O homem não tem só linguagem, ele é linguagem, assim como todas as criaturas e coisas que nos parecem inanimadas – pedras, cadeias de montanhas, mas também plantas e animais, e mesmo as estrelas.
Mal nos manifestamos na dança, nós bailarinos, falamos numa linguagem, que, sem dúvida é muda, mas é certamente uma linguagem sensivelmente mais antiga do que aquela que usa a língua. A linguagem de movimento do corpo, assim como toda arte, surge do silêncio. Como podemos interpretar este silêncio, a criativa causa original daquela linguagem, da qual se diz que somente a fé a compreende?
Usualmente, a oração é designada como a via de comunicação da alma humana com Deus. Injustamente, pois na oração, tanto a alma quanto o corpo participam. Uma oração puramente espiritual é adequadamente aos anjos, mas não às pessoas, com sua natureza espírito-corporal. As formas corporais correspondentes às rezas interiores que pertencem à oração humana.
A dança, por isso, não é apenas a transparência do divino, assim como uma janela aberta, uma vista para o divino. A dança também não é uma viva imagem reminescente – a dança é, em tempo e espaço, um signo, um acontecimento visível, uma forma cinética para o invisível.
Na dança transmite-se, por signos, uma tradição de interioridade objetiva, que aponta para seu conteúdo. Podemos questionar estes signos. Contudo, temos que começar pelo homem em sua totalidade.
O homem vivencia na dança a transfiguração de sua existência, uma metamorfose transcendente de seu interior, relativa ao ser e também à elevação ao seu eu divino. A dança, como na forma de uma imagem característica e móvel, é o próprio sagrado.
Assim, a vida, como peregrinação para Deus, é, no fim, uma busca para se manter aberto para o novo e para a mudança que acontece na alma, comparável ao evento de um renascimento.
A dança é a linguagem figurativa mais imediata que flui do hálito do movimento. Ela é tida, enfim, como o primeiro testemunho de comunicação criativa. Nos povo que ainda atribuem um sentido ao invisível, a dança é, ainda hoje, pedido e oração. Nela, o homem consegue exteriorizar todos os atos primevos da alma, desde o medo até a entrega libertadora. Mas o número de povos que consegue se elevar, desde seus medos primitivos, ao verdadeiro encantamento e à loucura, no êxtase da dança, é cada vez menor.
Contudo, em nenhum lugar o homem é tão exigido em sua totalidade. Aqui, por fim, ele se encontra não só consigo mesmo, mas também com o tu, com o mundo em redor, com o grupo, com a alteridade, tão simplesmente. A dança é para ele um meio de auto-realização. Em íntima ligação com a música, ele recebe a harmonia ou a reconquista.
Não por acaso o homem exprime na dança a sua mais pura alegria e seu prazer. A dança lhe concede no brilho e a leveza para as festas e celebrações de sua vida.
Parece que, no mais tardar, este caminho foi perdido, para nós ocidentais, desde a Renascença, e o esforço de reconquistar a bem-aventurada elevação espiritual perdida, termina, não raramente, num mundo do ‘como se’.
A dança, como toda obra de arte, surge a partir da meditação. A dança, em especial, tem essencialmente a ver com a meditação, porém, só quando oi bailarino verdadeiramente participa e é arrebatado pela sua musa. Jamais uma fonte pode se nos tornar acessível, se nós não mais acreditarmos nela. Este ser arrebatado, porém, é o elemento meditativo. Contrariamente a isto estão aqueles esforços dedicados essencialmente à apresentação e ao desempenho. Contrariamente também ao refletir e ao analisar intelectuais, o objeto da meditação deve ser movimentado na alma através de exercícios contínuos – o caminho da meditação leva de dentro para fora.
O objeto da meditação é, para o bailarino, o seu corpo. Este é para ele, ao mesmo tempo, moradia e instrumento. Durante o exercício, durante a dança, ele deve apropriar-se inteiramente dele, preencher todos os seus recantos. O colouim internum leva a si mesmo, assim como à fusão com o objeto: calor, circulação e suor produzem um despertar interior, flexibilidade e solução. A inspiração e a expiração são mais profundas, a tensão e o relaxamento são mais intensos, a correção do equilíbrio interno e externo é repetidamente treinada. O aumento do suor leva a uma eliminação de resíduos. No todo, este processo é, a cada vez, um passo para a autodescoberta.
