Paulo Cézar Silva
“Em síntese, a educação tem como objetivo auxiliar a evolução do espírito.” (ALVES, 2000:28)
Assim como todas as artes, a dança vem se expandindo no meio espírita, como mais um instrumentos de educação do espírito, através do autoconhecimento, da interação com o próximo, da aproximação com o Criador e da prática do Evangelho do Cristo através das apresentações artísticas. Devemos entender educação no sentido de aprimoramento moral, podendo ser substituída por evangelização sem se descaracterizar.
Mas para que a dança seja um instrumento de evolução do espírito, é necessário conhecer como se dá a educação e a evolução do espírito:
“Compreender o mecanismo da evolução auxiliará a compreender o próprio mecanismo da aprendizagem e do desenvolvimento em seu amplo sentido. O princípio espiritual, desde o momento da criação caminha sem detenção para frente. Embora contando sempre com o apoio das inteligências superiores que oferecem os estímulos necessários à marcha evolutiva e também com a assistência amorável dos benfeitores espirituais, cada Espírito evolui através do esforço próprio, com o trabalho de si mesmo”. (ALVES, 2000:28)
Considerando que a evolução ocorre através da ação e da vivência física e espiritual, o espírito deve buscar se desenvolver moralmente utilizando quando encarnado de seu instrumento físico e perispiritual para progredir e edificar as virtudes a caminho da perfeição, lapidando as vicissitudes que se encontram arraigadas em seu íntimo. O trabalho com a dança possibilita auxiliar este desenvolvimento do espírito ou bailarino encarnado. Através das atividades de dança, trabalhadas nas aulas, nos ensaios e nas apresentações, se propicia ao espírito encarnado um processo constante de interação, entre corpo e espírito auxiliando em seu autoconhecimento refletindo e suas relações com o meio, propiciando um contato maior com seu íntimo, com o próximo e com o Criador. Considerando segundo Walter de Oliveira Alves, que:
“O mecanismo da evolução ocorre através da ação, da atividade e da vivência, somos espíritos em evolução e evoluímos pela atividade, pela ação, pela vivência”. (ALVES, 2000:29)
Esta ação ocorre em todo o processo evolutivo dos espíritos desde o germe. Ação presente em todas as etapas do trabalho com a dança, que não deve ocorrer somente no desenvolvimento artístico das diferentes modalidades e técnicas em dança e em arte, pois, este aprendizado torna-se rico, com maior valor e maior contribuição no aperfeiçoam do espírito, quando todas as etapas de aprendizagem da dança ocorrem concomitantemente com a busca consciente pelo aprimoramento do espírito. Uma ação de modificação interior, ou seja, reforma íntima.
A ação, atividade e vivência é um processo constante na dança, não apenas da prática do movimento que deve visar a expressão, a comunicação e o estético, o bailarino ou espírito encarnado deve buscar expressar-se, comunicar-se através de uma estética e de uma beleza moral elevada em todas as suas posturas diárias, num constante movimento de aprendizagem e evolução, tanto da própria técnica de dançar, quanto da espiritualização do ser.
Sendo que:
“O espírito evolui, pois, pelo esforço próprio, interagindo com meio, através de experiências múltiplas. Não se trata, contudo, de experiências meramente acumulativas, mas de transformação interior, criando estruturas novas em níveis cada vez mais elevados, na medida em que o espírito interage com o meio, física e espiritualmente falando.” (…) Existem em todos os seres, um impulso criador, que os leva a agir. Filhos de Deus-Criador trazemos essa herança divina, que nos impulsiona para frente e para cima, criando e recriando, construindo a nós mesmos, num esforço evolutivo constante. Esse impulso criador esta presente em todos os seres que, impulsionados pelas necessidades naturais, são levados a agir, criando e recriando as bases de sua própria evolução”. (ALVES, 2000:29)
A dança unida ao trabalho de evangelização ou educação do espírito tem um campo inesgotável para se explorar o impulso criador, seja através das aulas de modalidades específicas, nas atividades de criatividade e nos laboratórios de improvisação, além do estudo e da reflexão que são aspectos pouco trabalhados, pois, o ato de dançar envolve o trabalhar integrado do corpo, mente e espírito, que deve ser realizado através de um processo integrado e equilibrado.
