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Entradas do Abril 2009

Dança Contemporânea e Espiritismo: Caminhos para o Conhecimento.

Abril 29, 2009 · Deixe um comentário

                                                                                         Paula Salles

 

“A dança é um ato litúrgico do cosmo quando parteja. O que nasce, dança. O que vive, dança.

E o que

morre permuta outro campo de movimento … inicia novo círculo de expressão com nova significação!”

 

                 (Espírito Ananda, 2003- Casa de Oração Fé e Amor)

 

Gostaria de compartilhar neste texto conceitos que, acredito, aproximam a linguagem da dança contemporânea e o Espiritismo. Portanto, achei conveniente relatar um pouco da minha trajetória pessoal entre estes dois universos, a fim de que, possamos entender de onde surgiram estes possíveis diálogos e juntos busquemos outras proximidades.

Sou bailarina e espírita. Atuo como coreógrafa, professora e pesquisadora de dança contemporânea. Graduada pela Universidade Estadual de Campinas e especialista em estudos contemporâneos da dança pela Universidade Federal da Bahia, em parceria com a Faculdade Angel Vianna, no Rio de Janeiro. Integro o Grupo das Excaravelhas de dança contemporânea em Campinas. Escolhi trabalhar como arte-educadora ou artista-docente como define [1]Isabel Marques.

Há mais ou menos sete anos tornei-me adepta do Espiritismo, o que causou – me uma significativa transformação no meu modo de perceber e conceber a vida. A Doutrina Espírita revelou-me a riqueza do evangelho de Jesus através do conhecimento amplo que Ele possui sobre o amor e o amar. A Doutrina Espírita me revelou ainda, na sua filosofia, a crença na vida após a morte, a possibilidade de comunicação entre encarnados e desencarnados e a reencarnação.

O maior aprendizado que obtenho na Doutrina Espírita é exatamente que todos nós um dia encontraremos a Deus e que para isso é necessário que superemos as nossas imperfeições representadas no Espiritismo pelo tripé da: vaidade, do orgulho e do egoísmo. Mas, como superar as nossas imperfeições? Conhecendo-nos a nos mesmos. Esta é a grande chave que nos é ofertada pelo Espiritismo.

Durante todos estes anos de atuação com a dança e por tanto com a arte, venho justamente procurando compreender de que maneira a dança me ajuda a construir conhecimento sobre o mundo e sobre mim mesma. Tive oportunidade de me apropriar de algumas técnicas da dança moderna e de algumas linguagens de danças brasileiras, passando pela capoeira, congos, maculelê, samba – de – roda e outras manifestações da cultura popular brasileira.

No entanto, foi na dança contemporânea que encontrei sentido para prosseguir construindo conhecimento. O motivo maior desta escolha está relacionado aos princípios históricos a que ela se atrela.

Na década de 60, período em que a dança contemporânea efervescia nos Estados Unidos, o palco italiano deixava de ser o lugar exclusivo da dança, que passa a invadir os espaços públicos. Coincidentemente foi em uma igreja em Nova York, a Judson Memorial Church, que um grupo de bailarinos realizou uma variedade de experimentações, questionando o que poderia ser nomeado como dança e em quais espaços essa arte poderia ocupar e se expor. (Salles, 2006)

A proposta era encurtar as distâncias entre artista e público, tanto através dos espaços ocupados, como através da movimentação utilizada nas criações, nas quais foram introduzidas gestuais comuns ao cotidiano popular. Outra possibilidade aberta nesta proposta foi o diálogo entre diferentes estilos de dança e práticas corporais, buscando encontrar nas diferenças as congruências de sentidos e significados.

Este pensamento ideológico possibilitou uma diversificação da linguagem da dança, no sentido em que ela pôde acolher diferentes meios de manifestação pelo movimento. Caem por terra verdades absolutas de corpos específicos adequados à dança, de artistas superiores a espectadores, de apenas uma forma de dança adequada a simbolizar, leveza, tristezas, amores, morte, assim como, a idéia de que a dança sempre é uma manifestação de alegria e beleza.1095989730_f

As relações e experiências humanas são consideradas pela dança contemporânea como um recurso de criação essencial, pois estas experiências revelam-se nos relacionamentos como um conhecimento sobre o indivíduo e deste sobre o mundo. Uma vez que ela não possui um código de movimentos pré-estabelecido, como encontramos na dança clássica, por exemplo, a dança contemporânea permite ao seu intérprete-criador, elaborar e construir os seus próprios códigos de movimentos, de acordo com o conhecimento e os sentimentos que possui, tanto no aspecto técnico da dança como no aspecto moral. Dançar é sua forma pessoal de interpretar o mundo. É o seu caminho pessoal com Deus.

Ao criarmos e elaborarmos códigos de movimentos, encontrarmos representações na linguagem da dança para nossos sentimentos ou percepções do mundo, consequentemente reelaboramos idéias e conceitos de nós mesmos ou da sociedade na qual estamos inseridos. Além de revermos conceitos, temos a possibilidade de criarmos através da arte, universos imaginários onde a poesia pode substituir a apatia. Ou seja, abrimos espaços para a transformação da nossa realidade.

O ato de criar é portanto, um ato de construção de conhecimento e de transformação do ser humano. Uma vez que para sonhar com um novo homem e uma nova sociedade é preciso primeiramente tomar a consciência do nosso atual estado evolutivo, sabendo que ele é temporário e passageiro e assim, aspirarmos condições mais elevadas.

É justamente neste aspecto que a dança contemporânea e a Doutrina Espírita se aproximam, na minha opinião, partindo do princípio de que expressamos exatamente aquilo que somos e pensamos, mas não estamos presos a estas formas. Deus nos possibilitou a capacidade de modificá-las através do nosso esforço próprio e do nosso aprendizado.

Entretanto todas estas etapas de construção de conhecimento só terão sentidos quando o maior deles for adquirido. A de que Deus rege todas as coisas do universo e que portanto sendo eu parte do universo também sou regida por Deus.

O caminho desta mudança no entanto, é percorrido num tempo indeterminado e em espaços variados onde o Espírito pode habitar. Assim, tal qual na dança, é o movimento, o tempo, o espaço, que estimula o surgimento da beleza, do novo, em detrimento do velho.

 

 

 

Uma vez que, somos Espíritos eternos e que sabemos que a nossa evolução ocorre na terra, assim como em outros planetas, à medida que, nos transformamos vamos modificando também nossos códigos de movimentos e nossas expressões. Vamos modificando as nossas forma de dançar, de representar a nós mesmo e ao mundo. Eis aqui mais um diálogo possível da linguagem da dança contemporânea com o Espiritismo, pois ela representa o estágio evolutivo do nosso Espírito.