Este processo é comparável a um trabalho de lapidação, que permite ao diamante bruto tornar-se numa pedra preciosa lapidada, brilhante e reluzente.
Da mesma forma, um bailarino bem treinado reflete as leis cósmicas. A qualidade deste reflexo só se verifica quando corpo e espírito estão fundidos em harmonia. Esta perfeição, se for, só será atingida, através de longos anos de meditação da dança.
O ser iluminado significa aqui o domínio das leis estáticas e dinâmicas, durante o movimento de dança: domínio da rotação, das forças centrífugas e centrípetas, assim como do exato direcionamento do corpo e das articulações nos ângulos que garantam o equilíbrio.
Na vida das antigas culturas altamente desenvolvidas e dos povos naturais a dança atuou profunda e amplamente na sua existência. O que restou disto para nossa região européia se cindiu em divertimentos sociais, danças como apresentação em sua forma artisticamente mais elevada, o balé, e as danças de roda populares mantidas, mais ou menos vivas. Nas danças por exemplo, da Grécia, a sua origem cúltica é nitidamente sensível. Aqui não se trata somente de um caminho do encontrar-se-a-si-mesmo, mas também, do encontrar-a-comunidade. O passo do individual para o grupo encontra, aqui, a sua expressão mais intensa.
Aquele que medita dançando encontra um adensamento de seu ser em um tempo não mais mensurável, no qual a força mágica da roda se manifesta. Quando os dançarinos se ordenam num círculo, de acordo com a tradição, eles se dão as mãos. A mão direita torna-se a que recebe e a esquerda a que dá. (hemisfério sul, a mão direita dá e a mão esquerda recebe)
A palavra de comando passada pelo bailarino que se encontra em primeiro lugar na ordenação se move no sentido horário, para o lado esquerdo, correspondendo ao fluxo das lembranças. Contudo, a direção geral da dança flui contrariamente ao relógio, ao sol, à luz, para a direita. Este é o fluxo do conhecimento e da iluminação.
Eu tenho aqui uma associação para o símbolo da era de aquário, no qual dois fluxos correm paralelamente, em direções opostas, mas se harmonizam numa vibração conjunta.
Os gregos dizem, que, quando dançam, eles são acompanhados por Apolo e Dionísio. O rítmico Dionísio à esquerda e a força ordenadora de Apolo, que marca o compasso,à direita, dão asas ao homem, que dança no meio do Orfeu mortal representado neste quadro e exprime sua aspiração na melodia de sua voz.
O êxtase dionisíaco também pertence à herança clássica da dança, que se exprime nessas danças, que são estimuladas por ritmos vitais. Em nossa época temos uma compreensão especial para a forma arquetípica do rítmico Dionísio. Ele é o excitável, preso ao inconsciente de todas as forças da natureza. Ele é tido como imagem da existência imediata e da perdição total. Ele é o dançante embriagado, o ruidoso portador da alegria, mas também o deus sofredor, que, como um arado, resolve tudo o que enrijeceu e o que sobreviveu, preparando assim a terra para nova vida. Uma dedicação unilateral ao apolíneo conduziria ao formalismo e um exagero do dionisíaco provocaria um afundamento no caótico.
Estes elementos distintos da roda, com as suas prioridades dinamizadoras, diluindo as tensões, soltando o que está contraído, favorecem o tornar-se livre das forças criativas e ordenadoras ao mesmo tempo.
Nas danças da Renascença as leis de forma clássica sofreram um renascimento e foram levadas a um novo florescimento. No esforço de refletir as leis cósmicas nas danças produziram-se na música as suítes clássicas de Telemann, Rameau e Bach para as danças tais como Allemande, Bourrée, Sarambande, Courante, etc. Encontramos variações de ordem estílisticas destas formas clássicas nas danças das valsas , das mazurkas, das polcas, na época burguesa do romantismo…
Eu tentei pesquisar as leis cósmicas na era da dança nas correntes reminiscências e conhecimentos. Os elementos das épocas mágica, mítica, palaciana e outras, com suas variações de estilo, continuam a viver em nossos tempos e conduzem a novas criações.
Com toda a pressão de se criar algo novo, o conhecimento dos mestres será convocado a não deixar romper o fio para as sabedorias.
Bernhard Wostien (pesquisador e divulgador das Danças circulares Sagradas) – livro Dança – Um Caminho para Totalidade (cap. Entre Deus e o Mundo – A Dança)
- Ed. Triom 2000 Brasil e Ed. Veritas 1988 Austria