Trabalho que visa não somente a busca pelo homem, pela arte e pela vida em sociedade, mas pelo desenvolvimento da perfectibilidade do espírito, atingir sua ascensão espiritual, onde somos herdeiros de um potencial infinito, que nos impulsiona para o Pai.
O trabalho com a dança permite uma permutação, uma troca de energias espirituais, além dos aspectos físicos, que ocorre através da convivência com outros bailarinos, entre aluno e professor, com o público que aprecia os espetáculos, com os espíritos desencarnados presentes em todo espaço criado por Deus, o espírito não evolui sozinho.
A dança permite a interação entre espíritos, através da convivência com o próximo, o espírito age e é impulsionado a desenvolver ao longo das atividades um senso de cooperação no grupo, mas que se estende pela convivência social. Deve-se recordar que este senso de cooperação e de convivência com o próximo respeitando as diferenças, as potencialidades e as vicissitudes de cada um deve ser trabalhado, incentivado e orientado, pois o espírito traz dentro de si vicissitudes que se manifestam, dificultando o relacionamento com o próximo e consigo mesmo, então, atividades de cooperação, de respeito, de convivência devem ser incentivadas, colocadas em prática, visando o desenvolvimento do grupo nos aspectos moral e intelectual.
“A cooperação e a ajuda mútua surgem já nos reinos inferiores, como base da evolução e desenvolvimento dos princípios da inteligência e do sentimento”. (ALVES, 2000:30)
“Em sua escalada evolutiva o Espírito está desenvolvendo tanto o aspecto intelectual quanto o moral, qual pássaro que para voar necessita de duas asas. Há duas espécies de progresso que se prestam mútuo apoio e que, todavia, não marcham lado a lado; o progresso intelectual e o progresso moral”. (O Livro dos Espíritos – q. 785).
A dança através de um diálogo com a Doutrina Espírita surge como mais um instrumento moralizante para a evolução do espírito, atuando no aspecto intelectual e moral, através do estímulo e do despertar da vontade em direção ao belo que se externa nos movimentos, nas expressões, nos sentimentos físicos e espirituais, que devem ser trabalhados sem esquecer-se da amplidão de conhecimentos possíveis e viáveis na modalidade da dança.
A Dança em sua diversificada aplicação viabiliza conhecimentos sobre a história do homem, da religião e da arte; conhecimento do corpo e do movimento; noções rítmicas e musicais; habilidades expressivas e interpretativas; plástica corporal e habilidades técnicas da dança; conhecimento do perispírito e espírito; influências da mediunidade, sintonia e vibração mental; dentre outros conhecimentos proporcionados pela História do Homem, da Sociedade e da Doutrina Espírita, conhecimentos que interferem no trabalho e nas apresentações artísticas da Dança Espírita.
Conhecimentos que devem ser aplicados com a intenção de desenvolver o espírito. Estimular a vontade, para que através do impulso criador e da energia criadora o espírito se manifeste e que desperte no mesmo o interesse e a busca por atividades, que gerem ações, através da ação, do trabalho e da vivência constroem-se mudanças intrínsecas, que se exteriorizam na vivência moral e intelectual, permitindo desenvolver e ampliar o campo do sentimento e da sabedoria do espírito, o que permite sua escalada evolutiva. O desenvolver das duas asas da escalada evolutiva através do estímulo da vontade.