Em suma; chegar a Deus no estágio que nos encontramos é um percurso composto de muitas vicissitudes e dos vícios que trazemos desta e de outras encarnações. O processo de criação da dança contemporânea, sob a luz do Espiritismo, nos permite encontrar a beleza apesar das sombras. Ou seja, ela não mascara as nossas imperfeições e as nossas dificuldades, mas ela aponta caminhos por meio da arte do movimento de transformamos esta realidade, em uma nova realidade com Jesus que nos ensina a amar buscando o verdadeiro sentimento de humanidade:

Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo

(Mateus 22:37-39)

Dançar perpetua o movimento do eterno e do divino em nós.

 

[2]Nascer, Morrer, renascer ainda e Progredir sem cessar, tal é a lei

(Allan Kardec)

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[3]O que vive, dança. E o que morre permuta outro campo de movimento…inicia novo círculo de expressão com nova significação!”

 

Bibliografia  Utilizada:

ALLAN, K. (1857)- O Livro Dos Espíritos de Estudos-tradução Francisco Maugeri-1ª.edição (2007). Cáritas Editora – Campinas.

ALLAN, Kardec. (1864)- – O Evangelho Segundo O Espiritismo de Estudos -tradução – Francisco Maugeri – 1ª. edição (2004). Cáritas Editora – Campinas.

BANES, S.(1987) Terpsichore in Sneakers. Connecticut, Wesleyan- University Press.

HAY, Débora. Artigo (s/ data) : Comprimentos de Ondas ou Fio Telefônicos? In: DALY, Ann (org). Em que se Transformou a Dança Contemporânea?.

SALLES, Paula. (2006) Dançando o Sagrado na Contemporaneidade. Monografia de conclusão do curso de Especialização em Estudos Contemporâneos de Dança pela UFBA e pela Faculdade Angel Vianna.

Referências Bibliográficas:

BOURCIER, Paul. (1987). História da Dança no Ocidente. Editora Martins Fontes. São Paulo.

In, BREMSER, M. (1999) – Fifty Contemporary Choreographers

Selection and editorial matter-

CORTES, Gustavo Pereira – Dança, Brasil: festas e danças populares

MARQUES, Isabel (1999) – Ensino de Dança Hoje: textos e contextos. São Paulo: Editora Cortez.

GOLBERG, K (s/d). –Performance – Live art since the 60’

PORTINARI, Maribel (1989) –História da Dança – Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira

 

 



[1] Profa. Dra. Isabel Marques, fundadora e diretora da Caleidos Cia de Dança. Vide o livro o Ensino da Dança Hoje: textos e contextos. 1999.

 

[2] Frase escrita no túmulo de Allan Kardec

[3]Vide introdução do texto.

Categorias: Textos dança

Técnica e Mensagem na Dança Espírita: a busca do equilíbrio perfeito

Abril 22, 2009 · Deixe um comentário

                                                                                                   Daniela L. Pereira Soares

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

“A arte não pertence a país algum, veio do Céu.”

Miguel Ângelo

Antes de iniciar nossa reflexão, é importante conversar sobre alguns termos que serão usados ao longo do texto, evitando assim, alguns equívocos acerca do entendimento dos mesmos. O próprio termo “dança espírita”, para algumas pessoas não soa bem, preferem usar “dança com temática espírita”, outras ainda, preferem usar apenas “dança”. Diferentes pontos de vista, que se postos em questão, todos teriam sua parcela de razão. Aqui, será usado o termo “dança espírita”, pois em poucas palavras ele se aplica a uma parcela restrita de pessoas que fazem esse tipo de dança, em determinado local e com uma finalidade específica. Aqui nos referimos a grupos de pessoas que entendemos são espíritas, ou seja, acreditam, vivenciam as idéias e crenças espíritas e fazem um diálogo desses conhecimentos com a dança. Já quando se fala “dança com temática espírita”, não se torna claro que esteja se referindo a um grupo espírita, pois como existem grupos teatrais que encenam peças, novelas, filmes que abordam temas espíritas sem serem necessariamente espíritas, nada impede que um grupo de dança como o Grupo Corpo[1] ou o Ballet Stagium[2] dance uma coreografia voltada a temas espíritas sem necessariamente serem espíritas. Isso também leva a pensar, que quando se fala em “dança espírita” não está se referindo apenas à temática do ballet[3] ou coreografia, mas aos objetivos e as finalidades que orientam o grupo de pessoas que o fazem.

Outro ponto a salientar é em relação ao pensamento de que um dia haverá uma “arte espírita”, como um dia houve a arte pagã e a arte cristã e dentro disto podemos inserir a dança. Neste contexto citamos alguns trechos do livro Arte e Espiritismo organizado por Renato Zanola, onde ele faz transcrições da Revista Espírita (1860), no qual baseamos nossa fala anterior:

“A Pintura, a Escultura, a Arquitetura e a Poesia inspiraram-se sucessivamente nas idéias pagãs e nas cristãs. Podeis dizer se, depois da Arte cristã, haverá um dia, uma Arte espírita? O Espírito respondeu: – Fazei uma pergunta respondida por si mesma. O verme é verme; torna-se bicho da seda; depois, borboleta. Que há de mais aéreo, de mais gracioso do que uma borboleta? Então! A Arte pagã é o verme; a Arte cristã é casulo; a Arte espírita será a borboleta”. (Zanola, 1997, p.17)

“ Quando dizemos que a Arte espírita será um dia uma Arte nova, queremos dizer que as idéias e as crenças espíritas darão às produções do gênio um cunho particular, como ocorreu com as idéias e crenças cristãs e não que os assuntos cristãos caiam em descrédito; longe disto; mas , quando um campo está respigado, o ceifador vai colher alhures, e colherá abundantemente no campo do Espiritismo. E já o fez, sem dúvida, mas não de maneira tão especial quanto o fará mais tarde, quando for encorajado e excitado pelo assentimento geral. Quando estas idéias estiverem popularizadas, o que não pode tardar, pois os cegos da geração atual diariamente desaparecem da cena, por força das coisas, a geração nova terá menos preconceitos… Tempo virá em que elas farão surgir obras magistrais, e a Arte espírita terá os seus Rafael e seus Miguel Ângelo, como a Arte pagã teve os seus Apeles e os seus Fídias.” ( Zanola, 1997, p.25)

Acredita-se que esse movimento de renovação nas artes já está começando e não é propriedade exclusiva dos espíritas. Colocando o foco estritamente na dança, nota-se ela despontando em diferentes linhas religiosas, e independente da crença, do pensamento que os diferentes cultos lhe imprimem e se refletem na forma de fazer e pensar a dança, já se pode ver alguns pontos comuns entre elas, um deles chama a atenção – a reforma íntima.

