se defronta com seus próprios potencias criativos que devem ser postos em práticas e bem utilizados, e com isso ele pode se tornar um verdadeiro instrumento do bem no mundo.

Há em toda sua constituição física e espiritual, capacidades que são despertadas pela arte e pode se manifestar em talentos para a sua vida e da humanidade, agindo com potenciais criativos para ser um sujeito transformador. Com a arte, o ser se ver num espelho natural, revelando-o como espírito com uma imensidão de talentos, em que o criar uma obra é aprender a agir como manifestante divino.

Fica assim, nossa forma de vincular as artes aos esclarecimentos expostos neste livro “Seara Bendita”, seguindo a viva mensagem de Bezerra e mostrando que o nosso criar artístico é feito de simplicidade e divindade, pois, a “a nossa meta essencial é o amor, a atitude de Deus em nós” (MENEZES, 2000, p. 349).

Referência

MENEZES, Bezerra [Espírito]. Atitude de Amor. In: OLIVEIRA, Maria José C.S; OLIVEIRA, Wanderley Soares de (Org.). Seara Bendita. Belo Horizonte: INEDE, 2000.


[1] Diretor Teatral, Arteducador, Mestre em Artes Cênicas pela UFBA e Membro da Associação Brasileira de Artistas Espíritas-ABRARTE. (Agosto de 2010 em Salvador-Ba)

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