“O amor e a sabedoria serão conquistados pelo esforço próprio movido pela alavanca da vontade, uma vez que o Espírito detém o livre-arbítrio de seus atos e deverá, por força da Lei Divina avançar pelo trabalho de si mesmo. (…) Mas a mola mestra do processo evolutivo é a vontade, que mobiliza as energias interiores para essa ou aquela direção. (…) Inteligência, sentimento e vontade estão atuantes no indivíduo a todo instante, integrados de forma inseparável na vivência do dia a dia”. (ALVES, 2000:31)
Os conhecimentos espíritas estão presentes na enorme quantidade de obras publicadas desde o advento da Doutrina Espírita, o seu estudo e prática devem estar pautados no Evangelho do Cristo, que foi concedido á mais de dois mil anos a humanidade
“O conhecimento doutrinário levará o Espírito a compreender o mecanismo da evolução, as leis divinas que regem os mundos e os seres, auxiliando-o a atingir a autonomia moral e intelectual, como ser que pensa, sente e age”. (ALVES, 2000:35)
“Para que nossa mente prossiga na direção do Alto, é indispensável se equilibre, valendo-se das conquistas passadas, para orientar os serviços presentes, e amparando-se, ao mesmo tempo, na esperança que flui cristalina e bela, da fonte superior do idealismo elevado; através dessa fonte pode captar do plano divino as energias restauradoras, assim construindo o futuro santificante.” (No Mundo Maior cap. 4 e 5)
Com o estudo do livro No Mundo Maior de Chico Xavier, se deve considerar que os bailarinos espíritas como espíritos eternos em sua maioria, não estão entrando em contato com a arte e com a dança pela primeira vez, trazem experiências do passado que se manifestam no presente e que devem traçar o caminho futuro do ideal superior. Trabalham com sua bagagem interior, construída no passado, a qual, perante os estímulos oferecidos hoje pela dança integrada ou associada à casa espírita, mas com os preceitos espíritas, oferece uma visão ampla das possibilidades e caminhos que o espírito pode escolher e seguir em sua escalada evolutiva.
Traz a tona à compreensão de que o compromisso do espírito em trabalhar com arte, em específico a dança, vai além das manifestações corporais vazias de intenção, que são encontradas em grande número na sociedade. Uma responsabilidade maior perante o conhecimento que possuí e que deve estar presente em suas coreografias e em sal vida.
Sendo então primordial ao bailarino espírita a sua educação moral, pois quando o mesmo se apresenta no palco, ele está diante de si mesmo, de sua evolução moral, evolução que se manifesta através de seu trabalho artístico, que reflete o seu estado íntimo, ou seja, sua evolução espiritual no momento atual. O bailarino espírita deve ser verdadeiro em suas manifestações artísticas, deve primar sempre pela busca de seu aperfeiçoamento espiritual em primeiro lugar e por conseqüência o aprimoramento de seu instrumento de trabalho o corpo encarnado.
Frisando que todo esforço a caminho do Pai, se apresenta perante o Criador, como um trabalho de lapidação íntima, as manifestações artística do Movimento de Dança Espírita que não apresentam um grande aprimoramento técnico, não desmerecem seu valor, pois os artistas que se apresentam no palco vivenciaram e estão vivenciando os caminhos da construção e edificação do espírito. O bailarino esta em constante busca e edificação com seu movimento corporal e espiritual, a coreografia que irá contar a história da dignificação do ser.
“Através da ação no presente, o espírito trabalha com suas conquistas do passado, para construir seu próprio futuro. (…) Os estímulos exteriores vão acordando gradativamente as potências já desenvolvidas no passado, que servirão de base para a construção do futuro. (…) É necessário, pois, acompanhar o desenvolvimento natural e progressivo, do espírito reencarnado, oferecendo-lhe os estímulos necessários para ‘despertar’ gradualmente o potencial temporariamente ‘adormecido’, corrigir impulsos e avançar pelos caminhos do superconsciente, desenvolvendo as potências da alma, rumo à perfeição”. (ALVES, 2000:44)
A dança trabalha com estímulos de aprendizagem técnica artística, como a criatividade, expressividade, ritmo, espaço, sincronia e outros, em que o bailarino deve buscar adquirir valores estéticos e expressivo para serem utilizado como recursos artísticos pelo corpo, recursos que serão utilizados pelo coreógrafo e pelo próprio bailarino nos processos de montagem coreográfica e de apresentação artística em palco. Os valores e habilidades adquiridos são utilizados para transmitir um tema, emoção, sentimento, estado físico, psíquico e outras possibilidades para o público.
Durante este trabalho há uma constante interação, entre o estado íntimo do bailarino, de suas necessidades e ideais conscientes e inconscientes, os seus medos e anseios, desejos de satisfação e sucesso, estes sentimentos, emoções e ‘estados de espírito’ influenciam os processos de montagem, ensaios e apresentação artística em dança, onde a mensagem textual que foi construída e será apresentada leva as impressões do ‘estado de espírito’ de cada artista e do grupo, impressões que são registradas pelo público e que dependendo do espetáculo possuem maior impacto que a própria mensagem ou coreografia.