Dança é dança, independente de ser feita numa academia, numa praça ou num centro espírita e, não é propriedade de nenhum grupo étnico, ou religioso, senão da própria humanidade. Apesar dos rótulos que se possa querer utilizar, nenhum deles modifica o que seja dança, independente do estilo, do modo de se fazer ou se teorizar dança, no entanto, às vezes eles se fazem necessários para que se possa delimitar um grupo com a finalidade de analisar suas práticas.

TÉCNICA NA DANÇA ESPÍRITA

“Eu não danço, eu sou a dança.”

Klauss Vianna

Dentro da história da dança a partir do pensamento de BOURCIER (2001), é na Itália, no Quatrocentos, que pela primeira vez se pensou na necessidade da técnica em dança. A dança que era uma expressão corporal realizada relativamente livre até então, passa a tomar consciência das possiblidades de expressão estética do corpo humano e da utilidade das regras para explorá-lo.

Mas o que é técnica afinal? Segundo o dicionário virtual Wikipédia:

“Técnica é o procedimento ou o conjunto de procedimentos que têm como objetivo obter um determinado resultado, seja no campo da Ciência, da Tecnologia, das Artes ou em outra atividade. A palavra se origina do grego techné cuja tradução é arte.”

Trazendo isso para o universo da dança, conforme DANTAS (1999), a técnica é uma maneira de realizar os movimentos, organizando-os segundo as intenções formativas de quem dança. Ela está presente tanto nos processos de criação coreográfica quanto nos processos de aprendizagem, passando a ser um modo de informar o corpo e, ao mesmo tempo, de facilitar o manifestar da dança no corpo, ou seja, tornar o corpo que dança ainda mais dançante. A técnica torna o bailarino apto a manifestar-se em determinado código.

Mas será que a técnica é realmente necessária em um grupo espírita de dança? A técnica não seria dispensável, já que os objetivos dos grupos não repousam na formação de bailarinos profissionais, nem na realização de exibições virtuosas?

Pensando a técnica como um fim em si mesma, como um treino mecânico que nos leva a girar, a saltar somente, seria fácil chegar a conclusão que ela não é tão necessária, no entanto, pensando a dança como uma linguagem e a técnica como uma forma de manifestação dessa linguagem, talvez seria algo a ser pensado.

Da mesma forma que o músico espírita faz uso das notas musicais, dos acordes, de técnicas específicas para compor suas canções, fazendo uso de um instrumento afinado para se expressar, o bailarino também carece de um repertório de movimentos e de um instrumento (corpo) capacitado para externá-los.

“Como o poeta deve, cada vez mais, conhecer e dominar o seu idioma para ter maior capacidade de expressar as suas idéias sem restrições, o dançarino deve dominar a técnica do movimento para aumentar seu vocabulário corporal e o coreógrafo precisa conhecer os princípios do movimento para enriquecer seu material principal de trabalho – o movimento. Porém, sem deixar que esta classificação se torne inibidora da espontaneidade interpretativa e criativa”. ( Robatto,1994, p.110)

Quanto maior o aprimoramento do bailarino, mais natural a dança se torna em seu corpo, permitindo que a mensagem que ele queira transmitir através do movimento, flua livremente e atinja mais vivazmente o espectador. Dessa maneira, a técnica não entra como o ponto principal do fazer dança, mas sim como um meio facilitador à expressividade do movimento.

O conhecimento e aplicação da técnica da dança nos grupos espíritas, além de favorecer uma maior consciência corporal e do movimento, ampliando suas possibilidades de expressão coreográficas, ajuda na prevenção de possíveis lesões que a prática incorreta pode levar a termo. Oferecerá também base segura para que o coordenador do grupo ou o responsável pelo treinamento técnico possa realizar seu trabalho de maneira correta e honesta, respeitando o corpo em formação de crianças e adolescentes sob sua responsabilidade.1131334629_f

Assim como o evangelizador busca apoio no conhecimento científico para entender a educação e, dessa forma ampliar suas ações na seara espírita; nada há de errado em se buscar o conhecimento teórico e prático da dança, desde que, o trabalho no grupo espírita de arte não se encerre na técnica, mas que alicerçado em Kardec e na vasta literatura espírita, descortine o que está além dela, e se desdobre em auto-conhecimento, melhoria interior, caridade e esperança dentro e fora da casa espírita.

A MENSAGEM ESPÍRITA NA DANÇA

“ O espiritismo vem abrir para a arte novas perspectivas, horizontes sem limites.”

Léon Denis

O que caracteriza um grupo como “grupo espírita de dança” não é apenas a mensagem espírita expressa em suas coreografias, pois como se refletiu no início desse artigo, qualquer grupo profissional ou amador pode fazer isso, independente de ser espírita ou não. Todavia, cabe a nós o papel de o fazê-lo, implícita ou explicitamente, pois se nós que somos bailarinos e coreógrafos espíritas não falarmos de temas espíritas em nossas coreografias, quem falará por nós?

Essa frase, bastante conhecida entre os bailarinos espíritas, me tocou profundamente num momento crucial dentro do grupo espírita de dança[4] em que eu atuava. Naquele momento a dúvida me assombrava. Nosso grupo sempre se caracterizou pela criação de ballets onde a temática espírita era bem declarada e comecei a me questionar sobre esse nosso posicionamento. Será que o caminho que estávamos seguindo era correto? Será que precisávamos ser tão diretos?

Comentando essa questão com uma colega das lides espíritas, ela me disse essa frase, que me marcou pra vida toda. Essas palavras passaram a me conduzir com segurança dentro da dança espírita. Esta colega, nem sabe que é autora dessa frase, nem o quanto ela representou pra mim, nem para os grupos que posteriormente dirigi, mas ela me deu um caminho, que ajudou traçar a história de vários grupos espíritas de dança.

Independente do caminho que cada grupo escolha para se guiar, o conteúdo espírita-cristão é compromisso intransferível, seja na vivência diária ou refletido nas coreografias que são criadas.

“ Sim, certamente, o Espiritismo abre à arte um campo novo, imenso e ainda inexplorado, e quando o artista reproduzir o mundo espírita com convicção, haurirá nessa fonte as mais sublimes inspirações, e o seu nome viverá nos séculos futuros, porque às preocupações materiais e efêmeras da vida presente, substituirá o estudo da vida futura e eterna da alma.” ( Kardec in: Obras Póstumas, 1995, p. 157)

“Os artistas da Terra deverão inspirar-se nesses modelos sobre-humanos que os ensinamentos espírita lhes tornarão familiares. A Educação estética humana comporta concepções cada vez mais elevadas a fim de que o sentimento do belo penetre e desenvolva-se em todas as almas. Uma evolução já se produz nesse sentido, e ela se acentuará sob a influência do Além. (Dennis,1994, p.15)

Vale ressaltar a responsabilidade perante tarefa tão importante e delicada, a de transmitir o conteúdo sem mácula. A fidelidade quanto a conteúdo doutrinário deverá ser alicerçada no estudo e na vivência do Evangelho do Cristo. Como asseverou-nos o Espírito de Verdade, no capítulo VI do Evangelho Segundo o Espiritismo: “Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo.”

Não há como transformar em dança um conteúdo que se desconhece. O estudo da doutrina espírita é parte essencial da criação coreográfica, na dança espírita, sem o qual ela corre o risco de tornar-se vazia e perde seu papel transformador.

“ O Espírito não pode se identificar senão com aquilo que sabe, ou que crê ser uma verdade, essa verdade, mesmo moral, torna-se para ele uma realidade que exprime tanto melhor quanto a sente melhor; e então, se à inteligência ele junta a a flexibilidade do talento, faz passar as suas próprias impressões nas almas dos outros; quais impressões, contudo, pode provocar aquele que não as tem? (Kardec in: Obras Póstumas, 1995, p.153)

Voltando o olhar para o processo de criação coreográfica no qual a mensagem torna-se peça central, vemo-la muitas vezes perdida em meio a movimentos mecânicos e desprovidos de significado, muitas vezes, sem que aqueles que o fazem tenham consciência disso. Isso acontece no âmbito da dança em geral, pela própria formação técnica que o bailarino é submetido, numa perspectiva dualista que insiste em separar corpo e mente, cujas raízes filosóficas remontam a Idade Média.[5]

ROBATTO (1994) afirma que tradicionalmente o bailarino só é trabalhado no seu aspecto técnico-corporal, ficando geralmente relegada a um segundo plano sua formação técnica no que se refere a expressividade do movimento e à interpretação coreográfica. Isso acontece porque os exercícios técnicos de condicionamento físico, por vezes, são tão massacrantes que não levam em consideração a expressividade. Porém, não se pode trabalhar o próprio corpo, depositário de toda uma vivência espiritual, mental, afetiva, sensorial, etc.,considerando-se apenas os objetivos técnicos quantitativos, dirigidos para se tentar alcançar novos records de capacidade física. É preciso saber lidar com a indispensável disciplina técnica, sem bloquear a sensibilidade e a imaginação do bailarino.

Vale lembrar que o papel do coreógrafo é fundamental no sentido de transmitir aos bailarinos a intenção do movimento, ou buscar junto com os mesmos através de uma vivência mais significativa, movimentos que expressem melhor o pensamento coreográfico; pensamento este, embasado no estudo e nas reflexões de todo o grupo envolvido na montagem.

Toda obra artística é passível de diferentes interpretações, no entanto, é importante tornar clara a mensagem que se queira transmitir. Neste aspecto, a auto-crítica e o olhar de outras pessoas antes da finalização da obra é fundamental para que ela seja repensada e que para que a melhoria seja buscada. Nada tão desanimador, quanto ouvir ao final de uma apresentação: O que você quis dizer com aquela coreografia?

A mensagem espírita na dança é compromisso sério que exige, estudo, comprometimento e criatividade do artista espírita. Que ela esteja presente em nossas coregrafias com a seriedade e o respeito que ela merece, mas que antes disso, ela brilhe em nossos atos e atitudes, através das coreografias que criamos em nossa vivência diária e que oferecemos ao Pai cotidianamente.

REFORMA INTIMA: O ELEMENTO INDISPENSÁVEL

A mensagem espírita é um dos aspectos que caracteriza um grupo espírita de dança, principalmente aquela que é que vivenciada e transmitida pelo exemplo. Nas coreografias, a técnica conferirá material adequado para que ela se construa, o estudo das obras básicas será o alicerce, mas somente a sintonia com as esferas superiores, através do esforço por melhorar-se é que produzirá a vibração que arrebatará quem assiste.

“O sentimento é foco gerador de energia emuladora, que, qual dínamo gerador de vibrações superiores, atingirá o coração, o sentimento, estimulando as qualidades superiores dos que estão em seu raio de influência, levando-os a seguir o exemplo, a imitar, não mecanicamente, mas atraído pela força emuladora que emana do próprio coração.” ( Alves, 1997, p. 155)

Daí o compromisso maior do fazer dança espírita, acender a luz que nos é própria para que a Luz do Cristo resplandeça em nossas obras.

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Estai em mim, e eu em vós: como a vara de mim mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim.

Eu sou a videira, vós as varas: quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.

Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor.” (Bíblia, João, 15:4,5,10)

Segundo ALVES (2000), a arte não é apenas uma forma de expressão, mas acima de tudo, uma forma de crescimento interior, de desenvolvimento das potências da alma. Quando direcionada aos canais superiores da vida, auxilia o Espírito a vibrar em sintonia mais elevada, afinando seus sentimentos estéticos com vibrações sutis, com o amor que se amplia e se expande ao infinito.

A reforma íntima se reveste de caráter fundamental num grupo espírita de dança, pois que forças, que luzes, que consolações, que esperanças podemos passar às outras almas se não temos em nós próprios senão obscuridade, dúvida, incerteza e fraqueza ? Será também nosso elemento de ligação com a espiritualidade maior, atraindo a companhia dos bons espíritos, fazendo-nos crescer e dando às nossas criações um caráter que ultrapassa o visível, o palpável, o sensorial, mas antes de tudo, um misterioso encanto, que atrai e convida a transformação de dentro pra fora.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A arte se reveste de nuances sensíveis e profundas, que em sua maioria ainda não conseguimos apreender, a medida que vamos evoluindo, crescendo espiritualmente, vamos tomando contato gradualmente com a fonte da qual ela emana.

A arte é tarefa importante na casa espírita e se reveste da mesma importância que as demais atividades. O estudo, o trabalho sério e desejo sincero por querer melhorar-se são a base segura para que o trabalho se desenvolva com êxito.

Concluindo as reflexões acerca da técnica e da mensagem na dança espírita, penso que a mensagem espírita é o tesouro que se oferece quando se dança, mas a sua força maior não está no roteiro coreográfico que se prega, nem no virtuosismo técnico adquirido, mas repousa sem dúvida na transformação moral que já se alcançou.

Que as criações coreográficas que são feitas nos grupos espíritas de dança se sedimentem não apenas na boa vontade de fazer e servir, mas que busquem apoio no estudo da doutrina, nas técnicas da dança e na vivência do amor e da caridade. Com toda a certeza a mensagem ficará comprometida se houver carência técnica, o mesmo podemos asseverar da falta de conhecimento doutrinário, mas a ausência do ideal superior comprometerá ainda mais, pois será como uma música que toca por um instante e depois desaparece, sem produzir eco algum nos recônditos da alma.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, Walter Oliveira. Educação do Espírito: Introdução à Pedagogia Espírita. 1ª ed. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita,1997.