Considerando que os conteúdos devem atuar e auxiliar no crescimento e desenvolvimento espiritual do público, despertando muitas vezes uma reflexão e por conseqüência, incentivando um processo de aprendizagem e modificação íntima a partir do envolvimento com o tema abordado e com a vibração emanada pelos artistas. Temos, que este tema foi vivenciado, estudado e refletido de forma artística pelo bailarino, que sob as influências dos mecanismos da dança, o artista foi levado e instigado a refletir e questionar sobre sua postura perante o tema e mensagem apresentado em forma de dança.
Trás a tona o constante conflito do espírito em evolução, quando se defronta com questões pertinentes a necessária lapidação íntima e mudança de postura, que ocorre através da ação no presente, mas que é vivenciada pelo artista em palco. O aprimoramento espiritual ocorre através das mudanças de postura em busca pela ação em favor do bem.
“Quando o indivíduo age, dois aspectos se interagem: a inteligência e o sentimento.” (…) “Em todo procedimento o indivíduo utiliza as estruturas mentais que já possui, que reagirá com o procedimento presente formando nova estrutura. Toda nova estrutura é construída pela interação da ação presente (sentimento e inteligência) com as estruturas já existentes, ou seja, já construídas anteriormente.” (ALVES, 2000:46)
A dança, trabalhando com a liberdade expressiva do corpo e dos sentimentos que fluem do bailarino, permite que o mesmo busque atingir e colocar em prática suas metas e objetivos artísticos em consenso com os espirituais. Com o domínio do corpo e de suas capacidades artística, auxilia o espírito a traçar os caminhos que deve prosseguir em sua manifestação artística, ampliando o seu autoconhecimento levando o mesmo, a uma independência em relação aos seus ideais e aos caminhos que deseja prosseguir.
“Todas as faculdades existem em estado rudimentar ou latente. Elas se desenvolvem conforme as circunstâncias lhes são mais ou menos favoráveis”. (O livro dos espíritos, q. 754)
“A vontade é a mola propulsora da ação, do trabalho, do esforço próprio, que leva o Espírito a desenvolver seu potencial interior. É pela vontade que o Espírito dirige seus pensamentos para determinada direção e age.” (…) “Todo o processo educativo, pois, deve ser centrado no estímulo à vontade do educando, para que este queira aprender, queira melhorar-se, empreendendo assim sua ação no bem. O Espírito deve receber os estímulos adequados à sua ação, desafios proporcionais à sua bagagem interior para que ele possa agir, utilizando sua bagagem do passado para a construção do seu futuro.” (ALVES, 2000:96)
Cabe a quem trabalha com artistas espíritas ou não, o constante incentivo, para que busquem o aprimoramento técnico e moral, através de novas metas, projetos, estudos, técnicas, apresentações, dentre outras formas de dança e de arte, que possibilitem o estímulo ao trabalho, que gere o aprimoramento, assim como a constante edificação do espírito.
Onde através de diversas formas de atividades, leve o mesmo ao constante processo, de: estímulo à vontade, que gere ações, atividades e vivências, que despertem no artista suas tendências, que já foram trabalhadas no passado, que, hoje perante os estímulos que são oferecidos, o mesmo possa modificá-las e construir o seu futuro. Desenvolvendo e vivenciando no trabalho a constante interação entre o sentimento e a inteligência, propiciando um trabalho consciente de edificação evolutiva do próprio espírito.
“Existe em todo ser, filho de Deus, uma força superior que nos impulsiona para frente e para cima, para níveis superiores de inteligência e sentimento. É a força de atração que o Criador exerce sobre a criatura.” (ALVES, 2000:98)
“O ideal é a força que direciona esta energia criadora para os caminhos superiores da evolução.” (ALVES, 2000:103)
Dançar é um constante contato do homem com seu interior, através da interação com o próximo e com a Criação Divina, permitindo o homem se aproximar de Deus, num movimento cíclico do espírito em manifestar, através do corpo, os dons divinos herdados do Pai.
Autor – Paulo Cézar da Silva Contribuição – Renata Bueno
Referência Bibliográfica:
“Introdução ao Estudo da Pedagogia Espírita” – Walter Oliveira Alves. Ed. IDE