ALVES, Walter Oliveira. Introdução ao Estudo da Pedagogia Espírita: Teoria e Prática. 1ª edição. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 2000.

BOUCIER, Paul. História da Dança no Ocidente. 3ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

DANTAS, M. Dança: o enigma do movimento. Porto Alegre: Editora UniverCidade/UFRGS, 1999.

DENNIS, Leon. O Espiritismo na arte. 2ª ed. Rio de Janeiro: Publicações Lachâtre, 1994.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 3ª ed. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1995.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 182ª ed. Araras/São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1978.

KATZ, H. Entre a Heresia e a Superstição. In: São Paulo. SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA, CENTRO CULTURAL SÃO PAUL. Navegar é Preciso: Portugal – Brasil: problemas estruturais e similaridades conceituais na dança de Brasil e Portugal. São Paulo, 1998 p. 7-16

ROBATTO, L. Dança em Processo: a linguagem do indizível. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1994.

ROCHA, Ruth. Minidicionário. São Paulo: Scipione, 1995.

VIANNA, Klauss. A Dança.2ª ed. São Paulo: Siciliano, 1990.

ZANOLA, Renato. Arte e Espiritismo: Textos de Allan Kardec, André Luiz e Outros Autores. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edições CELD, 1997

Ballet Stagium – artigo disponível em:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ballet_Stagium

Grupo Corpo – artigo disponível em :

http://www.grupocorpo.com.br/pt/historico.php

Técnica – artigo disponível em :

http://pt.wikipedia.org/wiki/T%C3%A9cnica

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[1] Referência à companhia mineira de dança contemporânea de renome internacional, criada em 1975 em Belo Horizonte pelos irmãos Pederneiras.

[2] Referência a Companhia de balé brasileira, criada em 1970, em pleno regime militar, sediada em São Paulo. O Ballet Stagium é coordenado por Marika Gidali e Décio Otero e já conta em sua história com mais de 80 coreografias no decorrer desses mais de 30 anos.

[3] Conjunto de coreografias que versam sobre um tema ou contam uma história usando a dança como linguagem.

[4] Referência ao Grupo Espírita de Dança Evolução, criado em 1995 em Araras/São Paulo e atuante até hoje.

[5] Ao final da Idade Média, de acordo com KATZ ( 1998), fazia-se necessário acreditar no dualismo corpo-mente, pois só assim seria permitido estudar o corpo anatomicamente, sem ir de encontro às normas religiosas da época. O corpo passa, então, a ser visto como um objeto de observação e de estudo, separado da alma – pura e intacta aos pecados deste corpo. A possibilidade do homem tornar-se um observador do mundo, separado dele, motor do nascimento da perspectiva linear, gesta a ciência clássica.

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Dança é Arte ?

Abril 14, 2009 · Deixe um comentário

Mariângela Damiani/RJ

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Desde a origem das sociedades uma das formas do homem se afirmar como membro de uma comunidade que o transcende é através da dança. A história nos mostra que o homem dançou em diversos momentos da sua existência, em diferentes comemorações. No nascimento e na morte, na guerra e na paz, na semeadura e na colheita… Esteticamente a dança pode ser dita como a arte mais antiga, expressando as emoções sem usar a palavra. Bastava à própria dança para revelar tudo que queria. “A dança torna visível o invisível”. (Paul Klee) Na bíblia, mais precisamente no antigo testamento, encontramos inúmeras citações sobre dança como expressão de louvor ao Senhor. Em Samuel podemos observar David dançando e cantando alegremente na chegada da Arca a Jerusalém. A dança sempre mostra um Deus presente, tornando o homem mais forte, mais feliz. Observamos então que nas diversas formas de comemoração e adoração a dança se faz presente, porém a dança sofreu e ainda sofre preconceitos estabelecidos em outra época. Qual será o motivo? Vamos voltar um pouco no tempo e acompanhar os fatos… O filósofo Platão (428 – 346 a.C.) na sua crença, na sua idéia dualista, criou dois mundos. O Topus Uranus ou o mundo das idéias perfeitas, o céu, o mundo espiritual, habitado apenas pelo SER. Criou também o Mundo dos Fenômenos ou das cópias imperfeitas, a Terra, a cópia do Tópus Uranus, habitado pelo NÃO-SER. Dentro deste pensamento filosófico, Platão diz que a música é a única arte que não copia, é a mais soberana de todas as artes. A música como é algo imaterial, está mais próxima a alma, ao SER, a perfeição. O corpo dá-se equívocos, erros, problemas estando próximo ao NÃO-SER. A dança, portanto sendo um fazer corporal está classificada a não-verdade, ao equívoco, ao NÃO-SER. No livro A Dança, MENDES (1985, p.14) nos explica um pouco as idéias de Platão, quando comenta: “Platão (428-347 a. C.), em suas Leis, distinguia a dança popular da que denominava “dança nobre”, e apenas a esta concedia sua aprovação. Considerava não adequada aos cidadãos as danças de natureza báquica e de caráter lascivo. Não reputava como arte as danças de caráter guerreiro, venatório, propiciatório de chuvas, fertilidade etc., pois achava que a arte precisava conter um elemento de imitação que não se limitasse a copiar um fato, mas sim induzir o espectador a uma experiência; era preciso reproduzir, representar uma emoção”. Já Aristóteles, discípulo de Platão, mesmo conservando as idéias do mestre e o mundo dos fenômenos, traz as idéias perfeitas para dentro de nós. Considerava os diferentes meios de criação artística produzida pelo homem além de que, se o artista tiver como inspiração o “Belo”, ele traz essa idéia para suas obras. Na arte aristotélica o corpo era tão idealizado, que não existia em lugar nenhum. Observando os primeiros séculos do Cristianismo, a dança figurando na sua liturgia como forma “nobre” teve grande importância para os cristãos nas celebrações e ainda podemos ver os resquícios dançantes nas missas romanas. Já as danças populares foram combatidas pelo conteúdo pagão desde o século II. “O Cristianismo é um Platonismo para o povo”. (Nietzsche) No Cristianismo então tínhamos a “Escolástica Medieval” que era uma linha filosófica que atendia as necessidades da fé, fazendo que o corpo passasse por privações, dores, anulando todo e qualquer prazer do corpo. A Escolástica Medieval então se apóia de pensamentos platônicos: “Todo fazer corporal é sempre o lugar da não-verdade, do falso, do equívoco”. Sendo assim, o Cristianismo que no início tinha dança em seus rituais agora a bania para não alterar o estado de consciência, afinal a dança é prazer do corpo e a dor corporal é o passaporte para a sublimação. Muitos séculos se passaram, vieram diversos movimentos artísticos, o Renascimento, o Romantismo, o Expressionismo dentre outros e a dança sempre esteve oscilando, ora com poder, ora não. Cresce e recai… Trazemos marcas dentro de nós que não se apagam em algumas reencarnações. Embora muitos séculos tenham se passado, muitos movimentos de arte tenham surgido, ainda temos as chagas abertas de uma época onde a dança era sinônimo de pecado, de prostituição sofisticada, de divertimento da burguesia, onde dançarinos viviam miseravelmente fugindo da Igreja que os condenava, que não via a dança como arte e na verdade até hoje não sabemos se é considerada… Pesquisando sobre este assunto, os argumentos são fortes atacando ou defendendo a dança como arte e o mais interessante é que encontramos muitos universitários de dança leigos no assunto, que nem sabem direito o que é dança ou o que arte. Não os condeno, o assunto é polêmico mesmo e infelizmente não existe preparo adequado na área… basta ver quando buscamos na internet o título dança associado com arte, as imagens e vídeos que aparecem… será que isso é arte? Será que também estamos agindo de forma preconceituosa? Como Dançarinos, bailarinos e educadores da dança, vivemos muito nesta busca, pelo reconhecimento de nossa “arte”, mesmo que não seja reconhecida por todos, mesmo que muitas vezes tenhamos dúvidas… sentimos esse prazer que a dança nos proporciona e sabemos o que ela significa para cada um de nós, afinal lutamos para chegar até aqui, lutamos por um mesmo ideal e tendo a certeza que fiz a escolha certa, prefiro ficar com Nietzsche in Garaudy (1980, p.52) quando diz: “… a dança é a única arte em que o próprio artista se torna obra de arte e seu papel mais importante: desenvolver uma atividade que não é outra senão a própria vida, porém mais intensa, mais despojada, mais significativa”.

1128528154_fA dança produz à poética, isto é o que diferencia de um simples movimento do corpo, isto é o prazer estético e todo homem tem necessidade de experiência estética, mas são diferentes, são particulares. Podemos aprender a gostar, aprender a ter a relação com a experiência estética, mas não hierarquizar, pois ela pode se tornar um elemento de captura de poder. O problema da estética é achar que tem que ter um modo próprio de sentir. Estética é a natureza do prazer, está ligada a cultura e a cultura está ligada a arte. Para finalizar gostaria que cada um refletisse o que é arte e de que forma considera a arte como dança. Será que toda dança é arte? Como entender e como explicar isso aos nossos alunos. Fechamos então com as palavras de Garaudy (1980,p.92): “A arte não existe para ser “compreendida”, isto é, reduzida a conceitos e palavras, mas para ser vivida”. E ainda in Garaudy (1980, p. 75) encontramos as belíssimas palavras de Ruth Saint-Denis quando se voltou para o Oriente: “A maior função da dança, é a de ajudar o homem a formar um conceito mais nobre de si próprio”. Que Jesus possa nos iluminar diante deste trabalho, pra que possamos desenvolver uma maior conscientização daqueles que se propuserem dele fazer parte, educando e reeducando seus hábitos corporais de forma prazerosa, através da linguagem da Dança, buscando novos caminhos de expressão, prevalecendo a liberdade do autoconhecimento, rompendo o dualismo corpo/mente e se fortalecendo como ser humano mais feliz e consciente. Mariangela Damiani Gonçales Professora de Artes Visuais e Dança Referência Bibliográfica: GARAUDY, Roger. Dançar a vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. MENDES, Mirian Garcia. A Dança. São Paulo: Ática, 1985.

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Dança na educação do espírito

Abril 2, 2009 · Deixe um comentário

                                                                                     Paulo Cézar Silva

“Em síntese, a educação tem como objetivo auxiliar a evolução do espírito.” (ALVES, 2000:28)

Assim como todas as artes, a dança vem se expandindo no meio espírita, como mais um instrumentos de educação do espírito, através do autoconhecimento, da interação com o próximo, da aproximação com o Criador e da prática do Evangelho do Cristo através das apresentações artísticas. Devemos entender educação no sentido de aprimoramento moral, podendo ser substituída por evangelização sem se descaracterizar.

Mas para que a dança seja um instrumento de evolução do espírito, é necessário conhecer como se dá a educação e a evolução do espírito:

“Compreender o mecanismo da evolução auxiliará a compreender o próprio mecanismo da aprendizagem e do desenvolvimento em seu amplo sentido. O princípio espiritual, desde o momento da criação caminha sem detenção para frente. Embora contando sempre com o apoio das inteligências superiores que oferecem os estímulos necessários à marcha evolutiva e também com a assistência amorável dos benfeitores espirituais, cada Espírito evolui através do esforço próprio, com o trabalho de si mesmo”. (ALVES, 2000:28)

Considerando que a evolução ocorre através da ação e da vivência física e espiritual, o espírito deve buscar se desenvolver moralmente utilizando quando encarnado de seu instrumento físico e perispiritual para progredir e edificar as virtudes a caminho da perfeição, lapidando as vicissitudes que se encontram arraigadas em seu íntimo. O trabalho com a dança possibilita auxiliar este desenvolvimento do espírito ou bailarino encarnado. Através das atividades de dança, trabalhadas nas aulas, nos ensaios e nas apresentações, se propicia ao espírito encarnado um processo constante de interação, entre corpo e espírito auxiliando em seu autoconhecimento refletindo e suas relações com o meio, propiciando um contato maior com seu íntimo, com o próximo e com o Criador. Considerando segundo Walter de Oliveira Alves, que:1152070606_t

“O mecanismo da evolução ocorre através da ação, da atividade e da vivência, somos espíritos em evolução e evoluímos pela atividade, pela ação, pela vivência”. (ALVES, 2000:29)

Esta ação ocorre em todo o processo evolutivo dos espíritos desde o germe. Ação presente em todas as etapas do trabalho com a dança, que não deve ocorrer somente no desenvolvimento artístico das diferentes modalidades e técnicas em dança e em arte, pois, este aprendizado torna-se rico, com maior valor e maior contribuição no aperfeiçoam do espírito, quando todas as etapas de aprendizagem da dança ocorrem concomitantemente com a busca consciente pelo aprimoramento do espírito. Uma ação de modificação interior, ou seja, reforma íntima.

A ação, atividade e vivência é um processo constante na dança, não apenas da prática do movimento que deve visar a expressão, a comunicação e o estético, o bailarino ou espírito encarnado deve buscar expressar-se, comunicar-se através de uma estética e de uma beleza moral elevada em todas as suas posturas diárias, num constante movimento de aprendizagem e evolução, tanto da própria técnica de dançar, quanto da espiritualização do ser.

 Sendo que:

“O espírito evolui, pois, pelo esforço próprio, interagindo com meio, através de experiências múltiplas. Não se trata, contudo, de experiências meramente acumulativas, mas de transformação interior, criando estruturas novas em níveis cada vez mais elevados, na medida em que o espírito interage com o meio, física e espiritualmente falando.” (…) Existem em todos os seres, um impulso criador, que os leva a agir. Filhos de Deus-Criador trazemos essa herança divina, que nos impulsiona para frente e para cima, criando e recriando, construindo a nós mesmos, num esforço evolutivo constante. Esse impulso criador esta presente em todos os seres que, impulsionados pelas necessidades naturais, são levados a agir, criando e recriando as bases de sua própria evolução”. (ALVES, 2000:29)

A dança unida ao trabalho de evangelização ou educação do espírito tem um campo inesgotável para se explorar o impulso criador, seja através das aulas de modalidades específicas, nas atividades de criatividade e nos laboratórios de improvisação, além do estudo e da reflexão que são aspectos pouco trabalhados, pois, o ato de dançar envolve o trabalhar integrado do corpo, mente e espírito, que deve ser realizado através de um processo integrado e equilibrado.

Trabalho que visa não somente a busca pelo homem, pela arte e pela vida em sociedade, mas pelo desenvolvimento da perfectibilidade do espírito, atingir sua ascensão espiritual, onde somos herdeiros de um potencial infinito, que nos impulsiona para o Pai.

 O trabalho com a dança permite uma permutação, uma troca de energias espirituais, além dos aspectos físicos, que ocorre através da convivência com outros bailarinos, entre aluno e professor, com o público que aprecia os espetáculos, com os espíritos desencarnados presentes em todo espaço criado por Deus, o espírito não evolui sozinho.

A dança permite a interação entre espíritos, através da convivência com o próximo, o espírito age e é impulsionado a desenvolver ao longo das atividades um senso de cooperação no grupo, mas que se estende pela convivência social. Deve-se recordar que este senso de cooperação e de convivência com o próximo respeitando as diferenças, as potencialidades e as vicissitudes de cada um deve ser trabalhado, incentivado e orientado, pois o espírito traz dentro de si vicissitudes que se manifestam, dificultando o relacionamento com o próximo e consigo mesmo, então, atividades de cooperação, de respeito, de convivência devem ser incentivadas, colocadas em prática, visando o desenvolvimento do grupo nos aspectos moral e intelectual.

“A cooperação e a ajuda mútua surgem já nos reinos inferiores, como base da evolução e desenvolvimento dos princípios da inteligência e do sentimento”. (ALVES, 2000:30)

“Em sua escalada evolutiva o Espírito está desenvolvendo tanto o aspecto intelectual quanto o moral, qual pássaro que para voar necessita de duas asas. Há duas espécies de progresso que se prestam mútuo apoio e que, todavia, não marcham lado a lado; o progresso intelectual e o progresso moral”. (O Livro dos Espíritos – q. 785).

 

            A dança através de um diálogo com a Doutrina Espírita surge como mais um instrumento moralizante para a evolução do espírito, atuando no aspecto intelectual e moral, através do estímulo e do despertar da vontade em direção ao belo que se externa nos movimentos, nas expressões, nos sentimentos físicos e espirituais, que devem ser trabalhados sem esquecer-se da amplidão de conhecimentos possíveis e viáveis na modalidade da dança.

A Dança em sua diversificada aplicação viabiliza conhecimentos sobre a história do homem, da religião e da arte; conhecimento do corpo e do movimento; noções rítmicas e musicais; habilidades expressivas e interpretativas; plástica corporal e habilidades técnicas da dança; conhecimento do perispírito e espírito; influências da mediunidade, sintonia e vibração mental; dentre outros conhecimentos proporcionados pela História do Homem, da Sociedade e da Doutrina Espírita, conhecimentos que interferem no trabalho e nas apresentações artísticas da Dança Espírita.

Conhecimentos que devem ser aplicados com a intenção de desenvolver o espírito. Estimular a vontade, para que através do impulso criador e da energia criadora o espírito se manifeste e que desperte no mesmo o interesse e a busca por atividades, que gerem ações, através da ação, do trabalho e da vivência constroem-se mudanças intrínsecas, que se exteriorizam na vivência moral e intelectual, permitindo desenvolver e ampliar o campo do sentimento e da sabedoria do espírito, o que permite sua escalada evolutiva. O desenvolver das duas asas da escalada evolutiva através do estímulo da vontade.

“O amor e a sabedoria serão conquistados pelo esforço próprio movido pela alavanca da vontade, uma vez que o Espírito detém o livre-arbítrio de seus atos e deverá, por força da Lei Divina avançar pelo trabalho de si mesmo. (…) Mas a mola mestra do processo evolutivo é a vontade, que mobiliza as energias interiores para essa ou aquela direção. (…) Inteligência, sentimento e vontade estão atuantes no indivíduo a todo instante, integrados de forma inseparável na vivência do dia a dia”. (ALVES, 2000:31)

 

Os conhecimentos espíritas estão presentes na enorme quantidade de obras publicadas desde o advento da Doutrina Espírita, o seu estudo e prática devem estar pautados no Evangelho do Cristo, que foi concedido á mais de dois mil anos a humanidade

“O conhecimento doutrinário levará o Espírito a compreender o mecanismo da evolução, as leis divinas que regem os mundos e os seres, auxiliando-o a atingir a autonomia moral e intelectual, como ser que pensa, sente e age”. (ALVES, 2000:35)

           

 “Para que nossa mente prossiga na direção do Alto, é indispensável se equilibre, valendo-se das conquistas passadas, para orientar os serviços presentes, e amparando-se, ao mesmo tempo, na esperança que flui cristalina e bela, da fonte superior do idealismo elevado; através dessa fonte pode captar do plano divino as energias restauradoras, assim construindo o futuro santificante.” (No Mundo Maior cap. 4 e 5)

 

            Com o estudo do livro No Mundo Maior de Chico Xavier, se deve considerar que os bailarinos espíritas como espíritos eternos em sua maioria, não estão entrando em contato com a arte e com a dança pela primeira vez, trazem experiências do passado que se manifestam no presente e que devem traçar o caminho futuro do ideal superior. Trabalham com sua bagagem interior, construída no passado, a qual, perante os estímulos oferecidos hoje pela dança integrada ou associada à casa espírita, mas com os preceitos espíritas, oferece uma visão ampla das possibilidades e caminhos que o espírito pode escolher e seguir em sua escalada evolutiva.

Traz a tona à compreensão de que o compromisso do espírito em trabalhar com arte, em específico a dança, vai além das manifestações corporais vazias de intenção, que são encontradas em grande número na sociedade. Uma responsabilidade maior perante o conhecimento que possuí e que deve estar presente em suas coreografias e em sal vida.

            Sendo então primordial ao bailarino espírita a sua educação moral, pois quando o mesmo se apresenta no palco, ele está diante de si mesmo, de sua evolução moral, evolução que se manifesta através de seu trabalho artístico, que reflete o seu estado íntimo, ou seja, sua evolução espiritual no momento atual. O bailarino espírita deve ser verdadeiro em suas manifestações artísticas, deve primar sempre pela busca de seu aperfeiçoamento espiritual em primeiro lugar e por conseqüência o aprimoramento de seu instrumento de trabalho o corpo encarnado.

Frisando que todo esforço a caminho do Pai, se apresenta perante o Criador, como um trabalho de lapidação íntima, as manifestações artística do Movimento de Dança Espírita que não apresentam um grande aprimoramento técnico, não desmerecem seu valor, pois os artistas que se apresentam no palco vivenciaram e estão vivenciando os caminhos da construção e edificação do espírito. O bailarino esta em constante busca e edificação com seu movimento corporal e espiritual, a coreografia que irá contar a história da dignificação do ser.

“Através da ação no presente, o espírito trabalha com suas conquistas do passado, para construir seu próprio futuro. (…) Os estímulos exteriores vão acordando gradativamente as potências já desenvolvidas no passado, que servirão de base para a construção do futuro. (…) É necessário, pois, acompanhar o desenvolvimento natural e progressivo, do espírito reencarnado, oferecendo-lhe os estímulos necessários para ‘despertar’ gradualmente o potencial temporariamente ‘adormecido’, corrigir impulsos e avançar pelos caminhos do superconsciente, desenvolvendo as potências da alma, rumo à perfeição”.  (ALVES, 2000:44)1101334736_f

           

            A dança trabalha com estímulos de aprendizagem técnica artística, como a criatividade, expressividade, ritmo, espaço, sincronia e outros, em que o bailarino deve buscar adquirir valores estéticos e expressivo para serem utilizado como recursos artísticos pelo corpo, recursos que serão utilizados pelo coreógrafo e pelo próprio bailarino nos processos de montagem coreográfica e de apresentação artística em palco. Os valores e habilidades adquiridos são utilizados para transmitir um tema, emoção, sentimento, estado físico, psíquico e outras possibilidades para o público.

Durante este trabalho há uma constante interação, entre o estado íntimo do bailarino, de suas necessidades e ideais conscientes e inconscientes, os seus medos e anseios, desejos de satisfação e sucesso, estes sentimentos, emoções e ‘estados de espírito’ influenciam os processos de montagem, ensaios e apresentação artística em dança, onde a mensagem textual que foi construída e será apresentada leva as impressões do ‘estado de espírito’ de cada artista e do grupo, impressões que são registradas pelo público e que dependendo do espetáculo possuem maior impacto que a própria mensagem ou coreografia.

Considerando que os conteúdos devem atuar e auxiliar no crescimento e desenvolvimento espiritual do público, despertando muitas vezes uma reflexão e por conseqüência, incentivando um processo de aprendizagem e modificação íntima a partir do envolvimento com o tema abordado e com a vibração emanada pelos artistas. Temos, que  este tema foi vivenciado, estudado e refletido de forma artística pelo bailarino, que sob as influências dos mecanismos da dança, o artista foi levado e instigado a refletir e questionar sobre sua postura perante o tema e mensagem apresentado em forma de dança.

Trás a tona o constante conflito do espírito em evolução, quando se defronta com questões pertinentes a necessária lapidação íntima e mudança de postura, que ocorre através da ação no presente, mas que é vivenciada pelo artista em palco. O aprimoramento espiritual ocorre através das mudanças de postura em busca pela ação em favor do bem.

 

“Quando o indivíduo age, dois aspectos se interagem: a inteligência e o sentimento.” (…) “Em todo procedimento o indivíduo utiliza as estruturas mentais que já possui, que reagirá com o procedimento presente formando nova estrutura. Toda nova estrutura é construída pela interação da ação presente (sentimento e inteligência) com as estruturas já existentes, ou seja, já construídas anteriormente.”  (ALVES, 2000:46)

 

A dança, trabalhando com a liberdade expressiva do corpo e dos sentimentos que fluem do bailarino, permite que o mesmo busque atingir e colocar em prática suas metas e objetivos artísticos em consenso com os espirituais. Com o domínio do corpo e de suas capacidades artística, auxilia o espírito a traçar os caminhos que deve prosseguir em sua manifestação artística, ampliando o seu autoconhecimento levando o mesmo, a uma independência em relação aos seus ideais e aos caminhos que deseja prosseguir.

Todas as faculdades existem em estado rudimentar ou latente. Elas se desenvolvem conforme as circunstâncias lhes são mais ou menos favoráveis”. (O livro dos espíritos, q. 754)

 

“A vontade é a mola propulsora da ação, do trabalho, do esforço próprio, que leva o Espírito a desenvolver seu potencial interior. É pela vontade que o Espírito dirige seus pensamentos para determinada direção e age.” (…) “Todo o processo educativo, pois, deve ser centrado no estímulo à vontade do educando, para que este queira aprender, queira melhorar-se, empreendendo assim sua ação no bem. O Espírito deve receber os estímulos adequados à sua ação, desafios proporcionais à sua bagagem interior para que ele possa agir, utilizando sua bagagem do passado para a construção do seu futuro.” (ALVES, 2000:96)

 

            Cabe a quem trabalha com artistas espíritas ou não, o constante incentivo, para que busquem o aprimoramento técnico e moral, através de novas metas, projetos, estudos, técnicas, apresentações, dentre outras formas de dança e de arte, que possibilitem o estímulo ao trabalho, que gere o aprimoramento, assim como a constante edificação do espírito.

            Onde através de diversas formas de atividades, leve o mesmo ao constante processo, de: estímulo à vontade, que gere ações, atividades e vivências, que despertem no artista suas tendências, que já foram trabalhadas no passado, que, hoje perante os estímulos que são oferecidos, o mesmo possa modificá-las e construir o seu futuro. Desenvolvendo e vivenciando no trabalho a constante interação entre o sentimento e a inteligência, propiciando um trabalho consciente de edificação evolutiva do próprio espírito.

“Existe em todo ser, filho de Deus, uma força superior que nos impulsiona para frente e para cima, para níveis superiores de inteligência e sentimento. É a força de atração que o Criador exerce sobre a criatura.” (ALVES, 2000:98)

“O ideal é a força que direciona esta energia criadora para os caminhos superiores da evolução.” (ALVES, 2000:103)

Dançar é um constante contato do homem com seu interior, através da interação com o próximo e com a Criação Divina, permitindo o homem se aproximar de Deus, num movimento cíclico do espírito em manifestar, através do corpo, os dons divinos herdados do Pai.

 

Autor – Paulo Cézar da Silva               Contribuição – Renata Bueno

Referência Bibliográfica:

             “Introdução ao Estudo da Pedagogia Espírita” – Walter Oliveira Alves.  Ed. IDE

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